Emocionário – o dicionário das emoções

Identificar as emoções que sentimos é premissa base para que daí se aprenda a gerir o que se sente, permitindo-nos ter um maior controlo sobre as respostas que somos desafiados a dar nas mais variadas situações da nossa vida. Sem esta consciência dificilmente conseguimos ter algum domínio sobre o que de desencadeia em nós e que nos leva a ter reações nem sempre adequadas face ao que acontece.

A capacidade de nos autorregularmos, tão importante na vida, pressupõe assim que se saiba reconhecer e nomear as emoções que existem em nós, algo que podemos e devemos ensinar às crianças desde cedo.

A crianças com cerca de três anos já lhes podemos falar sobre a raiva, a vergonha, o medo e a alegria. À medida que crescem podemos explorar emoções mais complexas como o tédio, o ciúme, a culpa, a timidez, o orgulho, a gratidão, entre tantas outras.

Este é um livro para ir consultando sempre que sentirmos necessidade de aprofundar ou explicar uma emoção para que a criança a compreenda melhor e consiga lidar melhor com ela. Utiliza-se tal como um dicionário onde procuramos a definição e aplicação de determinada palavra.

Por vezes em casa pegamos nele só por graça, para aproveitarmos aqueles momento de ócio, educando para as emoções de uma forma leve e divertida.

Noutras situações recorremos a ele quando alguma situação propicia uma conversa sobre determinada emoção, explorando um contexto em que ela tenha surgido.

Sinopse

Até onde consegues chegar com as tuas asas? As asas dos pássaros têm penas. As asas das pessoas têm palavras. Mas nem todas as palavras te ajudam a elevares-te. Só as palavras que expressam claramente como te sentes aumentam as tuas possibilidades de voar.
O “Emocionário” é um dicionário de emoções que te impulsionará para um voo muito especial… E vais ver que nunca mais quererás deixar de bater as asas.

Editado em Portugal por: Texto Editora

Autores: Cristina Núñez Pereira e Rafael R. Valcárcel

Boas leituras!

Jardineiros de almas façam florescer as nossas crianças

professores

 

Muitas vezes, quando passam para o lado de lá (ensino obrigatório), parece que lhes roubam a alma’.

Foram estas as palavras que me ficaram na cabeça e me pesaram no coração na última reunião que tive com a educadora de pré-escolar da B.

Daqui a poucos dias ela ingressa na escola primária. Desde que entrou com os 3 anos para o Pré-Escolar temos tido a sorte de encontrar educadoras sensíveis à área socio-emocional e ao desenvolvimento das soft skills, que hoje sabemos, são tão determinantes para a capacidade de gerirmos a vida e os inúmeros desafios com que nos brinda, de uma forma saudável e equilibrada.

A estas educadoras devo três anos de estímulo, de descoberta dos outros, do mundo e da tão importante autodescoberta, de empatia, de sabedoria na resolução de conflitos, de abordagens sensíveis e criativas aos valores humanos que norteiam o ser e estar destas crianças de tão tenra idade, de graça e encanto na partilha de conhecimentos e emoções.

Com as educadoras e auxiliares com que se cruzou a alma da minha filha cresceu e fortificou-se, por isso muito lhes agradeço pelo inestimável acompanhamento de dias e dias em que não estando eu, estiveram elas… tão sabiamente elas.

Mas a alma da minha filha está ainda a florescer, a ser moldada. É ainda muito influenciável ao ambiente que a rodeia e às pessoas que com ela interagem, especialmente se forem pessoas que considere uma referência. Naturalmente que procuramos sempre acompanhá-la e orientá-la e estamos muito convictos do poder que, enquanto pais, temos em inspirá-la e influenciá-la para que cresça feliz e se mantenha espontânea, alegre e genuína como é. Mas não escondo o receio de que nesta nova fase, na passagem para o ensino obrigatório – na pressão para que escolas, professores e alunos correspondam a métricas e avaliações ao mesmo ritmo e nível – a singularidade da minha menina se perca, formatando-a às exigências das provas, dos objetivos académicos e dos rankings em detrimento do tanto mais que ela traz guardado em si e tão genuinamente gosta de explorar e partilhar.

Temo que ela, ainda tão permeável e tão sensível, se intimide, se enfade, se diminua e definhe. Receio que perca o brilho do olhar de quem aprende com curiosidade e entusiasmo, o ímpeto de fazer acontecer de quem acredita que pode ser o que quiser, a motivação de quem é encorajada porque a fazem acreditar que é capaz e pode fazer sempre melhor, a garra de quem sabe que os erros são ótimas oportunidades para aprender, e não antecâmaras da culpa, do medo e da vergonha.

Temo que nesta nova fase em cada cadeira, de carteiras em filas perfeitas, não se veja um rosto, uma personalidade, talentos diferentes e aptidões tão próprias a serem explorados pelo que de melhor têm a dar, ao invés de se perceber a melhor forma de os ensinar, os cativar e os interessar, mantendo acesa a chama que os alimenta.

José Pacheco diz que ‘as provas, não provam nada’. Na verdade elas provam, por vezes tarde e mal, que os 5, 20, bons ou muito bons não garantem futuros risonhos e sonhos concretizados. Não garantem carreiras de sucesso e relações apaixonadas. Não garantem a competência para lidar com as vulnerabilidades e as incertezas quando as expectativas se desmoronam e os planos dão para o torto.

E então o que peço é tão simples: não roubem a alma à minha menina nem a nenhuma outra!

Educadores e professores, estimulem as crianças, os seus sonhos e talentos. Sejam qual jardineiros que cultivam almas com afetos, encorajamento, respeito e integridade, e regalem-se então a ver o fruto desta educação florescer aos vossos olhos e embelezar este imenso jardim que é a nossa vida.

Amuletos de amor para o regresso às aulas… e outros desafios que os pequenos enfrentam

 

Todos nós nos deparamos com dias mais desafiantes de quando a quando. Dias que nos tiram da zona de conforto, que nos exigem mais, que aguçam ou expõem as nossas fragilidades. Dias em que somos confrontados com o que desconhecemos e simplesmente preferíamos manter-nos no nosso casulo. Nessa altura recorremos o melhor que podemos a estratégias mais ou menos elaboradas para aumentar a nossa autoconfiança. Erguemos a cabeça e seguimos em frente, mesmo sentindo o coração tropeçar a cada passo. Isto somos mais ou menos nós, os adultos…

Mas quando a situação se passa com uma criança, como fazemos para aumentar o seu conforto, para a tranquilizar? Como a fazemos crer que aconteça o que acontecer ‘está tudo bem’? Que estratégias temos para a apoiar, especialmente naqueles dias que não vamos poder estar ao seu lado o tempo todo, a segurar-lhe a mão?

Com a B há algum tempo que utilizamos um recurso que a tem ajudado a enfrentar com mais confiança os desafios dos dias mais difíceis.

Há 3 anos, como presente de Dia da Mãe, a B, na altura com 3 anos, ofereceu-me uma pulseira em macramê com uma pedra da cor dos seus olhos. Desde desse dia que é raro tirá-la do pulso. A única exceção acontece apenas nestes dias difíceis que ela enfrenta.

A primeira vez que a senti insegura e temerosa foi no dia em que foi para a nova escola do pré-escolar, deixando os amigos que a acompanhavam há dois anos. Sabia que apesar da espontaneidade dela e da sua capacidade de socialização aquele primeiro dia, num novo espaço, com adultos e crianças estranhas, deixava-a intimidada. Quando a fui deixar de manhã ela abraçou-se a mim e disse que não queria ali ficar. Eu tinha de ir trabalhar e sabia que ela rapidamente se ambientaria, mas precisava de a ajudar a sentir-se confortável e confiante. Recordei-me então de uma história que tinha lido, a de um pequeno guaxinim. Procurando adaptá-la ao contexto, lembrei-me que podia transformar a minha pulseira, que ela sabia ser tão especial, num amuleto de amor que nos unia às duas. Tirei a pulseira do pulso enquanto ela olhava com estranheza para o que estava a fazer e disse-lhe:

– Sabes que a mãe adora esta pulseira porque sempre que olho para ela me lembro de ti e dos teus lindos olhos, e também porque foi um presente que me deste com muito amor. Ter esta pulseira comigo aquece-me o coração porque me faz sentir que estou sempre contigo, esteja onde estiver.

E perguntei-lhe:

– Queres hoje ficar com a minha pulseira? Acho que ela te vai ajudar a lembrar que apesar de ficares nesta escola que não conheces com pessoas que te são estranhas, não ficas só. Assim, há um pouco de mim que fica contigo.

O rosto dela, até então temeroso, iluminou-se num sorriso.

Pedi-lhe para ter o cuidado de não a tirar porque era uma pulseira muito especial, mas sempre que durante o dia se sentisse mais triste ou assustada podia olhar para ela e tocar na pedra. Essa pedra iria lembrar-lhe do grande amor que sinto por ela e dar-lhe força até que nos voltássemos a ver ao fim do dia.

Assim foi nesse dia. E no dia em que participou numa pecinha de teatro apresentada noutra escola… E no dia em que foi de passeio, para fora… E no dia em que a mãe de uma amiguinha da escola a levou para lanchar e passar a tarde com as amigas na casa dela… E no último dia do pré-escolar em que ia falar ao microfone e participar nas marchas com toda a gente a assistir. Foi também assim nesta segunda-feira, em que passados quinze dias em que esteve permanentemente connosco durante as férias, voltou à escola, mas não à que conhecia. Foi para a escola dos ‘crescidos’, ao lado da Pré, onde vai frequentar o 1º Ciclo.

Enquanto me afastava pude ouvi-la entusiasmada a explicar porque é que a mãe lhe tinha confiado a pulseira que trazia no pulso.

Fui-me embora tranquila, com o pulso mais leve, mas de coração cheio.

 

Para quem tiver curiosidade, se quiser inspirar ou simplesmente ler às suas crianças, esta é a história do pequeno guaxinim*:

Era uma vez um guaxinim chamado Chester, que vivia na floresta com a sua família. Chegou o mês de Setembro e a escola estava quase a começar. Mas o Chester não queria ir para a escola! Ele gostava tanto, mas tanto da sua mãe, que não queria separar-se dela… Por isso andava triste, assustado e angustiado, com a ideia de que o dia de ir para a escola estava mesmo quase a chegar.

A mãe explicou-lhe que a nova escola era muito bonita e nova a professora muito amiga, mas não adiantou nada… O Chester continuava triste e preocupado!

Até que chegou o grande dia e a mãe, ao vê-lo triste, contou-lhe um segredo muito antigo, chamado “um beijo na mão”.

Com muita ternura abriu-lhe a mãozinha e beijou-a carinhosamente. O Chester sentiu o calorzinho do amor da mãe, que subiu da mão para o braço e do braço para o coração e ficou logo a sentir-se melhor.

“Quando estiveres triste ou assustado, encosta a mão ao teu coraçãozinho e verás que logo ficas bem!” disse-lhe a mãe.

E assim foi. O Chester foi para a escola contente e tudo lhe correu bem, pois sabia que podia separar-se da sua mãe, porque o amor dela irá sempre com ele, no seu coração, para onde quer que ele vá!

 

*adaptação da história original A Kissing Hand for Chester Raccoon de Audrey Penn