Amo-te Pai!

– Amo-te Pai!

Estas têm sido as palavras que mais ouvi sair da boca da minha filha mais velha nestes últimos dias, imbuída pelo entusiasmo de preparar uma surpresa para celebrar o Dia do Pai. Uma alegria contagiante que a muito, muito custo tem conseguido manter a surpresa sem desvendar o que se trata.

Talvez ainda não compreenda plenamente o tamanho da grandeza do seu gesto repetido ao longo das horas que temos de partilha, gesto esse que repõe o meu depósito de afectos nos níveis máximos de Amor e ganha mais importância do que qualquer lembrança ou presente que me possa oferecer neste dia.

Mas dou por mim a pensar, porque não me lembro de alguma vez ter dito ao meu Pai tão importantes palavras, ou até umas mais simples como um simples Gosto de ti. Não que o meu Pai não saiba o quanto gosto dele, ou o valor que dou aos seus períodos de ausência durante a minha meninice para que me pudesse dar a melhor infância possível.

A sua reserva em expor publicamente os seus afectos também me foi transmitida como sendo um legado importante, talvez procurando não demonstrar o que se entendiam como ‘fraquezas’ (no fundo a nossa vulnerabilidade) ou não banalizar a importância de tão sinceros sentimentos. Nunca foi explicito para mim o motivo certo. Confesso que esta perspectiva também me fez sentido, até ao momento em que assumi o papel da paternidade, que me fez reflectir que uma demonstração dos afectos sincera não é um sinal de fraqueza, mas pelo contrário é um sinal de grandeza.

Assim neste dia, claramente ficarei com o meu depósito de carinho cheio por força das surpresas e dos momentos de partilha com as minhas pequenas pedras preciosas me proporcionarão, mas quero também alimentar o espírito de quem é o grande responsável pela minha existência e boa parte da minha experiência.

– Obrigado, Pai! Amo-te!

Ser ou não ser Pai, eis a questão!

Ser Pai

 

Vejo a missão de SER pai como uma experiência de vida linda, desafiadora, transformadora e de constante aprendizagem. No universo masculino nem sempre foi assim (felizmente, há ventos de mudança). SER pai pode ser uma questão bem ao estilo de William Shakespeare:

Ser ou não ser Pai? O que é de facto SER pai? Ou que pai queremos SER?

Creio que estas devem ser ‘as’ questões para quem já é pai ou está a planear sê-lo.

Na minha opinião, e apesar da luta pela equidade parental, ainda subsiste a crença que entende o papel do pai como ‘acessório’ para o desenvolvimento da criança, de tal forma está instituída a força materna neste campo. Na verdade, parece achar-se que a relevância do pai assume-se apenas em determinados momentos, os lúdicos ou aqueles em que se torna necessária a presença da figura paterna através do poder da autoridade que imana ou pela segurança que transmite, ambas resultantes da “força” da sua presença. Não será por acaso ou sequer estranho ouvirmos crianças debaterem-se sobre qual tem o melhor pai sob o argumento de que “o meu pai é mais forte do que o teu”, como se fosse esse o barómetro da masculinidade da figura ou o sentido da paternidade na vida de um filho.

No entanto, o mais importante para a criança não é medido pela força da figura paternal, mas sim pela qualidade do SER pai, pelos laços que se constroem todos os dias, através da presença a cada momento. É aí que de facto reside o cerne da questão.

SER pai é SER integralmente presente, envolver-se e acompanhar o desenvolvimento e crescimento dos filhos, participando nas várias etapas e atividades da criança, ciente que de que trata, não de uma obrigatoriedade associada ao nascimento da criança, mas de um privilégio.

SER pai é não se alhear ou guardar o papel para quando dá jeito ou nos ‘chega a mostarda ao nariz’, mas ver a educação de um filho como uma missão conjunta entre aqueles que tanto o amam, preparando-o para o futuro, para que consiga desenvolver um sentido crítico suficientemente resiliente para perseverar na vida, sem se deixar levar pelas perspectivas superficiais que todos os dias nos entram pela porta dentro, de tão facilitado que se tornou o acesso à informação.

É também por ter construído esta perspetiva do que é SER Pai nos dias de hoje que não me revejo nas premissas da educação parental tradicional – se fizeres o bem serás recompensado e se fizeres o mal serás punido. Na minha opinião até é uma abordagem que até poderia resultar, se estivesse permanentemente presente. Mas, como sei que não fui abençoado com o dom da omnipresença, acabo por ter as minhas dúvidas, de tal forma que me levam a questionar:

E quando não estiver presente? Que influência terei como pai? Que poder terá a educação que lhes dou?

Terão as minhas filhas a capacidade de olhar para dentro e escolher fazer o correto ou limitam-se a olhar em redor e aceitar o fruto proibido porque ninguém está a ver e acreditam que ninguém irá saber?

Quero educar as minhas filhas de forma a que desenvolvam a autoconsciência como uma das principais práticas para se guiarem na vida, tal como no exemplo do conto do monge que vivia num mosteiro em ruinas que me faz tanto sentido.

Acredito que o pai que escolho SER fará a diferença nas respostas que elas irão dar aos desafios que tiverem na vida. E é por isso que SER pai é a grande questão da minha vida.