Só quem se cuida é capaz de cuidar

Cuidar de nós

“Caramba! É que nem tenho tempo nem para me coçar!”

“Gostava de ter tempo para cuidar de mim mas com a casa, a família e o trabalho… não há como.”

“No próximo mês vou começar a ir ao ginásio. É que preciso mesmo!” (e passa um mês, dois, três… um ano!…

“Amiga, tomamos um café para a semana para pôr a conversa em dia?” (e as semanas vão passando, passando…)

“Faço tudo por ti, sacrifico-me tanto, e tu nem me agradeces!”

Creio que estas frases, entre outras que tais, serão familiares à maioria de nós, ou porque já as dissemos ou porque as ouvimos muitas vezes…

A verdade é que ser pai ou mãe nos dias que correm não é pêra doce e requer muito jogo de cintura. Ele é a azáfama da casa a acumular com muitas horas de trabalho, os compromissos sociais e familiares, as responsabilidades e exigências, passando pelas burocracias, as contas, as tarefas e obrigações do dia-a-dia, aos imprevistos que sempre aparecem (imagine-se) nas alturas menos oportunas, e o tanto mais que aqui se pode juntar no rol dos itens que não cabem nas 24 horas do dia.

No meio de tudo isto é tão fácil esmifrarmo-nos até à última gota, achando que podemos sempre um pouco mais, que aguentamos.

Em nossa defesa – de quem, na verdade, muito pouco se defende – vemo-nos como altruístas. Sofremos mas fazêmo-lo pelos nossos! Os nossos filhos, a nossa família. Por todos aqueles que amamos, que contam connosco e/ou precisam de nós.

Mas que consequências nos traz essa entrega sem limites, desregrada, que tantas vezes nos deixa esgotados física e emocionalmente?

Ao entrarmos nesta espiral de sacrifício e doação contínua, esticando ao máximo as nossas capacidades, há sempre uma altura em que acabamos por ceder. Afinal, somos de carne e não de ferro (e atenção que até o ferro enferruja). Há-de haver uma altura em que começamos a dar mostras de desgaste, e não raras vezes acabamos por adoecer ou, então, exteriorizamos o que já não cabe em nós com reações inadequadas. A irritabilidade e os ressentimentos começam a ganhar espaço, moldando a forma como reagimos. Quando a pressão se acentua é exatamente sobre aqueles por quem entendemos que nos sacrificamos que tendemos a descarregar a pressão, como se de alguma forma fosse deles a responsabilidade de zelarem pelo desmazelo de não cuidarmos de nós.

Quem já andou de avião sabe que antes de se iniciar a viagem a hospedeira faz sempre uma introdução às regras de segurança e ao que fazer em caso de emergência. Numa das indicações informa que em caso de despressurização da cabine, as máscaras de oxigénio cairão automaticamente. Nesse caso, se estiver acompanhado por alguém que necessite do seu apoio, como crianças, deverá ser o primeiro a colocar a máscara e só depois deve ajudar quem necessitar do apoio.

Esta regra não é apenas válida para as viagens de avião. Na verdade, (naturalmente, de forma figurativa) garante também a nossa segurança e bem-estar na vida e torna mais saudáveis as relações.

Não será possível cuidarmos eficientemente de ninguém se antes de mais não cuidarmos de nós mesmos. O nosso auto-cuidado deve estar em primeiro lugar e isto não é ser egoísta, nem estarmos a negligenciar ninguém, mas sim ser sensato e responsável. Antes de mais, temos de assumir que a responsabilidade de nos cuidarmos é nossa e de ninguém mais.

Ao reclamarmos da falta deste cuidado pelo quanto nos dedicamos a filhos, família, ou outro alguém de quem cuidamos, estamos a atribuir ao outro a responsabilidade pelo nosso bem-estar, o que é não só demasiado pesado e injusto para o outro, mas também configura uma auto-percepção de incapacidade para mudar o que não nos satisfaz.

Basicamente se atribuímos a responsabilidade a outro pela opção que nós não tomamos, é como se lhe disséssemos: “eu estou assim por tua culpa”. A culpa raramente tem efeitos positivos e é altamente corrosiva para os relacionamentos.

A este nível, a psicologia adleriana fala sobre o conceito de ‘separação de tarefas’. Quando culpamos o outro por uma responsabilidade que é nossa não estamos a fazer a devida distinção entre as tarefas que nos cabem a nós e as que cabem aos outros. Desta não distinção surge a nossa desresponsabilização e culpabilização do outro, e daqui só pode advir sofrimento.

Contudo, se eu assumo a responsabilidade do que não estou a fazer por mim, então também assumo a opção de mudar a realidade em que me encontro e não me agrada. Passo da atitude passiva a uma atitude ativa. Podem acreditar que isto faz toda a diferença na forma como conduzimos as nossas vidas.

Ao promovermos o auto-cuidado não só estamos a garantir o nosso bem-estar e equilíbrio físico e emocional, mas também estamos então mais aptos a cuidar das pessoas que de nós dependem ou com quem nos relacionamos e oferecemos os nossos préstimos. Outra vantagem também muito importante – mais então se falamos de crianças – é o exemplo que passamos, mostrando a importância de não negligenciarmos as nossas próprias necessidades e limites e de nos cuidarmos para melhor cuidarmos dos que precisam de nós.

EPÁ!!! ESPERAS SFF?!!!

Esperas

Ser visto, reconhecido, é uma das grandes necessidades de qualquer pessoa. O ser tido em conta, ter alguém (idealmente de referência) que nos dê atenção é algo que todos precisamos. Ora, com as crianças – desde das mais pequenas, que muito do que percecionam sobre si mesmas depende da resposta dos outros, às maiores, que estão em plena fase de construção da sua personalidade – a necessidade de terem a nossa atenção ainda é mais premente.
Cá por casa, a B (6 anos) é pródiga em pedir a nossa atenção, sendo que por norma o fazia de forma inadequada. O primeiro ‘Mãe!…’ ainda correspondia a graus aceitáveis de demanda, mas no segundo ‘MÃE!!’ a impaciência começava a apoderar-se dela e daí a estar a berrar-me aos ouvidos era um ápice.
Todos nós sabemos o quanto isso é irritante, especialmente quando estamos a meio de uma conversa, seja com alguém que está à nossa frente ou ao telefone.
Face à insistência e volume, não era raro, já em fim de paciência, sair-me um ‘EPÁ!!! ESPERAS SFF?!!!’.
A questão é que nem sempre a linguagem verbal pode ser o melhor método para comunicarmos nas relações. Às vezes a linguagem não verbal, como sinais combinados com as crianças, é mais eficaz.
E então que solução é que encontrei para esta forma inapropriada da minha filha pedir a minha atenção?
Combinei com ela um sinal. Sempre que ela precisa da minha atenção e eu estou ocupada, em vez de berrar, ela aperta a minha mão. Por norma, se não poder logo atendê-la, olho para ela e digo-lhe:
– Dá-me 5 minutos e já te dou toda a minha atenção.
Sabendo que vou respeitar o tempo que lhe indiquei para aguardar, ela espera porque se sente reconhecida e respeitada, e ainda que não tenha de imediato correspondido ao que queria, sente-se valorizada com o meu comprometimento em dar-lhe a atenção que ela necessita num curto espaço de tempo.
Na maior parte das vezes esta estratégia tem resultado. Porém, acontece uma ou outra vez em que, ansiosa, se esquece do combinado, e então aí, ao primeiro ‘MÃE!!’ acima dos decibéis relembro-a:
– O que é que nós combinámos?…
– Ahh, pois foi. Desculpa…
E já ninguém se irrita.

A professora ralhou comigo…

Ralhete

No final da primeira semana de aulas, já ao fim da noite, quando nos estávamos para deitar, a B pediu para ficar só uns minutos na nossa cama.

– Sabes, mãe, preciso de um pouco de mimo. Hoje não foi um dia muito bom…

– Mas passou-se alguma coisa?

– Sim, mas não quero contar…

– Sabes que podes confiar em mim. Estou aqui para te ouvir. Às vezes ajuda se conversarmos…

– Sinto-me mal. Hoje a professora ralhou comigo.

– Queres-me contar o que aconteceu para ter ralhado contigo?

– Foi durante a aula. Estava a falar e a brincar com o meu colega de mesa.

– Estou a ver… E o que é que a professora te disse?

– Que não podíamos estar a brincar e que se continuássemos tinha de nos separar.

– E tu não te queres separar do teu amigo?

– Não…

– Ok. E a professora ralhou quando estavas a fazer algum exercício, quando estava a explicar alguma coisa,…?

– Eu já tinha terminado o exercício e o meu colega também. Mas os outros meninos ainda estavam a fazer.

– Parece-me que se calhar a vossa conversa e brincadeira estaria a destabilizar os colegas e por isso a professora chateou-se um pouco, não?

– Sim, acho que foi isso.

– E como te sentiste quando a professora ralhou contigo?

– Muito triste… Fiquei com uma grande vontade de chorar, mas não chorei.

– Percebo. Uma vez quando tinha a tua idade uma professora também ralhou comigo mas porque me tinha enganado a responder a um exercício. Lembro-me de me ter sentido muito mal. Se calhar podemos pensar no que podes fazer para a professora não voltar a ralhar contigo e também para que não te separe do teu amigo. O que achas que podias fazer?

– Se calhar é melhor não brincar…

– Parece-me bem. Podes tentar deixar para o intervalo. Mas se calhar, quando acabas o trabalho e os outros meninos ainda estão a fazer, podes fazer alguma coisa que não faça barulho ou distraia os outros meninos.

– Sim, mãe. Vou fazer isso… Mas agora posso adormecer abraçada a ti? Obrigado por me ouvires.

– Obrigado eu, meu amor, por confiares em mim.

E assim ficou, abraçada, até adormecer. Eu fiquei a pensar que realmente conhecer ferramentas de Disciplina Positiva e Parentalidade Consciente faz toda a diferença na forma como me relaciono com as minhas filhas.

Nesta noite consegui acolhê-la, sem a julgar, só procurando que ela se sentisse aceite. Queria que a necessidade dela fosse atendida naquele momento sem sermões ou a expor a vergonha e culpa. Até porque ela, sendo uma criança com uma grande necessidade de agradar, já se sentia mal o suficiente com a repreensão.

A B é uma criança enérgica, cheia de vida, muito comunicativa, que adora interagir, mas que está a aprender a lidar com novas rotinas e exigências. Sei que é um enorme desafio para ela muito embora se empenhe para que tudo corra bem.

Quando compreendemos que um ‘mau comportamento’ ou inadequado tem subjacente uma necessidade que precisa de ser atendida torna-se lógico que existem recursos que devem ser facultados para que a criança consiga responder de uma forma adequada ao desafio que tem em mãos. Acontece, porém, que muitas vezes também nós, pais e educadores, temos recursos limitados para lidar com os desafios que eles nos apresentam, porque não estamos despertos para estas ‘necessidades’, e apenas nos focamos no comportamento. Na ânsia de que a criança faça o que achamos ajustado e pare de se ‘comportar mal’ somos levados a fazê-la sentir-se mal para que se corrija.

Jane Nelsen, criadora da Disciplina Positiva, tem uma célebre frase que nos deve colocar a refletir sobre estas situações:

“De onde tirámos a ideia absurda de que, para fazer com que as crianças ajam melhor, primeiro devemos fazê-las sentirem-se pior?”

No caso da B, que sei o quão susceptível se sente face a críticas e o quanto desmoralizada fica com atitudes de punição e repreensão, percebo que ser repreendida em frente de toda a turma a angustiou e a fez sentir-se envergonhada. Da mesma forma que percebo que ao acabar uma determinada tarefa, ficando sem o que fazer, se comece a sentir entediada e acabe por começar a conversar, brincar,…

Quantos de nós, quando, estando numa reunião, a assistir a uma palestra, ou outra situação idêntica um pouco mais aborrecida, não começamos a mexer no telemóvel, a iniciar uma conversa paralela com a pessoa do lado, nos distraímos com o que se passa do outro lado da janela? Isto só para dar alguns exemplos. E, ainda assim, esperamos que uma criança consiga ficar perfeitamente concentrada e quieta, sabendo à partida da sua impreparação e imaturidade própria da idade?

Entre as estratégias e ferramentas que descobri ao aprofundar abordagens conscientes e positivas de educar e me relacionar com as minhas filhas, fiquei a pensar noutras opções que podem ser consideradas nestas situações. Pode-se optar por se aproximar da mesa e bater no tampo com a ponta da caneta e, posteriormente, aproveitar o final da aula para conversar com os meninos sobre o comportamento inadequado, combinando outras alternativas mais adequadas. Eventualmente, se ambos já tivessem acabado a tarefa, talvez lhes pudesse ser dada outra coisa para fazerem ou então poderiam ir por 5 minutos à biblioteca enquanto os colegas terminavam. Talvez, para as crianças mais irrequietas, se possa combinar um sinal ‘secreto’ que é ativado para lembrar a criança que se está a exceder e precisa de se acalmar. Uma reunião de turma, para definir conjuntamente regras de conduta na sala de aula, em que os alunos são de facto incentivados a contribuir com as suas sugestões e soluções construtivas (não punitivas), também ajuda, porque as crianças ficam realmente mais motivadas a cooperar e a responsabilizarem-se se se sentirem envolvidas nas decisões. Talvez se possa pedir aos primeiros a terminarem que ajudem os colegas que precisam de ajuda… Ou talvez se possa advertir mas utilizando o humor para gerar empatia e proximidade. Estar um bocadinho num ‘espaço da calma’, criado por toda a turma, também poderia ser outra opção.

Confesso que é de facto mais imediato, quando o nosso foco é outro, acabar por adotar os recursos tradicionais para gerir uma situação de desafio de comportamento. Afinal sempre fizemos assim. Mas se em consciência nos perguntarmos: Como me sentiria se alguém me advertisse assim? Imaginemos que é o nosso chefe, o nosso marido ou companheiro… Isso faria sentir-me motivada a mudar? Teria um efeito positivo em mim? O que eu estaria a decidir fazer?

Há um enorme desafio nesta consciencialização. É preciso alguma criatividade e uma grande vontade de criar relações genuínas e inspiradoras para se pensar noutras formas de gerir os desafios de comportamento de forma empática, respeitando-nos a nós próprios e à criança, especialmente quando não estamos habituados a responder ‘fora da caixa’. Para isso, se percebermos em nós esta necessidade e quisermos fazer melhor, é preciso questionarmos a forma como nos relacionamos e procurar novos recursos que nos apoiem, com as ferramentas que nos façam sentido utilizar face à intenção que temos enquanto pais e educadores. E já agora, talvez devamos começar, antes de mais, por definir a intenção que temos enquanto educadores. Temos realmente pensado nisso?