As competências prioritárias para este regresso às aulas

Competências neste regresso às aulas

 

Bem sei que desde março que a escola não é bem escola. Sei que há conteúdos que ficaram atrasados. Que é preciso regressar a eles e fazer uma desafiante gestão do tempo para conseguir recuperar o que ficou por dar e não deixar de ensinar o que está previsto para este ano lectivo. Sei tudo isso… Mas quando penso nas competências em que será mais importante nos focarmos neste regresso às aulas, coloca-se para mim a seguinte questão:

Depois de meses de confinamento e isolamento, em que as crianças se viram privadas da escola, dos amigos, da convivência com educadores e professores e outros adultos de referência nas suas vidas, ao mesmo tempo que estiveram a aprender a lidar com novas regras e limitações deste “novo normal” imerso em incerteza, será que a prioridade será fornecer conteúdos e competências académicas?

Diria que é importante fazê-lo, mas a prioridade deve estar em promover competências socio-emocionais que permitam as crianças e adolescentes passarem por estes tempos conturbados não apenas com mais bagagem de informação, mas com capacidades socio-emocionais que farão a grande diferença, não só agora, na forma como irão conviver e estar capazes e dispostos a aprender, mas no futuro, na promoção de uma melhor saúde mental.

Neste regresso às aulas há algumas competências que me parecem de mais valia promover-se nas salas de aula. Coragem, resiliência, perseverança, expressão de sentimentos, compaixão, empatia e o otimismo, serão por ventura as que destacaria, embora muitas outras possam incluir-se.

Resiliência, perseverança e coragem

Resiliência é definida como a capacidade de se recuperar de um evento difícil da vida. A maneira como vivenciamos e nos recuperamos desta pandemia e como apoiamos as nossas crianças neste processo Covid-19 definirá a base de como avançamos para o futuro pós-pandemia.

Desta forma, cada professor poderá na sua sala de aula procurar conversar sobre este atributo e explorarem juntos formas de se ser resiliente, inclusive dando o próprio exemplo para modelar essa característica tão importante de desenvolver para o futuro que temos pela frente.

Explorar também o que é ser corajoso e desmistificar a ideia de que não se trata de não ter medo de nada, mas antes, pegar nesse medo e agir, mesmo sentindo-o a incomodar-nos lá no fundo. Esta atitude que emerge deste desconforto acontece em prol do que nos fará bem a nós e aos que seguem ao nosso lado, mantendo-nos perseverantes nesta caminhada de recuperação.

Expressão e validação de sentimentos

Todos nós vivemos momentos difíceis e contratempos nos últimos meses. Talvez haja em muitas salas alunos cujos pais pais perderam o emprego ou parte do rendimento, algum familiar que poderá ter adoecido, privações variadas que se estenderam por semanas e semanas, festas e encontros que não se realizaram, grandes e pequenos eventos da vida perdidos. Provavelmente com poucas pessoas houve oportunidade de falarem sobre isso.

Todos nós temos o direito de nos sentirmos tristes, zangados, frustrados, impotentes, assustados, e também na sala de aula, num ambiente de validação e segurança é possível expressar essas emoções, falar sobre elas, para que se tornem comuns e menos angustiantes ou intensas. Para que no conjunto, entre professor e amigos de turma, possam dar nome ao que sentem e, quem sabe, igualmente juntos encontrem soluções válidas para os vários problemas ou pelo menos algum conforto.

Compaixão e Empatia

A compaixão e empatia serão ferramentas úteis para fazer com que na escola todas as crianças se sintam novamente seguras e integradas. A bondade e o carinho são ingredientes essenciais para recuperar forças e a ajudar toda a comunidade, com especial reflexo nas crianças, a ultrapassarem de forma mais positiva e saudável este período difícil.

As crianças poderão não ver sorrisos nos adultos por causa das máscaras, mas sentirão o calor dos seus bons dias, o acolhimento das suas emoções, a espontaneidade para os ouvir, o brilho do seu olhar ao reencontrar cada uma delas e as pequenas gentilezas que se manifestam durante os momentos de estudo ou relaxamento.

Ao regressar à escola, as interações e conexões com os colegas serão sem dúvida um grande foco. Potenciem a interajuda para que o grupo se mantenha coeso e, apesar das regras, os alunos manifestem vontade de estar na escola, junto de quem os ouve e os apoia. Apostem nos reforços positivos, nos reconhecimentos de grande e pequenas conquistas, para que todos sintam que têm um espaço conquistado naquela grande e calorosa equipa.

Otimismo

“Não importa quanto tempo a tempestade dure, o sol sempre brilha atrás das nuvens”. Aprendemos com estas palavras de Kahlil Gibran que a forma que temos de superar as dores do passado e a turbulência do presente é olhar em frente, com esperança. É exatamente essa mensagem que deve estar presente em cada sala de aula.

Em cada turma permitam-se partilhar o que aprenderam durante o confinamento. Conversem sobre os hábitos e rotinas e sonhem, façam planos e projectos para o futuro. Os sonhos são o alimento da alma e ajudarão a traçar objectivos para que a caminhada em grupo seja mais consistente e prazerosa.

Quais são as vossas prioridades?

No regresso às aulas lembrem-se que as crianças e adolescentes não levam apenas uma mochila com livros, cadernos, canetas, gel desinfectante e tudo o mais. Levam sobretudo emoções. Muitas, intensas e desafiantes emoções. É a sabedoria de saber geri-las neste contexto, em cada sala de aula, que marcará a diferença, inclusive no aproveitamento que os alunos conseguirão, mas sobretudo no seu bem-estar.

O desenvolvimento saudável e a aprendizagem efetiva acontecem em ambientes onde nos sentimos seguros, aceites e apreciados. Cabe a todos os que recebem por estes dias as nossas crianças e jovens nas escolas avaliar quais são as verdadeiras prioridades do momento.

Quais são as vossas?

Nuno Rosa

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