O caso (im)possível da divisão dos 17 camelos

Camelos

 

Um homem deixou aos seus 3 filhos uma herança de 17 camelos. Deu instruções para que os 17 camelos fossem divididos pelos 3 da seguinte forma:

– o primeiro filho ficava com metade dos camelos,

– o segundo com um terço,

– e o terceiro com um nono dos camelos.

Os filhos procuraram negociar a divisão dos camelos, mas rapidamente perceberam que não era possível dividir 17 por 2, tal como não era dividir por 3 e nem sequer por 9. Desesperados por não conseguirem desfazer aquela confusão, resolveram pedir ajuda a uma sábia idosa da comunidade onde viviam.

Depois de apresentado o problema a senhora pensou um pouco e acabou por lhes indicar que os poderia ajudar.

– Ofereço-vos o meu camelo. Assim, já ficam com 18, que dá para fazer a divisão que o vosso pai desejava.

E assim foi. Ao dividirem os 18 camelos, o primeiro filho ficou com 9 camelos, o segundo com 6 e, por fim, o terceiro com 2 camelos.

Feitas todas as divisões, ficou a sobrar um camelo. Pela generosa ajuda que a velha sábia lhes havia dado para resolverem o problema, os três irmãos decidiram oferecer o camelo de volta à idosa.

 

Muitas vezes andamos às voltas com problemas de “17 camelos”, sem encontrar solução, embrenhados em conflitos que não conseguimos deslindar. Mas quando nos afastamos do problema, damo-nos a possibilidade de encontrar um novo olhar para o desafio e encontrar novas possibilidades para resolver algo que à partida nos parecia irresolúvel.

Não raras vezes, sozinhos temos dificuldade em sair do epicentro do problema ou conflito e focarmo-nos na solução. É nessa medida que contar com alguém, talvez um familiar, um amigo, um facilitador ou um mediador, que nos apoie neste processo pode ser uma preciosa ajuda para encontrarmos os 18º camelo que falta na equação.

 

A boneca viajante de Kafka e as suas lições

 

Conta-se que certo dia, estariam Kafka e a namorada a passear juntos num parque no bairro onde viviam, em Berlim, quando viram uma menina a chorar. Kafka terá ficado curioso para saber o que teria acontecido para deixar a menina tão desconsolada. A razão era simples, a menina havia perdido a sua única boneca. Para animá-la, Kafka disse que não se preocupasse porque a boneca estava apenas a viajar.

Como sabe? – terá questionado a menina.

Ela escreveu-me uma carta. – respondeu Kafka.

Onde está a carta? – perguntou ela.

Está em minha casa, mas posso trazê-la amanhã.

Comprometido com mentira que acabara de contar, Kafka escreveu uma cartinha e levou-a ao parque no dia seguinte, onde a menina o esperava.

Na carta, a boneca explicava o porquê de ter partido para viajar, justificando a troca da sua amada dona por uma aventura.

A correspondência terá se prolongado por três semanas, tendo Kafka entregado pontualmente à menina outras cartas, que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo.

Segundo a namorada, que o via se fechar-se em casa para escrever as cartas, Kafka punha tanto esforço nas mensagens da boneca viajante quanto dedicava à sua literatura.

Decidir um destino final para a boneca terá sido uma tarefa especialmente dura. Quando Kafka decidiu terminar com os encontros presenteou a menina com uma nova boneca, obviamente diferente da boneca original. Numa carta que a acompanhava explicou:

As minhas viagens transformaram-me…

Muitos anos depois, a menina, então já jovem, encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca que Kafka lhe entregara. Em resumo, dizia:

Tudo o que amas, eventualmente perderás, mas, no fim, o amor retornará de uma forma diferente.

 

Não se sabendo ao certo se se tratará de uma história verídica, o que se sabe é que foi publicada em vários jornais e acabou por inspirar o escritor Jordi Sierra i Fabra a escrever a premiada obra “Kafka e a Boneca Viajante”.

A nós esta história inspira-nos a no dia-a-dia estarmos atentos a oportunidades para contribuirmos para melhorar a vida de alguém, desconhecido ou não, transformando a realidade, por vezes amarga e insensível, numa versão mais doce e solidária, usando os pós de perlimpimpim da imaginação.

Por mais dura que seja a realidade, há sempre como apoiar e consolar num momento de perda, de tristeza, de desânimo, tornando aquele momento um pouco mais leve, mais positivo. Talvez não consigamos ser tão criativos como Kafka terá sido, mas entre encolher os ombros, ou oferecer o ombro a alguém, preferimos a segunda opção.

Importa também reter a última mensagem desta história e eventualmente mais marcante – Tudo o que amas, eventualmente perderás, mas, no fim, o amor retornará de uma forma diferente – porque de facto assim é. A realidade está em permanente mudança. Nada é fixo, nada é permanente. O que hoje temos, amanhã talvez já não tenhamos mais. Talvez se altere. Talvez desapareça. E não é algo que na maior parte das vezes possamos controlar. Ainda assim, com a consciência da inevitabilidade da mudança, talvez nos apazigue simplesmente confiarmos que a vida nos compensará reequilibrando a perda/dádiva e, desta forma, proporcionando novas transformações e aprendizagens.