EPÁ!!! ESPERAS SFF?!!!

Esperas

Ser visto, reconhecido, é uma das grandes necessidades de qualquer pessoa. O ser tido em conta, ter alguém (idealmente de referência) que nos dê atenção é algo que todos precisamos. Ora, com as crianças – desde das mais pequenas, que muito do que percecionam sobre si mesmas depende da resposta dos outros, às maiores, que estão em plena fase de construção da sua personalidade – a necessidade de terem a nossa atenção ainda é mais premente.
Cá por casa, a B (6 anos) é pródiga em pedir a nossa atenção, sendo que por norma o fazia de forma inadequada. O primeiro ‘Mãe!…’ ainda correspondia a graus aceitáveis de demanda, mas no segundo ‘MÃE!!’ a impaciência começava a apoderar-se dela e daí a estar a berrar-me aos ouvidos era um ápice.
Todos nós sabemos o quanto isso é irritante, especialmente quando estamos a meio de uma conversa, seja com alguém que está à nossa frente ou ao telefone.
Face à insistência e volume, não era raro, já em fim de paciência, sair-me um ‘EPÁ!!! ESPERAS SFF?!!!’.
A questão é que nem sempre a linguagem verbal pode ser o melhor método para comunicarmos nas relações. Às vezes a linguagem não verbal, como sinais combinados com as crianças, é mais eficaz.
E então que solução é que encontrei para esta forma inapropriada da minha filha pedir a minha atenção?
Combinei com ela um sinal. Sempre que ela precisa da minha atenção e eu estou ocupada, em vez de berrar, ela aperta a minha mão. Por norma, se não poder logo atendê-la, olho para ela e digo-lhe:
– Dá-me 5 minutos e já te dou toda a minha atenção.
Sabendo que vou respeitar o tempo que lhe indiquei para aguardar, ela espera porque se sente reconhecida e respeitada, e ainda que não tenha de imediato correspondido ao que queria, sente-se valorizada com o meu comprometimento em dar-lhe a atenção que ela necessita num curto espaço de tempo.
Na maior parte das vezes esta estratégia tem resultado. Porém, acontece uma ou outra vez em que, ansiosa, se esquece do combinado, e então aí, ao primeiro ‘MÃE!!’ acima dos decibéis relembro-a:
– O que é que nós combinámos?…
– Ahh, pois foi. Desculpa…
E já ninguém se irrita.

Que estacas nos amarram? E porque não fugimos?

Acorrentado

Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espetáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua atuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.
No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani­mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente.
O que é que o prende, então?
Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.
Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.
Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.
Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.
Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.
E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.
Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força…
Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos restringem a liberdade.
Vivemos a pensar que «não somos capazes» de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos.
Fizemos, então, o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem:
«Não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir.»
Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e, por isso, nunca mais tentámos libertar-nos da estaca.
Quando, por vezes, sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:
«Não consigo e nunca hei-de conseguir.»
A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma… e com toda a forca do teu coração!

É belo e, simultaneamente, muito triste este conto de Jorge Bucay (Deixa-me que te conte, editora Pergaminho), porque infelizmente espelha a cultura de uma sociedade emergente. Os limites, ao invés de orientadores, são impostos desde tenra idade. Por consequência, em adultos debatemo-nos com as nossas ‘limitações’, sem flexibilidade para procurar alternativas.

O primeiro passo para nos libertarmos começa no questionamento das crenças que nos amarram.

As afirmações que nos contámos ou nos contaram tantas e tantas vezes que se tornaram verdades absolutas, moldaram a forma como nos vemos e, com isso, as respostas que damos na vida.

Estamos emocionalmente tão ancorados às certezas irrevogáveis em que acreditamos – apesar de danosas, ao menos nos são familiares e já nos acostumámos – que se alguém nos incentiva a questioná-las para nos libertarmos, agarramo-nos a elas com unhas e dentes, defendendo inclusive as nossas limitações como um obstáculo que não está ao nosso alcance questionar.

Resignamo-nos e fazemo-lo por cultura, fruto muitas vezes de uma educação que procura formatar em prol da obediência, ao invés de orientar e encorajar as valências de cada um. Vemos quem se rebele (em crianças são os apelidados de mal-educados, desobedientes, aqueles em que ninguém tem mão…) mas a maioria conforma-se e interioriza a vergonha que advém do sentimento de ‘não ser suficientemente bom’ pelo que é, precisando de se ‘apequenar’ para ser aceite, para pertencer a um lugar.

Jardineiros de almas façam florescer as nossas crianças

professores

 

Muitas vezes, quando passam para o lado de lá (ensino obrigatório), parece que lhes roubam a alma’.

Foram estas as palavras que me ficaram na cabeça e me pesaram no coração na última reunião que tive com a educadora de pré-escolar da B.

Daqui a poucos dias ela ingressa na escola primária. Desde que entrou com os 3 anos para o Pré-Escolar temos tido a sorte de encontrar educadoras sensíveis à área socio-emocional e ao desenvolvimento das soft skills, que hoje sabemos, são tão determinantes para a capacidade de gerirmos a vida e os inúmeros desafios com que nos brinda, de uma forma saudável e equilibrada.

A estas educadoras devo três anos de estímulo, de descoberta dos outros, do mundo e da tão importante autodescoberta, de empatia, de sabedoria na resolução de conflitos, de abordagens sensíveis e criativas aos valores humanos que norteiam o ser e estar destas crianças de tão tenra idade, de graça e encanto na partilha de conhecimentos e emoções.

Com as educadoras e auxiliares com que se cruzou a alma da minha filha cresceu e fortificou-se, por isso muito lhes agradeço pelo inestimável acompanhamento de dias e dias em que não estando eu, estiveram elas… tão sabiamente elas.

Mas a alma da minha filha está ainda a florescer, a ser moldada. É ainda muito influenciável ao ambiente que a rodeia e às pessoas que com ela interagem, especialmente se forem pessoas que considere uma referência. Naturalmente que procuramos sempre acompanhá-la e orientá-la e estamos muito convictos do poder que, enquanto pais, temos em inspirá-la e influenciá-la para que cresça feliz e se mantenha espontânea, alegre e genuína como é. Mas não escondo o receio de que nesta nova fase, na passagem para o ensino obrigatório – na pressão para que escolas, professores e alunos correspondam a métricas e avaliações ao mesmo ritmo e nível – a singularidade da minha menina se perca, formatando-a às exigências das provas, dos objetivos académicos e dos rankings em detrimento do tanto mais que ela traz guardado em si e tão genuinamente gosta de explorar e partilhar.

Temo que ela, ainda tão permeável e tão sensível, se intimide, se enfade, se diminua e definhe. Receio que perca o brilho do olhar de quem aprende com curiosidade e entusiasmo, o ímpeto de fazer acontecer de quem acredita que pode ser o que quiser, a motivação de quem é encorajada porque a fazem acreditar que é capaz e pode fazer sempre melhor, a garra de quem sabe que os erros são ótimas oportunidades para aprender, e não antecâmaras da culpa, do medo e da vergonha.

Temo que nesta nova fase em cada cadeira, de carteiras em filas perfeitas, não se veja um rosto, uma personalidade, talentos diferentes e aptidões tão próprias a serem explorados pelo que de melhor têm a dar, ao invés de se perceber a melhor forma de os ensinar, os cativar e os interessar, mantendo acesa a chama que os alimenta.

José Pacheco diz que ‘as provas, não provam nada’. Na verdade elas provam, por vezes tarde e mal, que os 5, 20, bons ou muito bons não garantem futuros risonhos e sonhos concretizados. Não garantem carreiras de sucesso e relações apaixonadas. Não garantem a competência para lidar com as vulnerabilidades e as incertezas quando as expectativas se desmoronam e os planos dão para o torto.

E então o que peço é tão simples: não roubem a alma à minha menina nem a nenhuma outra!

Educadores e professores, estimulem as crianças, os seus sonhos e talentos. Sejam qual jardineiros que cultivam almas com afetos, encorajamento, respeito e integridade, e regalem-se então a ver o fruto desta educação florescer aos vossos olhos e embelezar este imenso jardim que é a nossa vida.