Ansiedade de separação: quando custa dizer adeus

Ansiedade na escola

Ansiedade na escola

O início do ano letivo traz consigo mochilas, material escolar, reencontros, novas rotinas e muitas expectativas.

Mas, para algumas crianças, traz também lágrimas à porta da escola, mãos que não querem largar as dos pais, dores de barriga, medo, preocupação ou uma pergunta que se repete vezes sem conta:

“Mas vais voltar para me buscar?”

A separação de quem nos dá segurança pode ser difícil. E embora falemos particularmente dela no início do ano letivo, a ansiedade de separação não aparece apenas nesta altura. Pode surgir na entrada para a creche ou escola, numa mudança de rotina, quando a criança começa uma atividade nova, numa noite passada longe dos pais ou perante outras situações em que precisa de se afastar das suas figuras de referência.

Por isso, mais do que pensar apenas em como fazer com que a criança “pare de chorar”, talvez seja importante começarmos por compreender o que está por detrás desse comportamento.

O que é a ansiedade de separação?

A ansiedade de separação é o desconforto que pode surgir quando a criança se separa das pessoas com quem tem uma relação de vinculação significativa.

É uma resposta que pode fazer parte do desenvolvimento infantil. Afinal, para uma criança, afastar-se de quem representa segurança pode significar enfrentar, por alguns momentos, um mundo que parece maior e menos previsível.

Pode manifestar-se de diferentes formas:

  • choro ou resistência intensa no momento da despedida;
  • dificuldade em ficar na escola ou noutro contexto sem o adulto;
  • necessidade constante de saber quando o adulto vai voltar;
  • preocupação com a possibilidade de alguma coisa acontecer aos pais ou à própria criança;
  • queixas físicas, como dores de barriga ou de cabeça;
  • dificuldade em dormir sozinha ou afastada dos pais;
  • pedidos frequentes para não ir à escola ou para ficar em casa.

Nem todas as crianças manifestam a ansiedade da mesma forma. E uma criança que chora no momento da separação não está necessariamente a viver um problema.

Então… quando devemos estar mais atentos?

Mais do que olhar apenas para um comportamento isolado, importa observar o conjunto da situação.

Quanto tempo esta dificuldade se mantém?

Com que intensidade acontece?

Com que frequência?

E, sobretudo, quanto interfere na vida da criança e da família?

Quando a ansiedade é muito intensa, persistente ou começa a limitar significativamente a participação da criança na escola, nas atividades, nas relações ou noutras áreas do quotidiano, pode ser importante procurar apoio especializado.

O objetivo não é colocar um rótulo na criança. É perceber o que ela está a viver e garantir que não precisa de enfrentar isso sozinha.

O que podemos fazer enquanto pais?

Quando vemos o nosso filho chorar e agarrar-se a nós, é natural que também nós sintamos ansiedade.

Queremos tranquilizá-lo.

Queremos que pare de sofrer.

E, muitas vezes, a nossa primeira reação é tentar convencer:

“Não precisas de ter medo.”
“Não vai acontecer nada.”
“Vais ver que te vais divertir.”

Mas, quando uma criança está emocionalmente ativada, ouvir que “não há motivo para ter medo” nem sempre faz com que o medo desapareça.

Podemos começar por outro lugar: acolher aquilo que está a sentir.

“Eu sei que custa despedirmo-nos.”
“Estás com muitas saudades antes mesmo de eu ir.”
“É difícil ficar quando gostavas que eu ficasse contigo.”

Validar não significa confirmar que existe perigo. Significa transmitir:

“Eu vejo o que estás a sentir e não tens de lidar com isso sozinho.”

Algumas pequenas coisas podem ajudar

Preparar a separação

Conversar previamente sobre como será a rotina pode ajudar a tornar o que é desconhecido mais previsível.

Podemos falar sobre quem leva a criança, quem a vai buscar, o que acontece depois e quais serão os diferentes momentos do dia.

Criar um ritual de despedida

Um beijo especial, uma frase, um pequeno gesto, um coração desenhado na mão ou outro ritual familiar pode funcionar como uma âncora.

Não precisa de ser elaborado. Precisa de ser significativo e previsível.

Transmitir confiança

A criança pode sentir medo e, simultaneamente, ser capaz de ficar.

Podemos comunicar as duas coisas: “Eu sei que custa. E acredito que consegues.”

Evitar prolongar demasiado a despedida

Quando a despedida se prolonga indefinidamente, cada novo “adeus” pode reativar a ansiedade.

Um ritual curto, carinhoso e previsível pode ajudar mais do que muitas tentativas de convencer a criança a ficar.

Dar espaço para conversar

Nem sempre precisamos de resolver. Às vezes, precisamos apenas de escutar.

Perguntar: “O que é que te preocupa mais quando eu me vou embora?” pode revelar medos que não eram evidentes.

E onde entram os livros?

Os livros podem ser excelentes aliados na educação emocional. Não porque uma história vá, por si só, resolver a ansiedade de uma criança. Mas porque uma personagem pode criar uma distância segura para falar sobre aquilo que, às vezes, é difícil dizer diretamente.

Podemos ler sobre um personagem que sente medo e perguntar:

“Achas que ele está preocupado?”

“O que achas que ele está a pensar?”

“Já alguma vez te sentiste assim?”

E, de repente, estamos a falar sobre emoções sem perguntar diretamente à criança: “Porque é que estás tão ansioso?”

Uma história pode ser uma ponte entre aquilo que a criança sente e aquilo que ainda não consegue explicar.

10 livros para falar sobre ansiedade, separação e medo

Selecionei alguns livros que considero particularmente interessantes para abordar diferentes dimensões deste tema. Não são todos especificamente sobre ansiedade de separação, e essa é precisamente a razão pela qual gosto desta seleção.

Alguns ajudam a falar sobre vínculo e separação.
Outros sobre preocupação e ansiedade.
Outros ainda sobre mudança, medo e confiança.

💛 Um Beijinho na Tua Mão

Uma história especialmente bonita para momentos de separação.

O pequeno guaxinim não quer ir para a escola e sente o coração apertado só de pensar em ficar longe da mãe. O “beijinho na mão” torna-se um pequeno símbolo de ligação que pode acompanhá-lo mesmo quando estão fisicamente separados.

Uma boa história para conversar sobre saudades, segurança e a permanência do amor mesmo quando não estamos juntos.

💛 O Fio Invisível

Uma história sobre aquele “fio” invisível que nos liga às pessoas que amamos.

Pode ser uma forma simples e simbólica de conversar com as crianças sobre vínculo e sobre a ideia de que a distância física não significa ausência de ligação.

💛 O Fio que nos Liga

Também centrado na força dos vínculos, este livro convida a explorar a ideia de que existe algo que nos une às pessoas que amamos, mesmo quando não as conseguimos ver.

Pode ser particularmente interessante para conversar sobre diferentes situações de separação.

💛 Mesmo quando não me vês

Uma história sobre o amor de uma mãe pela filha e sobre a segurança de saber que esse amor permanece mesmo quando não estão juntas.

Uma boa oportunidade para conversar sobre separação, autonomia e segurança emocional.

🌿 A Caixa das Preocupações

O Milo tem muitas preocupações e descobre, com a ajuda da irmã, uma forma de lhes dar espaço: uma caixa onde pode colocar aquilo que o preocupa.

Uma proposta interessante para ajudar as crianças a perceber que falar sobre uma preocupação pode torná-la mais pequena e que podemos aprender a relacionar-nos com aquilo que nos preocupa sem deixar que isso nos impeça de viver.

🌿 O Livro da Ansiedade

Um livro que aborda os pensamentos do tipo “E se…?” e convida a criança a imaginar também aquilo que pode correr bem, em vez de ficar presa apenas aos cenários negativos.

Pode ser um bom ponto de partida para conversar sobre pensamentos ansiosos.

🌿 Vamos falar de Ansiedade?

Uma abordagem visual e acessível à ansiedade, ajudando a criança a compreendê-la e a encontrar formas de lidar com aquilo que a preocupa.

Mais do que tentar afastar a ansiedade, a história convida a conhecê-la e escutá-la.

🌿 Um Dia em Grande

A Rita sente-se muito ansiosa perante uma apresentação na escola.

Apesar de não ser uma história especificamente sobre ansiedade de separação, permite conversar sobre ansiedade perante desafios, pensamentos preocupantes e estratégias para lidar com situações que parecem difíceis.

🌱 O Coala que foi Capaz

O Kevin gosta que tudo permaneça exatamente igual. Até que a mudança aparece e o obriga a sair daquilo que conhece.

Uma história divertida para conversar sobre mudança, medo do desconhecido e confiança para experimentar algo novo.

🌱 Para Lá da Toca

Sair do lugar onde nos sentimos seguros pode ser assustador.

Esta história convida a explorar o medo do desconhecido e a coragem necessária para descobrir o que existe para lá do nosso espaço seguro.

Pode ser uma excelente ponte para conversar sobre dar pequenos passos em direção à autonomia.

Mais do que ler: criar espaço para conversar

Não precisamos de transformar cada leitura numa sessão de educação emocional. Podemos simplesmente ler. Parar numa determinada página. Observar uma ilustração. Perguntar qualquer coisa. Ou até não perguntar nada.

Por vezes, a criança começa a falar depois da história terminar, enquanto arruma os brinquedos, durante o jantar ou no caminho para a escola. É aí que podemos estar disponíveis. Sem pressa. Sem tentar corrigir imediatamente. Sem procurar a frase perfeita. Apenas com curiosidade e presença.

É que o objetivo não é criar crianças que nunca sentem medo. É ajudá-las a desenvolver recursos para reconhecer aquilo que sentem, compreender o que precisam e descobrir, progressivamente, que podem atravessar emoções difíceis.

Quando a ansiedade precisa de mais espaço para ser trabalhada

A ansiedade, os medos, as dificuldades perante mudanças e as situações de separação podem ser alguns dos desafios que merecem ser explorados no desenvolvimento socioemocional da criança.

É também por isso que, no Viagem pelas Minhas Emoções, estes e outros temas podem ser trabalhados de forma personalizada, tendo em conta a criança e os objetivos definidos com a família.

O Viagem pelas Minhas Emoções é um programa individual de educação socioemocional para crianças dos 5 aos 12 anos, orientado para o desenvolvimento da consciência emocional e de competências socioemocionais. O programa não é terapêutico, é educativo, e pode incluir sessões com os pais, sessões individuais com a criança e materiais e orientações para continuar o trabalho em família.

Neste regresso às aulas, estou a aceitar inscrições com condições especiais.

👉 Conheça o programa Viagem pelas Minhas Emoções

Para terminar…

Se este regresso às aulas estiver a ser vivido com algum coração apertado aí em casa, talvez não seja preciso procurar imediatamente uma forma de fazer desaparecer esse sentimento.

Talvez possamos começar por dizer:

“Eu sei que custa.”

“Estou aqui.”

“E vamos descobrir juntos como tornar isto um bocadinho mais fácil.”

A segurança não nasce de garantirmos à criança que nada de difícil vai acontecer. Nasce, muitas vezes, de ela saber:

“Mesmo quando alguma coisa é difícil, não estou sozinho.” 💛

Com carinho,

Liliana 🌿💛
Educadora Parental e Socioemocional
@emocoesaflordamente

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