Amo-te Pai!

– Amo-te Pai!

Estas têm sido as palavras que mais ouvi sair da boca da minha filha mais velha nestes últimos dias, imbuída pelo entusiasmo de preparar uma surpresa para celebrar o Dia do Pai. Uma alegria contagiante que a muito, muito custo tem conseguido manter a surpresa sem desvendar o que se trata.

Talvez ainda não compreenda plenamente o tamanho da grandeza do seu gesto repetido ao longo das horas que temos de partilha, gesto esse que repõe o meu depósito de afectos nos níveis máximos de Amor e ganha mais importância do que qualquer lembrança ou presente que me possa oferecer neste dia.

Mas dou por mim a pensar, porque não me lembro de alguma vez ter dito ao meu Pai tão importantes palavras, ou até umas mais simples como um simples Gosto de ti. Não que o meu Pai não saiba o quanto gosto dele, ou o valor que dou aos seus períodos de ausência durante a minha meninice para que me pudesse dar a melhor infância possível.

A sua reserva em expor publicamente os seus afectos também me foi transmitida como sendo um legado importante, talvez procurando não demonstrar o que se entendiam como ‘fraquezas’ (no fundo a nossa vulnerabilidade) ou não banalizar a importância de tão sinceros sentimentos. Nunca foi explicito para mim o motivo certo. Confesso que esta perspectiva também me fez sentido, até ao momento em que assumi o papel da paternidade, que me fez reflectir que uma demonstração dos afectos sincera não é um sinal de fraqueza, mas pelo contrário é um sinal de grandeza.

Assim neste dia, claramente ficarei com o meu depósito de carinho cheio por força das surpresas e dos momentos de partilha com as minhas pequenas pedras preciosas me proporcionarão, mas quero também alimentar o espírito de quem é o grande responsável pela minha existência e boa parte da minha experiência.

– Obrigado, Pai! Amo-te!

Porque escolhi educar com Disciplina Positiva?

Na minha infância lembro-me que a educação que recebi foi essencialmente centrada no controlo e na punição. Fruto de uma cultura que vinha de outros tempos, em que os filhos nasciam para ajudar os pais para o sustento do lar e havia uma espécie de subserviência cega, em que o respeito era devido apenas de filhos para pais, e a própria hierarquia social e familiar seguia uma estrutura rígida, a minha criação seguiu moldes idênticos, embora, à luz dos novos tempos, os métodos utilizados tenham sido, ainda assim, um pouco mais suaves.

Os meus pais fizeram o melhor que sabiam com os recursos que disponham, que por si só, pela infância que viveram, eram muito limitados. No fundo limitaram-se a reproduzir o que havia sido feito com eles. Afinal, eles sobreviveram e tornaram-se pessoas de bem, logo, resultou. Porque não resultaria com as filhas?

Assim, enquanto cresci não me faltaram os sermões, as reprimendas, o sobreolho levantado e testa franzida ao mínimo pisar de risco, e algumas tareias sempre que o risco, conhecido ou não, fosse ultrapassado.

Habituei-me a conviver com o medo e a ansiedade de não estar à altura, de não agradar, de não ser suficiente. Queria ser o orgulho dos meus pais, mas entre tudo o que fazia bem, ‘não fazia mais do que a minha obrigação’. Já quando fazia mal, se a dor de alguma forma me era sempre incutida, o facto é que a vergonha e a culpa logo surgiam como parceiras para me amestrar.

Nunca tive muita liberdade de escolha, porque ‘criança não tem querer’, nem grande possibilidade de questionar, porque ‘não é não e ponto final’, ou de argumentar ‘não há mas nem meio mas’. A vida e o que me era permitido era muito claro para mim ‘é como eu digo e acabou-se’, ainda que nem sempre o que me diziam fosse o que de facto faziam mas ‘enquanto viveres debaixo do meu tecto, é assim que as coisas são’.

E assim foram por longos anos em que sei que fui a menina exemplar, obediente, bem comportada, estudiosa, a fada do lar, prendada, responsável, cuidadosa,… pelo menos a maior parte do tempo. Mas debaixo destes rótulos, houve sempre uma menina que espreitava à janela para tentar que o sol lhe aquecesse a alma. Ficava a sonhar com ter mais liberdade, mais opções, para ser uma menina como as outras. Que gostaria que o amor não fosse opressor e castrador e que a alegria não fosse constantemente vigiada pelo medo de falhar e de envergonhar as pessoas que mais amava.

Um dia fui mãe. Um dia, numa ocasião que a minha filha mais velha, no auge dos seus 2 anos, fez uma birra à mesa porque não queria jantar, vi-me reproduzir o controlo e punição que jurei que não traria para a nossa casa. Mas que fazer se este era o único modelo que conhecia, a única referência que tinha? E afinal, eu sobrevivi e sou uma pessoa de bem. No meu coração esta resposta não me tranquilizou. Sei que padrões de resposta a minha educação me trouxe. Sei de que decisões e limitações me cercou. É mesmo o que quero que resulte para ela?! Não!

Mas nesse momento deparei-me com o vazio, a escuridão. Se não faço assim, faço como? Se não sou esta mãe, que mãe vou ser?

Neste processo de questionamento, até então impensável para mim, surgiram as dores de trazer à tona a consciência da criança que fui e ainda morava em mim. Ao olhar para a minha filha, era hora de regressar às dores que reprimi, ao choro que engoli, às lágrimas que rapidamente limpei e ao que em minha defesa, da minha integridade e autenticidade ficou por mostrar, com medo de não ser aceite, de não me enquadrar nas expectativas.

Há um provérbio árabe que diz

A hora mais escura do dia é que antecede a alvorada

Numa altura em que estava a aprender a lidar com a dores, a procurar acolher a criança que fui, aceitando as minhas limitações e transformando as minhas visões da vida, para aprender a lidar os desafios que as minhas filhas me traziam a todo o momento, comecei a ler sobre parentalidade consciente e logo depois conheci a Disciplina Positiva, que imediatamente ressoou em mim e me fez tanto sentido face ao que procurava para educar as minhas meninas e ao mesmo tempo fortalecer o vínculo de amor que nos une.

Baseada nos ensinamentos da psicologia adleriana, Jane Nelsen desenvolveu o conceito de Disciplina Positiva como forma de educarmos e nos relacionarmos com as crianças, procurando um equilíbrio entre firmeza e gentileza, numa base de respeito mútuo.

A Disciplina Positiva fundamenta-se em cinco critérios:

  1. Ajuda a criança a sentir-se aceite, importante e capaz de contribuir,
  2. Encoraja o respeito mútuo,
  3. É efetiva a longo prazo,
  4. Ensina habilidades sociais e de vida,
  5. Ensina a criança a usar seu poder pessoal de forma construtiva e descobrir os seus talentos.

Ao invés de nos impormos à criança, usando métodos punitivos e controladores, a Disciplina Positiva desafia-nos a conquistá-las, tratando-as com dignidade e respeito, sendo um exemplo desses valores, e a confiarmos nas suas capacidades para cooperarem e contribuírem, orientando-as nas aprendizagens.

O importante nesta abordagem não é forçá-las a fazerem o que é correto, exigindo obediência, para exibirem uma conduta regida por fatores externos (punição ou recompensa), mas ensiná-las a olharem para dentro de si, refletirem sobre as atitudes e autoavaliarem os comportamentos, promovendo respostas conscientes e respeitosas, tanto quanto possível no presente, mas sobretudo com os olhos postos no futuro. Desta forma, a Disciplina Positiva ajuda a promover a autoestima da criança, visto que se procura desenvolver o lócus de controlo interno com base na empatia, ao invés de desenvolverem uma estima baseada em expectativas alheias.

Ao contrário do que acontece num estilo autoritário, em que quando a criança se porta mal, a tendência é fazê-la sentir-se mal para que se comporte bem, Jane Nelsen considera uma incongruência, uma vez que as crianças sentir-se-ão encorajadas a agir melhor e cooperar se sentirem que são ouvidas, que os seus sentimentos são validados e que há a preocupação de se entender a perspetiva delas e de as envolver na solução, em vez de as vermos como problemáticas, birrentas, irritantes ou tantos outros rótulos que lhes costumamos colocar.

Nesta abordagem há apego emocional (que é diferente de superproteção e permissividade). As necessidades das crianças são atendidas, mas são tidas em igual conta as necessidades dos adultos. As regras são responsabilidade de todos e definidas em conjunto sempre que possível, as soluções são o foco e, sempre que os pais precisarem de usar do seu discernimento para decidir algo, ao invés da agressividade e rigidez ou da manipulação com base em recompensas, utiliza-se a firmeza, gentileza, dignidade e respeito. Todas as emoções são aceites embora os comportamentos possam ser revistos para benefício mútuo.

Racionalmente todo o conceito me fez todo o sentido. Senti-me ainda mais encorajada porque não se trata apenas de uma abordagem teórica, mas antes uma metodologia assente em ferramentas práticas. A Disciplina positiva oferece dezenas de recursos para evitarmos cair na punição ou permissividade e a melhor compreendermos as nossas reações e os comportamentos das nossas crianças.

Para mim a Disciplina Positiva não te trata de um manual de instruções, ou sequer de uma receita que sigo à risca, até porque cada mãe é única e cada criança também e os erros são inevitáveis e até essenciais para o crescimento e evolução. Entendo a Disciplina Positiva como uma bússola que me orienta no meu caminho de mãe e me mantém presente e consciente da minha intenção nesta jornada.

Jejum de redes sociais

Jejum Redes Sociais

 

Em preparação para a Quaresma o Nuno pergunta-me qual o ‘jejum’ que tenciono fazer até à Páscoa.

Refletindo sobre o uso que dou ao meu tempo e ao tempo da minha família, que me é tão precioso, respondi:

Jejum de redes sociais. Vou limitar o tempo que estou online.

 

A B queixou-se um destes dias que volta e meia lá estou a pegar no telemóvel em detrimento da atenção que lhes devia estar a dar. Que apertadinho ficou o meu coração quando ela me confrontou com esta questão. Confesso que o meu ego logo quis defender-se.

Querem ver?! Já a formiga tem catarro!

Também não é assim tanto tempo…

És uma exagerada!

Era só o que me faltava uma pirralha chamar-me à atenção pelo tempo que estou ao telemóvel!

Tudo isto me passou pela cabeça. Mas em consciência disse-lhe apenas que ela tinha razão e que tinha de facto de fazer um esforço para diminuir o tempo que estava online.

 

Mesmo que seja só em reflexo a uma notificação que acaba de chegar e possa até nem despender muito tempo, a verdade é que o meu foco perde-se de forma automática e com mais regularidade do que gostaria de admitir. Às vezes lá me apanho a fazer scroll para ver mais uma publicação, e mais uma,… e só mais esta, e… ó deixa lá ver mais que isto interessa-me… ah, que vídeo engraçado… Ui, este é inspirador… Mete like aqui. Comenta ali. Vê quem comentou, quem partilhou, quem gostou da página. Responde. Partilha… E lá me perco no tempo, que por si já é escasso, em partilhas que de virtuais pouco passam, quando me basta olhar para o lado para perceber que a minha verdadeira partilha, a mais autêntica, está tão acessível e é, na verdade, tão mais significativa para mim e para o que quero construir na vida.

 

Por outro lado coloca-se a questão do exemplo.

Que estou eu a fazer quando a cada toque me apanho por impulso a pegar no telemóvel para espreitar o que acontece online?

Que mensagens lhes estou a passar?

E é congruente limitar em casa o tempo que as minhas filhas passam em frente ao ecrã da televisão e não limitar os meu nas redes?

Ecrãs são ecrãs e o exemplo tem de partir de mim.

 

Posto isto comprometo-me a delimitar o meu tempo nas redes a 1 hora/dia durante a semana, distribuída por 20 minutos de manhã e 20 minutos à tarde (durante viagens casa-trabalho-casa) e 20 minutos à hora de almoço. Ao sábado e domingo o tempo online diminui para 30 minutos em cada um dos dias.

Este será o meu desafio que espero levar com êxito até à Páscoa e mantê-lo para dá dessa meta. Porque as relações reais precisam bem mais da minha atenção e da minha efetiva presença do que tudo o mais que me distrai online.