Ser ou não ser Pai, eis a questão!

Ser Pai

 

Vejo a missão de SER pai como uma experiência de vida linda, desafiadora, transformadora e de constante aprendizagem. No universo masculino nem sempre foi assim (felizmente, há ventos de mudança). SER pai pode ser uma questão bem ao estilo de William Shakespeare:

Ser ou não ser Pai? O que é de facto SER pai? Ou que pai queremos SER?

Creio que estas devem ser ‘as’ questões para quem já é pai ou está a planear sê-lo.

Na minha opinião, e apesar da luta pela equidade parental, ainda subsiste a crença que entende o papel do pai como ‘acessório’ para o desenvolvimento da criança, de tal forma está instituída a força materna neste campo. Na verdade, parece achar-se que a relevância do pai assume-se apenas em determinados momentos, os lúdicos ou aqueles em que se torna necessária a presença da figura paterna através do poder da autoridade que imana ou pela segurança que transmite, ambas resultantes da “força” da sua presença. Não será por acaso ou sequer estranho ouvirmos crianças debaterem-se sobre qual tem o melhor pai sob o argumento de que “o meu pai é mais forte do que o teu”, como se fosse esse o barómetro da masculinidade da figura ou o sentido da paternidade na vida de um filho.

No entanto, o mais importante para a criança não é medido pela força da figura paternal, mas sim pela qualidade do SER pai, pelos laços que se constroem todos os dias, através da presença a cada momento. É aí que de facto reside o cerne da questão.

SER pai é SER integralmente presente, envolver-se e acompanhar o desenvolvimento e crescimento dos filhos, participando nas várias etapas e atividades da criança, ciente que de que trata, não de uma obrigatoriedade associada ao nascimento da criança, mas de um privilégio.

SER pai é não se alhear ou guardar o papel para quando dá jeito ou nos ‘chega a mostarda ao nariz’, mas ver a educação de um filho como uma missão conjunta entre aqueles que tanto o amam, preparando-o para o futuro, para que consiga desenvolver um sentido crítico suficientemente resiliente para perseverar na vida, sem se deixar levar pelas perspectivas superficiais que todos os dias nos entram pela porta dentro, de tão facilitado que se tornou o acesso à informação.

É também por ter construído esta perspetiva do que é SER Pai nos dias de hoje que não me revejo nas premissas da educação parental tradicional – se fizeres o bem serás recompensado e se fizeres o mal serás punido. Na minha opinião até é uma abordagem que até poderia resultar, se estivesse permanentemente presente. Mas, como sei que não fui abençoado com o dom da omnipresença, acabo por ter as minhas dúvidas, de tal forma que me levam a questionar:

E quando não estiver presente? Que influência terei como pai? Que poder terá a educação que lhes dou?

Terão as minhas filhas a capacidade de olhar para dentro e escolher fazer o correto ou limitam-se a olhar em redor e aceitar o fruto proibido porque ninguém está a ver e acreditam que ninguém irá saber?

Quero educar as minhas filhas de forma a que desenvolvam a autoconsciência como uma das principais práticas para se guiarem na vida, tal como no exemplo do conto do monge que vivia num mosteiro em ruinas que me faz tanto sentido.

Acredito que o pai que escolho SER fará a diferença nas respostas que elas irão dar aos desafios que tiverem na vida. E é por isso que SER pai é a grande questão da minha vida.

Que estacas nos amarram? E porque não fugimos?

Acorrentado

Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espetáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua atuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.
No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani­mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente.
O que é que o prende, então?
Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.
Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.
Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.
Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.
Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.
E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.
Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força…
Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos restringem a liberdade.
Vivemos a pensar que «não somos capazes» de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos.
Fizemos, então, o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem:
«Não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir.»
Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e, por isso, nunca mais tentámos libertar-nos da estaca.
Quando, por vezes, sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:
«Não consigo e nunca hei-de conseguir.»
A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma… e com toda a forca do teu coração!

É belo e, simultaneamente, muito triste este conto de Jorge Bucay (Deixa-me que te conte, editora Pergaminho), porque infelizmente espelha a cultura de uma sociedade emergente. Os limites, ao invés de orientadores, são impostos desde tenra idade. Por consequência, em adultos debatemo-nos com as nossas ‘limitações’, sem flexibilidade para procurar alternativas.

O primeiro passo para nos libertarmos começa no questionamento das crenças que nos amarram.

As afirmações que nos contámos ou nos contaram tantas e tantas vezes que se tornaram verdades absolutas, moldaram a forma como nos vemos e, com isso, as respostas que damos na vida.

Estamos emocionalmente tão ancorados às certezas irrevogáveis em que acreditamos – apesar de danosas, ao menos nos são familiares e já nos acostumámos – que se alguém nos incentiva a questioná-las para nos libertarmos, agarramo-nos a elas com unhas e dentes, defendendo inclusive as nossas limitações como um obstáculo que não está ao nosso alcance questionar.

Resignamo-nos e fazemo-lo por cultura, fruto muitas vezes de uma educação que procura formatar em prol da obediência, ao invés de orientar e encorajar as valências de cada um. Vemos quem se rebele (em crianças são os apelidados de mal-educados, desobedientes, aqueles em que ninguém tem mão…) mas a maioria conforma-se e interioriza a vergonha que advém do sentimento de ‘não ser suficientemente bom’ pelo que é, precisando de se ‘apequenar’ para ser aceite, para pertencer a um lugar.

Aprender a valorizar as nossas falhas com a técnica ‘Kintsukuroi’

Na hora do jantar chamámos a B para a mesa. Estava a ver desenhos animados e, como tal, não estava muito interessada em desligar. O pai foi chamá-la novamente à sala. Ela nem esteve de modas. Furiosa, atirou com uma almofada ao pai. Em resposta, o pai deu-lhe mais duas almofadas para que atirasse também essas, se achava que era a atitude correta.
Zangado com o comportamento o pai regressou à cozinha.
Atrás dele, mantendo a distância de segurança, vinha ela, frustrada e ressentida, sentindo-se a dona da razão.Dela não teve nem um pedido de desculpa ou sequer sentiu réstia de arrependimento.
Ao invés, ainda antes de se sentar à mesa, perguntou:
– Posso comer um docinho no final da refeição?
O pai disse-lhe logo:
Não me parece!
Correu a chorar para o quarto, cheia de raiva por não atenderem ao seu pedido. Gritava:
Ai é?!! Então não como!!!
Dei-lhe um pouco de espaço e tempo, mas passado uns minutos fui ao quarto. Sentada na cama com ela disse-lhe que compreendia que ficasse chateada por ter de deixar de ver TV para ir jantar, mas ao longo de todo o dia em que estávamos fora de casa e não podíamos partilhar os momentos em família, parecia-me que o mais importante era estarmos juntos. Por isso não queríamos ter de jantar sem ela.
Expressou então que estava magoada por não poder ver televisão, mas também por o pai não a deixar comer um doce. Fiz-lhe ver que se calhar a atitude que ela tinha tido quando o pai a foi chamar à sala não tinha sido a mais correta e por isso o pai zangou-se. Pedi-lhe que me acompanhasse para resolvermos a situação todos juntos, a falarmos, “porque é assim que nos entendemos”.
Nessa altura tinha em mente que esta poderia ser uma boa oportunidade para lhe ensinarmos que quando alguém é rude, bruto ou agressivo connosco, essa atitude deixa sempre marcas.
Para lhe explicar fui buscar uma folha de papel nova. Mostrei-lha para que tivesse a noção do quão lisinha e imaculada estava. Depois entreguei-lha e pedi que a amachucasse. Assim o fez, até com alguma satisfação. Pedi-lhe de volta a folha e disse-lhe que a ia tentar endireitar. Depois de o fazer perguntei-lhe se estava igual a como a viu antes. A resposta, naturalmente, foi “não”.
Disse-lhe então:
Tal como aconteceu com esta folha, quando magoamos alguém, seja com palavras ou fisicamente, há sempre marcas que ficam e é por isso que dizemos que ‘as desculpas não se pedem, evitam-se’. Também por isso, sempre que nos irritamos, tanto quanto possível devemos procurar acalmar-nos antes de responder ou reagir, porque corremos o risco de magoar as pessoas.
Ela compreendeu mas ficou muito apreensiva:
O pai vai ficar com marcas por causa de como eu me portei?
Ora aqui está a pergunta que se impunha e me fez balançar as pernas a pensar ‘Ups! Como é que eu agora saio desta?’, mas lembrei-me então de uma técnica muito especial que facilmente a faria perceber o poder reparador de reconhecermos os nossos erros e de aprendermos com eles. Respondi-lhe então:
Sabes, há uma técnica (Kintsukuroi) que os japoneses utilizam quando uma peça em cerâmica se parte e que de alguma forma nós também utilizamos para nos repararmos quando estas situações acontecem com aqueles que mais amamos. Esta técnica japonesa consiste em reparar a peça partida utilizando uma mistura de laca e pó de ouro. Assim, a peça que se tinha danificado, apesar de ficar com marcas, acaba por ganhar uma nova vida e um novo valor. Isto para te dizer, que se souberes reconhecer o que aconteceu e aprender com isso, falando com o pai, vais ver que o amor que vos une ficará ainda mais bonito e fortalecido. É o que acontece quando fazemos algo incorreto a alguém que amamos e nos ama e procuramos reparar com consciência o que foi feito. É certo que fica com as marcas, mas se soubermos usar o nosso erro e aprender com ele, valorizamos ainda mais a ligação que temos com quem nos ama, porque essa ligação ajuda-nos a descobrir coisas muito importantes.
O coração dela sossegou e percebeu que devia reconhecer o que fez para ‘reparar’ a situação. Custou um pouco mas fê-lo.

Não importa se fazemos sempre tudo bem, porque ninguém faz tudo bem sempre. Cometemos sempre erros por vários motivos, o que é expectável e humano. E se assim é, para que servem as nossas falhas se não aproveitamos para aprender com elas? Sabemos acrescentar-lhes valor e tornar o que se quebrou ainda mais forte, único e especial?
O desafio está em não nos focarmos na culpa e na vergonha pelo mal causado, mas sim na solução e na aprendizagem que essa situação proporciona. Essa é a grande transformação que valoriza as nossas falhas e que de facto enriquece as nossas vidas.
Imperfeições todos temos, mas se soubermos reparar com sabedoria, não teremos de esconder as nossas falhas e erros. Ao invés, podemos assumi-los como algo que faz parte de nós e que nos constrói também tal como somos. Desta forma, crescemos com mais compaixão por nós e pelos outros e com mais motivos para celebrar tudo o que a vida nos ensina, com o bom e com o mau.