Preguiçar precisa de ser uma prioridade

Perguiçar
Cheios de pressa, caímos nessa ravina de ​stress e ansiedade, onde só se ampara quem pára. Tira o pé do acelerador. Se excederes o teu limite de velocidade, mais tarde ou mais cedo, o teu corpo vai mandar-te parar. Podes ficar encostado a uma cama de hospital ou dependente de medicação. O limite não é o céu, o limite és tu. Respeita o corpo que tens e aceita que todos os excessos pedem factura. Contribui para um futuro mais feliz, onde podes não ter tudo o que imaginaste, mas seres tudo o que precisas. Ninguém te pode parar, tens mesmo de ser tu.
 
Depois de ter partilhado que tinha passado o fim-de-semana de repouso porque o corpo (esse sábio), de tão sobrecarregado, contraiu uma contractura muscular que me obrigou a ir às Urgências para tratar (tais eram as dores), um amigo partilha este artigo de onde destaquei o parágrafo que inicia este texto.

Será que devia preguiçar?

 Faz-me todo o sentido o alerta e desafio que ele traz. Ainda assim, parar, relaxar, descontrair, preguiçar é dos meus maiores calcanhares de Aquiles, das coisas que tenho mais dificuldade em fazer.
Sempre que paro persiste em mim um sentimento de falta, de insuficiência, de culpa pelo que não estou a fazer e sinto que deveria estar. Será que devia?… Até de férias me sinto assim e é um desconsolo quando só quero descansar e desfrutar e algo em mim se remói em permanência se tiro uns momentos para nada fazer. O corpo até pode parar mas a mente não pára.
O hábito de estar sempre a fazer alguma coisa, de não preguiçar, está impregnado nesta cultura ocidental e global e, sinto até que me está nas veias desde miúda, desde aquela altura em que as vizinhas me reconheciam como a joaninha do lar.
Recordo-me de quando tinha os meus 6/7 anos e os meus pais me diziam “Se não tens o que fazer eu arranjo-te.” Não me era permitido parar e simplesmente brincar, só quando em casa não houvesse o que fazer (loiça para lavar, almoço ou jantar para adiantar, roupa para dobrar, pó a limpar, varrer isto, limpar aquilo, estudar,…) – e quando é que não há? – ou, então, se havia feriados santos. Aí sim, ninguém lá por casa fazia fosse o que fosse para além do elementar.

Quero descansar sem que sinta ansiedade ou culpa

Hoje, entre todos os fardos, este que me vem de educação, de cultura e de hábito, é dos mais difíceis de me livrar, porque é a base de todos os outros que me transporta para esse lugar onde Fazer ainda é sinónimo de Merecer e Ser. Nada mais errado. Ser é Ser, muito além do Fazer. E somos sempre merecedores de valor pelo que somos para lá do que façamos. Ainda assim para mim, é uma aprendizagem de desconstrução que temo ainda leve tempo a praticar e consolidar. Exige confiança, determinação, curar tanta coisa na minha auto-estima e no meu auto-conceito. Exige também a responsabilidade de compreender e atender às minhas necessidades e respeitar os meus limites, com todos os “Nãos” que tiver de dar e todos os “Sins” a que me devo permitir.
Já é algo ter consciência disto. Espero que chegue o tempo em que consigo ficar de papo para o ar, sem a minha cabeça fique a cozinhar num caldo de ansiedade e culpa, e que para lá chegar não seja preciso virem mais contracturas ou outras mazelas físicas e psicológicas. Preciso mesmo de fazer do “Preguiçar” uma prioridade na minha vida. Acho que, na verdade, todos precisamos.