Se o teu filho se comporta pior ao pé de ti, não desesperes. Estás no bom caminho.

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comporta pior quando está ao pé de ti

 

Se o teu filho se comporta pior quando está ao pé de ti, não desesperes. Pode não parecer, mas é uma boa notícia.

As crianças precisam de se sentir seguras para se expressarem. Sabem, instintivamente, que nem todos os locais e nem com todas as pessoas as suas emoções serão bem aceites. Por outro lado, confiam no amor incondicional dos pais e por isso sabem que em casa é o lugar ideal para expressarem tudo quanto são e sentem.

Quando a B era bem pequenina, lembro-me de ter ouvido por diversas vezes quando recebíamos visitas ou estávamos fora de casa:

Ela é tão sossegadinha.

Comporta-se tão bem. Parece um anjo.

É uma criança que não faz barulho nenhum. Não incomoda nada.

Quase não se dá por ela.

Com estas evidências, até me sentia mal quando dizia:

Isso é porque não a vês quando estamos só nós.

Do outro lado percebia que o mais certo era pensarem que eu estava a exagerar. Mas não estava.

Também acontecia, quando a íamos buscar a casa do avós, com quem passava o dia, ela começar a chorar, fazer birra ou parvoíces quando nos via, e então, invariavelmente, ouvíamos:

Ela tem estado tão bem. Mas foi vocês chegarem para ela ficar assim.

Se a criança se comporta pior, o problema será nosso?

Eu sentia-me irritada e culpada ao pensar que só podíamos estar a fazer alguma coisa errada. O problema devia ser nosso se ela se comportava tão bem com os outros.

Mas afinal não havia problema algum, muito pelo contrário.

Assim que nos via a B percebia que, enfim, podia libertar a tensão que tinha acumulado durante a nossa ausência. Estava em porto seguro e nós estaríamos ali para a proteger e não a abandonaríamos. Confiava em nós para extravasar e aliviar as suas emoções mais intensas. Toda a frustração que procurou controlar. O medo que não revelou. A ansiedade que escondeu. A raiva que reprimiu. O choro que engoliu.

Não é que os avós ou outros cuidadores não o fizessem, mas biologicamente, todos os seres humanos sabem que é nos progenitores que devem colocar as suas fichas em matéria de sobrevivência, segurança e proteção. Todos os outros não têm essa ‘obrigação’ genética.

Acontece também que quando as crianças são ainda muito pequenas, com poucos meses, até mais ou menos aos 2 anos, a relação com a mãe é ainda muito fusional. Se a mãe se ausenta, a criança experiencia o que é estar sozinha, longe da sua figura de referência, que lhe garante o sentido de identidade, o que emocionalmente é muito exigente. Quando a mãe regressa, sem ter outro modo de organizar as emoções que vivenciou, a criança descarrega e comporta-se pior.

A ida para a escola

Apesar de já estarem cientes da sua individualidade, a angústia da separação também é muito habitual acontecer quando as crianças vão para os infantários e escolinhas, exatamente por existir entre a criança e os pais um apego emocional seguro.

Quantas vezes não vemos crianças que choram enquanto estão a ser deixadas na escolinha pelos pais. Não querem ficar. Parecem desesperadas agarradas às suas pernas. Mas, muitas delas, depois ficam e acalmam e estão ‘bem’ ao longo de todo o dia. Quando os vamos buscar, lá vem o mau comportamento e as birras, muitas vezes intensas.

Muito provavelmente o que se passou, é que reprimiram por muito tempo a angústia da separação, porque eles sabem perfeitamente que quem está com eles não são os pais. Nos seus genes ainda corre a informação de que têm de se comportar adequadamente se querem sobreviver em ambientes onde não estejam debaixo da asa da mãe ou do pai.

Quando os pais estão por perto

Por natureza sabem que se os pais estão por perto então já há luz verde para liberarem as emoções que estiveram a procurar controlar/esconder até ali, por uma questão de sobrevivência. Afinal, o ambiente não é familiar, portanto o melhor é não abusar.

Note-se que esta formulação não acontece de forma consciente nas crianças. É instintivo adequarem o seu comportamento para se manterem seguras.

Se pensarmos bem, nós agimos de igual forma. É junto daqueles que mais amamos que conseguimos ser inteiros e descomprimir. É em casa que muitas vezes conseguimos despir a armadura que envergamos ao longo de todo o dia. Não é por acaso que é lá que manifestamos muitas vezes os efeitos do stress, das provocações, das frustrações e arrelias a que estamos sujeitos ao longo do dia. É junto dos que mais amamos que nos sentimos incondicionalmente aceites e seguros para mostrarmos as nossas vulnerabilidades. Sabemos que do outro lado, ao contrário, do mundo lá fora que pode ser duro e não nos compreender, haverá quem nos acolha e console, um espaço seguro para sermos exatamente quem somos, seja ele agradável ou desagradável.

Assim, da próxima vez que fores buscar o teu filho, aos avós, à ama, à creche, ao infantário ou à escola, e se ele se comporta pior ou começar a chorar, alegra-te. Afinal, agora sabes que ele confia em ti e que és o seu vínculo seguro. E isso é ou não é uma ótima notícia?