Não! Disciplina Positiva não é sinónimo de permissividade

permissividade
Quando procuramos um caminho alternativo a um estilo mais autoritário – que terá sido a base de educação de muitos de nós – receamos que a opção seja a permissividade, que é como quem diz: deixar que as crianças cresçam sem limites ou regras, que façam tudo o que querem, quando querem, porque querem, que comam só o que lhes apetece, que só se respeitem as suas necessidades, desejos e vontades… basicamente, que sejam ditadores dos nossos lares e nós seus subservientes.
Se a permissividade fosse a opção a seguir, certamente não teria me decidido por procurar abordagens alternativas de educação, como base para me orientar neste caminho de educar as minhas filhas, até porque a permissividade parece-me tão ou mais prejudicial para as crianças, famílias e sociedade, do que o autoritarismo.
Para os devidos esclarecimentos, porque há ainda muito quem pense que na parentalidade só há preto ou branco, sugiro irmos por partes…

Vamos lá então a saber: o que se entende por autoritarismo?

Este estilo parental baseia-se numa ordem inflexível, em que a criança não tem ou tem pouca liberdade. Onde reina o controlo, a punição e a rigidez como forma de fazer as crianças “respeitarem” e “obedecerem” aos adultos. Por norma, as crianças não são envolvidas nos processos de decisão que dizem respeito a elas ou à família.
A mensagem principal que um pai ou mãe que educa segundo este estilo passa é:
Estas são as regras e serás punido se desobedeceres”.
É uma abordagem funciona a curto prazo. Efetivamente interrompe os maus comportamento praticamente no imediato e por isso é tão frequentemente utilizada. Mas pensemos um pouco na eficácia deste método. Se a punição ou os castigos fossem de facto eficazes, não seriam as crianças que são mais punidas aquelas que se comportariam melhor? É isso que acontece?
Na verdade, crianças habituadas a punições e castigos tendem a tornar-se rebeldes ou a desenvolver traços de submissão que afetam a sua autoestima logo na infância e com impacto na adolescência e vida adulta.

E o que é a permissividade?

Baseia-se em dar liberdade praticamente sem ordem e limites ou oferecendo escolhas ilimitadas às crianças. Com estes pais as crianças fazem o que querem porque são elas quem decide.
Mensagem principal que se passa à criança é:
Só quero que me ames e que sejas feliz a meu lado. A teu tempo conseguirás estabelecer as tuas próprias regras.”
Quem se encontra no lado oposto torce o nariz a este estilo de parentalidade permissivo e com razão, porque as crianças que crescem sob este tipo de orientação (ou desorientação) tendem a pensar que o mundo lhes deve a vida. Por normal, usam toda a sua energia e inteligência para conseguirem o que querem e ocupar os adultos com os seus desejos. Passam mais tempo a tentar fugir às responsabilidades do que a desenvolver independência e autonomia e outras capacidades que lhes serão proveitosas para construírem relações saudáveis e positivas.
A permissividade como método de educação é humilhante para crianças e adultos e cria uma co-dependência nada saudável, em vez de autosuficiência e cooperação. A criança habitua-se a apenas ter em conta as suas necessidades (físicas e emocionais) e não as dos outros com quem se relaciona, o que é um perigo não só em casa, mas para a sociedade.

É no meio destes dois pólos da parentalidade que encontramos a Disciplina Positiva. 

Esta abordagem baseia-se nos critérios de uma educação efetiva e afetiva, com efeitos a curto prazo – cooperação e conexão – e a longo prazo – ensinando e treinando competências que queremos desenvolver nos nossos filhos – respeito, autonomia, solidariedade, responsabilidade, etc…
Procura um equilíbrio entre manter a ordem e interagir com respeito mútuo e gentileza, atendendo às necessidades de crianças E adultos.
Quem procura esta abordagem desenvolve bases sólidas de apego emocional (que é diferente de superproteção ou permissividade). Promove a definição de regras que são responsabilidade de todos e criadas em conjunto sempre que possível, até porque quando as crianças são envolvidas na definição de limites, ficam mais comprometidas com o que é acordado. Naturalmente, que as grandes decisões cabe ao adulto tomar, informando e envolvendo a criança. Ainda assim, sempre que possível pode-se e deve-se deixar as crianças tomarem pequenas decisões (que sejam também confortáveis para nós) e as ajudem a desenvolver autonomia e responsabilidade, exercitando de uma forma orientada o seu poder pessoal. Sempre que os pais precisam de usar da sua autoridade (diferente de autoritarismo) para decidir algo, ao invés da agressividade e da rigidez, utilizam em simultâneo firmeza, gentileza, dignidade e respeito no contacto com a criança.
O foco da Disciplina Positiva está em encontrar soluções, orientando para habilidades de resolução de problemas e conflitos, e não em remoer os comportamentos, asneiras, incapacidades ou problemas, fazendo a criança sentir-se propositadamente mal ou ‘salvando-a’ constantemente das consequências. As crianças portam-se melhor quando se sentem melhor. Se as fizermos sentirem-se mal dificilmente estarão num estado receptivo para aprenderem o que lhes queremos ensinar. Por outro lado se as super-protegemos também não terão oportunidade de desenvolver autoconfiança e destreza intelectual, emocional e motora.
Como mãe o grande desafio que a Disciplina Positiva me traz no dia-a-dia é, sem dúvida, controlar o meu comportamento para ensinar as minhas filhas a como (com o tempo) controlarem o delas, ao mesmo tempo que me encoraja a ser o exemplo de ser humano em que quero que elas se tornem.
Os nossos filhos não mudam porque exigimos. Quanto muito, se conseguirmos ser consistentes e congruentes na nossa abordagem, conseguimos sim inspirar a mudança que queremos.
Lá por casa, nem sempre conseguimos ser estes pais ‘positivos’ em todas as situações e pelos mais variados motivos, mas todas as vezes que erramos, sabemos que temos uma oportunidade para perceber o que não correu bem, desculparmo-nos e corrigirmos o que for possível, ensinando também assim, a importância da autorresponsabilização e reparação dos erros.
O que é certo é que independemente da abordagem, seremos sempre pais e mães imperfeitas. Quando andamos por aí a espingardear uns contra os outros a cobrar perfeição, não só estamos a pedir algo que é desumano como irrealista. Só quando aceitamos que somos imperfeitos é que nos damos o espaço necessário para aprendermos mais e nos melhorarmos, tornando-nos os melhores pais que podemos ser e, se correr bem, melhores seres humanos também.

O que podemos aprender e ensinar com os erros?

Erros

 

Na semana passada publiquei um artigo sobre um episódio do qual não me orgulho, um daqueles erros que nunca queremos que aconteçam, mas que inevitavelmente acontecem com muitos pais por esse mundo fora.

Muitas das reações que tive foram de pais que se identificaram e que lamentavam esses erros de momento, sentindo-se culpados e envergonhados por terem não respondido de outra maneira, por não conseguirem ter maior autocontrolo.

Há algumas ideias que considero importantes retermos:

Senão todos, pelo menos diria que a grande maioria dos pais faz o melhor que pode e sabe a cada momento. Por mais conscientes e positivos que sejamos, há sempre momentos em que erramos. Mesmo com todo o conhecimento, recursos e boas intenções do mundo, nem sempre vamos agir de forma adequada e ponderada.

Calha que tivemos um dia complicado, não andamos a descansar o suficiente, discutimos com alguém, estamos doentes, surgiu um imprevisto para resolvermos que nos está a stressar, está a acontecer alguma mudança na nossa vida,… Enfim, muitas vezes situações deste género são o suficiente para a nossa autorregulação ir pelo cano abaixo e sermos naquele momento os pais que não queremos ser. Então falamos de forma menos respeitosa, ficamos alheados, gritamos, punimos, etc…

Afinal, somos seres emocionais. De vez em quando as emoções pregam-nos a partida de nos tomarem de assalto e perdemos o controlo da situação. Num ápice se instala-se o caos que, conscientemente, não teríamos escolhido.

É nesta altura que devemos cultivar a autocompaixão e a responsabilidade (vs culpa), assumindo que algo fez acionar aquele gatilho em nós, e que, por norma (tal como acontece com os nossos filhos quando se comportam mal), deve-se a uma ou mais necessidades não atendidas que carecem da nossa atenção e ação.

Assumir a responsabilidade por regular as nossas emoções, responder às nossas necessidades físicas e emocionais e reconhecer o que podemos fazer para reparar o nosso erro é algo imprescindível para retirar algo de positivo dos momentos em que estivemos menos bem.

Será bom também lembrar que a forma como nós lidarmos com os erros nossos e dos nossos filhos será provavelmente indicador da forma como eles lidarão com os seus erros e os dos outros no futuro. Não se trata apenas do exemplo que damos, mas tem também a ver com o facto de enquanto filhos interiorizarmos desde da mais tenra idade as mensagens que os nossos pais transmitem. Enquanto adultos essas mensagens que ouvimos passam a a atuar (inconscientemente) como a nossa voz interior.

Costuma-se dizer que errar é humano. E eu diria que errar é inevitável e, como tal, se naquele momento não fomos os pais que gostaríamos de ter sido porque não ver o erro como uma oportunidade para aprender e não como algo que utilizamos para nos martirizarmos, acrescentando mais sofrimento, culpa e vergonha?

Esta mudança de perspectiva não só faz toda a diferença na forma como lidamos com a situação a partir daí como é altamente empoderadora porque nos mostra que é a na nossa imperfeição que reside a nossa oportunidade de melhoria constante a todos os níveis. Que seria se fossemos seres completamente acabados. Seria um tédio.


3 R’s da Recuperação dos Erros

É certo que ninguém gosta de errar, muito menos de magoar alguém e se podermos não o fazer tanto melhor. Mas quando erramos e magoamos alguém sugiro que apliquem, e ensinem também aos vossos filhos, os 3 R’s da Recuperação dos Erros:

RECONHECER | Não estive nada bem nesta situação.

Reconheça o erro com um sentimento de responsabilidade em vez de carregar culpa.

A responsabilidade impele-nos à ação. A culpa à lamentação.

RECONCILIAR | Peço-te desculpa.

Verão que as crianças são muito generosas a dar-nos o seu perdão. Para além de que estaremos a ensinar o valor da humildade e integridade de assumirmos os nossos erros.

REPARAR | Podemos procurar juntos uma solução para o que aconteceu, que te parece?

Não vale a pena remoer sobre o que aconteceu. Aprenda e ensine a focar nas soluções e a cooperarem para alcançar um entendimento assente no respeito mútuo.


Pensar que nós (ou os nossos filhos) temos de ser perfeitos é afastarmo-nos da vida plena que queremos viver. Não se vive autenticamente o amor e alegria se não se souber assumir a dor que os erros nos trazem. Só isso nos permite crescer conscientemente juntos, reforçando competências que nos fortalecem como seres humanos e enriquecem as nossas relações.