Porque escolhi educar com Disciplina Positiva?

Na minha infância lembro-me que a educação que recebi foi essencialmente centrada no controlo e na punição. Fruto de uma cultura que vinha de outros tempos, em que os filhos nasciam para ajudar os pais para o sustento do lar e havia uma espécie de subserviência cega, em que o respeito era devido apenas de filhos para pais, e a própria hierarquia social e familiar seguia uma estrutura rígida, a minha criação seguiu moldes idênticos, embora, à luz dos novos tempos, os métodos utilizados tenham sido, ainda assim, um pouco mais suaves.

Os meus pais fizeram o melhor que sabiam com os recursos que disponham, que por si só, pela infância que viveram, eram muito limitados. No fundo limitaram-se a reproduzir o que havia sido feito com eles. Afinal, eles sobreviveram e tornaram-se pessoas de bem, logo, resultou. Porque não resultaria com as filhas?

Assim, enquanto cresci não me faltaram os sermões, as reprimendas, o sobreolho levantado e testa franzida ao mínimo pisar de risco, e algumas tareias sempre que o risco, conhecido ou não, fosse ultrapassado.

Habituei-me a conviver com o medo e a ansiedade de não estar à altura, de não agradar, de não ser suficiente. Queria ser o orgulho dos meus pais, mas entre tudo o que fazia bem, ‘não fazia mais do que a minha obrigação’. Já quando fazia mal, se a dor de alguma forma me era sempre incutida, o facto é que a vergonha e a culpa logo surgiam como parceiras para me amestrar.

Nunca tive muita liberdade de escolha, porque ‘criança não tem querer’, nem grande possibilidade de questionar, porque ‘não é não e ponto final’, ou de argumentar ‘não há mas nem meio mas’. A vida e o que me era permitido era muito claro para mim ‘é como eu digo e acabou-se’, ainda que nem sempre o que me diziam fosse o que de facto faziam mas ‘enquanto viveres debaixo do meu tecto, é assim que as coisas são’.

E assim foram por longos anos em que sei que fui a menina exemplar, obediente, bem comportada, estudiosa, a fada do lar, prendada, responsável, cuidadosa,… pelo menos a maior parte do tempo. Mas debaixo destes rótulos, houve sempre uma menina que espreitava à janela para tentar que o sol lhe aquecesse a alma. Ficava a sonhar com ter mais liberdade, mais opções, para ser uma menina como as outras. Que gostaria que o amor não fosse opressor e castrador e que a alegria não fosse constantemente vigiada pelo medo de falhar e de envergonhar as pessoas que mais amava.

Um dia fui mãe. Um dia, numa ocasião que a minha filha mais velha, no auge dos seus 2 anos, fez uma birra à mesa porque não queria jantar, vi-me reproduzir o controlo e punição que jurei que não traria para a nossa casa. Mas que fazer se este era o único modelo que conhecia, a única referência que tinha? E afinal, eu sobrevivi e sou uma pessoa de bem. No meu coração esta resposta não me tranquilizou. Sei que padrões de resposta a minha educação me trouxe. Sei de que decisões e limitações me cercou. É mesmo o que quero que resulte para ela?! Não!

Mas nesse momento deparei-me com o vazio, a escuridão. Se não faço assim, faço como? Se não sou esta mãe, que mãe vou ser?

Neste processo de questionamento, até então impensável para mim, surgiram as dores de trazer à tona a consciência da criança que fui e ainda morava em mim. Ao olhar para a minha filha, era hora de regressar às dores que reprimi, ao choro que engoli, às lágrimas que rapidamente limpei e ao que em minha defesa, da minha integridade e autenticidade ficou por mostrar, com medo de não ser aceite, de não me enquadrar nas expectativas.

Há um provérbio árabe que diz

A hora mais escura do dia é que antecede a alvorada

Numa altura em que estava a aprender a lidar com a dores, a procurar acolher a criança que fui, aceitando as minhas limitações e transformando as minhas visões da vida, para aprender a lidar os desafios que as minhas filhas me traziam a todo o momento, comecei a ler sobre parentalidade consciente e logo depois conheci a Disciplina Positiva, que imediatamente ressoou em mim e me fez tanto sentido face ao que procurava para educar as minhas meninas e ao mesmo tempo fortalecer o vínculo de amor que nos une.

Baseada nos ensinamentos da psicologia adleriana, Jane Nelsen desenvolveu o conceito de Disciplina Positiva como forma de educarmos e nos relacionarmos com as crianças, procurando um equilíbrio entre firmeza e gentileza, numa base de respeito mútuo.

A Disciplina Positiva fundamenta-se em cinco critérios:

  1. Ajuda a criança a sentir-se aceite, importante e capaz de contribuir,
  2. Encoraja o respeito mútuo,
  3. É efetiva a longo prazo,
  4. Ensina habilidades sociais e de vida,
  5. Ensina a criança a usar seu poder pessoal de forma construtiva e descobrir os seus talentos.

Ao invés de nos impormos à criança, usando métodos punitivos e controladores, a Disciplina Positiva desafia-nos a conquistá-las, tratando-as com dignidade e respeito, sendo um exemplo desses valores, e a confiarmos nas suas capacidades para cooperarem e contribuírem, orientando-as nas aprendizagens.

O importante nesta abordagem não é forçá-las a fazerem o que é correto, exigindo obediência, para exibirem uma conduta regida por fatores externos (punição ou recompensa), mas ensiná-las a olharem para dentro de si, refletirem sobre as atitudes e autoavaliarem os comportamentos, promovendo respostas conscientes e respeitosas, tanto quanto possível no presente, mas sobretudo com os olhos postos no futuro. Desta forma, a Disciplina Positiva ajuda a promover a autoestima da criança, visto que se procura desenvolver o lócus de controlo interno com base na empatia, ao invés de desenvolverem uma estima baseada em expectativas alheias.

Ao contrário do que acontece num estilo autoritário, em que quando a criança se porta mal, a tendência é fazê-la sentir-se mal para que se comporte bem, Jane Nelsen considera uma incongruência, uma vez que as crianças sentir-se-ão encorajadas a agir melhor e cooperar se sentirem que são ouvidas, que os seus sentimentos são validados e que há a preocupação de se entender a perspetiva delas e de as envolver na solução, em vez de as vermos como problemáticas, birrentas, irritantes ou tantos outros rótulos que lhes costumamos colocar.

Nesta abordagem há apego emocional (que é diferente de superproteção e permissividade). As necessidades das crianças são atendidas, mas são tidas em igual conta as necessidades dos adultos. As regras são responsabilidade de todos e definidas em conjunto sempre que possível, as soluções são o foco e, sempre que os pais precisarem de usar do seu discernimento para decidir algo, ao invés da agressividade e rigidez ou da manipulação com base em recompensas, utiliza-se a firmeza, gentileza, dignidade e respeito. Todas as emoções são aceites embora os comportamentos possam ser revistos para benefício mútuo.

Racionalmente todo o conceito me fez todo o sentido. Senti-me ainda mais encorajada porque não se trata apenas de uma abordagem teórica, mas antes uma metodologia assente em ferramentas práticas. A Disciplina positiva oferece dezenas de recursos para evitarmos cair na punição ou permissividade e a melhor compreendermos as nossas reações e os comportamentos das nossas crianças.

Para mim a Disciplina Positiva não te trata de um manual de instruções, ou sequer de uma receita que sigo à risca, até porque cada mãe é única e cada criança também e os erros são inevitáveis e até essenciais para o crescimento e evolução. Entendo a Disciplina Positiva como uma bússola que me orienta no meu caminho de mãe e me mantém presente e consciente da minha intenção nesta jornada.

Para onde apontas o teu foco?

Lanterna

 

Imagina que certa noite resolves dar um passeio pela floresta. Contigo levas apenas uma lanterna que servirá para te guiar no regresso a casa.

Para regressares tens então duas possibilidades:

  1. apontar a lanterna em frente,
  2. ou ir apontando para trás ou para os lados.

Qual das duas possibilidades te vai ajudar a chegar rápida e efetivamente ao teu destino?

Esta é a reflexão que nos leva a pensar onde queremos colocar a nossa atenção e as nossas energias neste novo ano, a cada novo dia, em cada desafio.

Fomos encontrar esta analogia entre lanterna e soluções neste site da Learn2Be quando preparávamos uma livesession online de Disciplina Positiva sobre Focar em Soluções. Na hora percebemos que era daqui que partiríamos para explicar a importância de aprendermos a focar-nos nas soluções (apontar o foco em frente) ao invés de nos retermos nos problemas e distrações que nada acrescentam de útil (apontar o foco para trás ou lados).

Se a questão colocada parece óbvia, no dia-a-dia percebemos que muitas vezes apontamos o foco na direção errada, dificultando e atrasando todo o processo de resolução dos problemas. E porque é que isto acontece?

Quanto mais focamos nos problemas mais os ampliamos, ganhando cada vez mais espaço no nosso foco de atenção. É um ciclo vicioso (alimentado pelo nosso próprio cérebro de forma inconsciente) que desgasta a nossa energia, que devia estar centrada na resolução e não na ampliação do problema. Quando focamos na solução a nossa energia flui, com muito menos ‘distrações’, centrada no único intuito de atingirmos o nosso objetivo.

Quando se diz que este processo de atenção selectiva é alimentado pelo nosso cérebro, estamos a referirmo-nos a uma pequena parte do nosso cérebro – chamada de Sistema de Ativação Reticular – responsável por inconscientemente filtrar a informação que recebemos e que nos prendeu a atenção.

O Sistema de Ativação Reticular não avalia se esse foco de atenção é prejudicial ou benéfico, correcto ou incorrecto, mas passa a considerar que, se focámos lá a atenção, é porque é relevante para a nossa ‘sobrevivência’/objetivo. Então a partir daí a nossa mente irá procurar validar a perceção selectiva, alimentando-nos com todos os recursos que se lhe possam associar e que ele filtra automaticamente.

O meu Sistema de Ativação Reticular esteve especialmente ativo quando fiquei grávida. De repente, tal era o meu foco na gravidez, que parecia que só via grávidas e bebés em todo o lado.

Outro exemplo comum é quando se quer comprar um carro do modelo XPTO e, de repente, parece que nos cruzamos com esse modelo em todo o lado. Afinal, não é coincidência, apenas estamos, por assim dizer, ‘mais despertos’.

A cada momento temos o poder de decidir para onde apontar o foco e assim atingirmos os nossos objetivos, sejam eles quais forem, sem nos perdermos ou distrairmos.

No entanto, isso implica sair do piloto automático em que insistentemente vivemos e trazer às nossas vidas uma mudança de atitudes enraizadas, bem como um treino consciente e consistente para desenvolvermos novas competências e hábitos.

O início de um novo ano parece-nos um bom momento para este desafio de foco e mudança. 😉

Porquê esta vergonha, este pudor de te abraçar e de acarinhar?

Abraço

 

Meu filho,
Quantas vezes desejo falar-te
e dizer-te tanta coisa que anda comigo.
Quantas vezes quero fazer-te uma festa
e dar-te um beijo dizendo:
Meu filho como te amo!
Porém tu cresceste.
Voaste para o teu mundo
o teu mundo de jovem
Às vezes solitário, outras perdido
outras, alegre e distante.
E entre nós vai crescendo essa separação
Vamos ficando na aparência
um pouco estranhos,
divididos pelas idades
e pelos mundos de cada um.

Ah meu filho!
Porquê esta vergonha, este pudor
de te abraçar e de acarinhar?
de te dizer: Olá meu amor!
Porquê este medo que
nos deixa assim,
com o coração cheio de ternura,
mas os gestos parados,
o olhar vazio,
As palavras todas por dizer.

Vamos mudar isto? Queres?
Então abraça-me,
um abraço forte como dois amigos,
mais que irmãos.
Penetra no meu mundo e eu no teu
Demos as nossas mãos
e caminhemos juntos
na procura que tu queres e eu também.
E vamos construir um mundo
em que não há autoridade
nem distância
mas doçura, compreensão
e amor
E assim, como dois jovens
talvez possamos entender a vida
e sermos companheiros na alegria.
E quem sabe, descobrirmo-nos
um ao outro.

Leio este poema de Júlio Roberto e toda eu, no meu corpo e alma – que é muito de filha mas aqui se manifesta sobretudo enquanto mãe – sei que é de mãos dadas com as minhas filhas que quero seguir pela vida.

Não quero abismos, separações e distanciamentos. Vergonha, culpa, medo e autoritarismo não me servem neste papel. Esgotam-me energias e roubam-me a alegria de desfrutar desta bênção.

Por isso quero estar disponível para que se mostrem tal como são, sem julgamentos, capaz de discernir o que é importante a cada momento, sobretudo os mais desafiantes, e orientá-las pelos valores que nutrem as mais sólidas e saudáveis relações. Também eu tenho de me entregar, plena de luz e de sombra, a este amor de mãe em que confio a minha missão de vida. Que me importa que elas vejam as minhas cicatrizes?! Quero conhecer as suas histórias, saber dos meus medos e dores, e com elas vivenciar a alegria da superação, da entrega sem limites e da transformação a que nos dedicamos quando queremos mesmo ser e fazer dos outros seres humanos plenos e felizes.

A primeira vez que li este poema foi há cerca de um ano e tudo o que me transmitia já fazia então um imenso sentido para mim. Ressoava naquilo que entendia ser o caminho da viagem de uma vida.

Hoje, com os recursos que a Parentalidade Consciente e a Disciplina Positiva me trouxeram sei que não é uma utopia acreditar neste tipo de relação entre pais e filhos. Sei que é possível, embora exigente, porque me obriga a reconhecer e trabalhar as minhas vulnerabilidades, fruto da educação e crenças que carrego e ainda moldam – mais vezes do que gostaria – a minha forma de agir.

É necessária muita presença, consciência, empatia, partilha, respeito e compaixão, para caminharmos de facto juntos com os nossos filhos na desafiante viagem da educação, sem perder o vínculo e o amor.