Amo-te Pai!

– Amo-te Pai!

Estas têm sido as palavras que mais ouvi sair da boca da minha filha mais velha nestes últimos dias, imbuída pelo entusiasmo de preparar uma surpresa para celebrar o Dia do Pai. Uma alegria contagiante que a muito, muito custo tem conseguido manter a surpresa sem desvendar o que se trata.

Talvez ainda não compreenda plenamente o tamanho da grandeza do seu gesto repetido ao longo das horas que temos de partilha, gesto esse que repõe o meu depósito de afectos nos níveis máximos de Amor e ganha mais importância do que qualquer lembrança ou presente que me possa oferecer neste dia.

Mas dou por mim a pensar, porque não me lembro de alguma vez ter dito ao meu Pai tão importantes palavras, ou até umas mais simples como um simples Gosto de ti. Não que o meu Pai não saiba o quanto gosto dele, ou o valor que dou aos seus períodos de ausência durante a minha meninice para que me pudesse dar a melhor infância possível.

A sua reserva em expor publicamente os seus afectos também me foi transmitida como sendo um legado importante, talvez procurando não demonstrar o que se entendiam como ‘fraquezas’ (no fundo a nossa vulnerabilidade) ou não banalizar a importância de tão sinceros sentimentos. Nunca foi explicito para mim o motivo certo. Confesso que esta perspectiva também me fez sentido, até ao momento em que assumi o papel da paternidade, que me fez reflectir que uma demonstração dos afectos sincera não é um sinal de fraqueza, mas pelo contrário é um sinal de grandeza.

Assim neste dia, claramente ficarei com o meu depósito de carinho cheio por força das surpresas e dos momentos de partilha com as minhas pequenas pedras preciosas me proporcionarão, mas quero também alimentar o espírito de quem é o grande responsável pela minha existência e boa parte da minha experiência.

– Obrigado, Pai! Amo-te!

As Cinco Linguagens do Amor para Crianças

Amar, só por amar, não parece ser suficiente para fazer florescer relações. Isto porque há várias formas de exprimir e sentir amor, e nem sempre nos sentimos entendidos na forma como nos exprimimos ou conseguimos compreender o amor que outros nos dão, sejam eles marido/esposa/companheiro/a, filho/a, pai/mãe, ou outros.

Eu falo português. Se o meu marido e/ou as minhas filhas falarem chinês, por muito amor que haja, pode ser difícil entendermo-nos no dia-a-dia. Se não procurar conhecer e compreender a língua que eles falam e eles a minha, o mais provável é que, volta não volta, surjam mal entendidos e conflitos.

Gary Chapman definiu 5 expressões básicas de amor que, no nosso caso conhecemos, ao ler As Cinco Linguagens do Amor para Crianças, mas que também podem ser descobertas na sua versão para adultos.

Vamos detalhá-las um pouco e tentar descobrir qual é a nossa linguagem de amor preferencial (também pode ser mais do que uma). Talvez também consigam identificar a linguagem que os vossos companheiros/as e filhos/as mais valorizam.

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Contacto Físico

Esta linguagem expressa-se através da necessidade de abraçar e acariciar. Todos os momentos são oportunos para manifestar a afeição através do toque. Podemos simplesmente colocar a mão em cima do ombro ou nas costas, dar a mão, fazer uma carícia, dar um beijo…

Presentes

É uma linguagem que vai para lá da oferta superficial. Quem fala esta linguagem gosta de agradar quem ama oferecendo presentes especiais, não necessariamente em datas específicas, mas em qualquer momento, embora valorizem os presentes em Dia de Aniversários, Natal e outros dias que arrebatam o coração. Escolhem com cuidado pensando em todos os pormenores. De igual forma sentem-se valorizados quando recebem estes mimos de amor.

Palavras de Apreço

Esta e a minha linguagem de eleição. Palavras ditas e escritas que expressam carinho, atenção, paixão, reconhecimento, genuína partilha, é o que nos motiva, inspira e nos arrebata. Quem não gosta de as ouvir? Uns mais do que outros é certo. Se para uns parece que as palavras saem naturalmente, outros há que parece que têm de ser arrancadas a ferros. Notoriamente, neste último caso, as palavras não são a sua linguagem de amor. Quem valoriza esta linguagem de amor também interpreta de forma mais intensa palavras de crítica.

Actos de servir

Todos gostamos de receber pequenos cuidados e gentilezas, mas há quem valorize bastante o facto de que cuidem de si ou o cuidar dos outros. Para estas pessoas o serviço é um verdadeiro ato de amor. Atenções como fazer aquela comida especial, cuidar das roupas, consertar algo que se partiu, preparar um banho relaxante,… podem ser vistas como uma mensagem de amor preciosa e encher o depósito de estima como nenhuma outra linguagem.

Tempo de qualidade

Costuma-se dizer que tempo é o bem mais precioso que podemos oferecer aos que amamos. Quando reservamos aqueles momentos para nos focarmos naquela pessoa, para estarmos verdadeiramente com ela, sem distrações ou interrupções, estamos a mostrar-lhe que ela é verdadeiramente importante na nossa vida, que é uma prioridade. Para quem valoriza o tempo de qualidade, se esse tempo não lhe for reservado, pode sentir-se preterida face a outras prioridades, que não é importante, logo não é amada.

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Compreender que sentimos e expressamos amor de formas diferentes e que valorizamos manifestações diferentes de um sentimento tão universal, ajuda-nos a melhor nos relacionarmos com as necessidades das pessoas que amamos e a mostrar-lhes o que valorizamos numa relação. Ao invés de recriminações e cobranças podemos empreender esforços para conhecer melhor a linguagem das pessoas que amamos e melhorar as nossas relações.

 

Sinopse

Cada criança, como qualquer adulto, exprime e recebe melhor o amor através de um dos cinco diferentes estilos de comunicação. Tal verdade pode virar-se contra os pais que falam linguagens diferentes dos seus filhos. Contudo, quando devidamente preparados, as mães e os pais podem utilizar esta informação para os ajudar a satisfazer as necessidades emocionais mais profundas dos seus filhos.

Pode aprender a falar fluentemente a linguagem do amor do seu filho.

E aprenda o que pode fazer para transmitir de forma eficaz sentimentos de respeito, afecto e compromisso incondicionais que têm eco na alma do seu filho através de As Cinco Linguagens do Amor das Crianças.

 

Boas leituras!

Como um amor de ‘ses’ e ‘mas’ influencia a autoestima dos nossos filhos

 

“Quando se planta uma alface, se ela não crescer bem, não se culpa a alface. Procura-se ver os motivos porque não está crescer bem. Pode precisar de fertilizante, de mais água, ou menos sol. Nunca se culpa a alface.
No entanto, se tivermos problemas com os nossos amigos ou família, culpamos a outra pessoa. Mas se nós soubermos como cuidar deles, eles vão crescer bem, como a alface.
Culpar não tem qualquer efeito positivo, tal como tentar convencer usando a razão e argumentos. Essa é a minha experiência. Sem culpa, sem raciocínio, nenhum argumento, apenas a compreensão. Se entenderes isto, e mostrares que entendes, poderás então amar e a situação vai mudar.”

Esta reflexão do monge vietnamita Thich Nhat Hanh explica, de forma muito simples e assertiva, o que é de facto o amor incondicional. Se amamos incondicionalmente não há ‘se’, nem ‘mas’. Amamos, compreendemos, aceitamos, confiamos. Respondemos às causas e circunstâncias que afetam os nossos filhos e não sobre a pessoa que são.

Quantas vezes com os nossos filhos (e não só) apregoamos aos sete ventos que os amamos incondicionalmente, e ainda assim, no dia-a-dia as nossas palavras e ações traem-nos.
Não está em causa que se diga ‘não’ a um filho, que se corrija e oriente as suas atitudes, dizendo-lhe que algo que fez ou disse está incorreto ou que o seu comportamento foi inadequado. É legítimo que precise de “mais água” ou “menos sol” e é nosso dever providenciar que tem o que precisa para se desenvolver (diferente de ter o que quer). É importante que a criança perceba que estamos atentos às suas necessidades e disponíveis para ajudá-la no seu crescimento da forma mais respeitosa e positiva possível, mesmo quando o ‘positiva’ exige que se lhe diga ‘não’ e se exoplique as circunstâncias porque, por amor, não podemos permitir que algo aconteça.

Enquanto pais temos o dever de fazer com que os nossos filhos se sintam ouvidos, respeitados, reconhecidos e amados. Aliar a nossa relação a um vínculo forte e a uma necessária empatia para com os seus sentimentos, motivações e necessidades, potencia que cresçam confiantes, que desenvolvam uma saudável autoestima e autonomia e que aprendam a valorizar os outros tal e qual eles são.

Traíamos no entanto as juras de amor incondicional que lhes fazemos quando os avaliamos em função:
– dos seus comportamentos como mais ou menos merecedores da nossa atenção, presença e afeto;
– dos resultados que obtém;
– das capacidades e competências que conseguem desenvolver, às vezes em comparações despropositadas com outras crianças (comos e cada criança não fosse única);
– das expectativas que, mais ou menos secretamente, criamos e objetivos/metas que entendemos deverem alcançar, estes nem sempre ajustados ao nível de desenvolvimento em que a criança se encontra.

No seu crescimento os nossos filhos sentem então sobre si a pressão de corresponder aos padrões que estipulamos e que todos os outros modelos de referência tendem a projetar também. A barómetro do seu valor passa a estar subjugado não ao que eles são intrinsecamente mas a como se manifestam – o que fazem, como se expressam e a avaliação que os outros fazem disso. É uma valorização que se alimenta do exterior em vez de se nutrir no interior.

Essa disrupção entre o que são e o que se espera que sejam fragiliza-os, tornando-os dependentes de elogios constantes, recompensas e prémios para se sentirem valorizados e amados. Para crianças com baixa autoestima vale tudo por migalhas desse amor que tanto precisam. Há ainda a tendência de tornarem-se competitivos e egocêntricos, sempre em prol de passarem a melhor imagem, de agradarem.  Todos sabemos que a vida nem sempre corre de feição, e quando assim é, a autoestima, tão volátil nos que sentem amor condicional, cai a pique e eles sentem-se perdidos, receosos, ansiosos, desamparados e vulneráveis. Se uns se acomodam a estes sentimentos tornando-se tímidos, reservados,  reprimindo o que sentem, outros há que lutam contra a pressão que sentem e então são catalogados de rebeldes, revoltados e inconformados, porque a necessidade de se libertarem das amarras (expectativas e controlo) a que se sentem presos é o que os guia. Muitas vezes esta revolta não é percetível durante a infância, mas tende a evidenciar-se na adolescência.

Se atendermos às suas necessidades e sentimentos, validando a integridade e igual valor que neles reside, orientando-os para que que reconheçam as suas capacidades e que se responsabilizem pelos seus atos, aprendendo, quando incorretos, com eles. Só então estaremos a honrar o amor incondicional que tão facilmente nos sai da boca para fora, mas que nem sempre se revela nas nossas ações e na comunicação quotidiana.