O que carregam os nossos filhos na mochila?

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Mochila

 

Nesta casa, como em tantas outras por esta altura, há uma criança que prepara a mochila com todo o entusiasmo que lhe é próprio, ansiosa por iniciar uma nova etapa da vida estudantil.

Esta criança vai descobrir uma nova escola, fazer novos amigos, reencontrar colegas, conhecer um novo professor e aventurar-se numa nova rotina. Para esta criança já encomendámos os livros. Já tem cadernos, estojo, canetas, lápis, afia, borracha, cola e tesoura, e outros materiais que a estes se juntarão a pedido.

Eu aprecio-a enternecida. Olho para essa mochila, que orgulhosamente exibe pelo sabor a novidade, e vejo tudo o mais para lá do que é possível comprar em qualquer papelaria ou supermercado. Por via de novas experiências, novos relacionamentos e ambientes, será levada a adquirir, não só conhecimentos de vários âmbitos académicos, mas em grande medida muitos dos valores e habilidades sociais que nortearão a sua vida.

Nesta mochila, para o percurso que a espera, o material escolar que se compra e que ela transporta não é o que mais importará. Ainda que de suma importância para o sucesso académico e com a sua quota-parte de relevância para atingir os objetivos, acredito que a mera – ainda que eficiente – aquisição de saberes também é, só por si, insuficiente para prover a esta criança a satisfação e significado de vida que se poderá pretender. Na verdade o que nos vamos apercebendo é que quando nos focamos em demasia na aquisição de conhecimentos técnicos menosprezando o papel das competências socio-emocionais, tende a haver um desequilíbrio prejudicial no desenvolvimento pleno da criança, com repercussões, por vezes, muito sérias na sua vida adulta.

Exigências, distrações, competição, culpa, superproteção…

Se estivermos conscientes do ritmo desenfreado e o automatismo em que tendemos a levar as nossas vidas, facilmente reparamos que entregamos aos nossos filhos uma mochila demasiado pesada para carregarem todos os dias consigo, sem que muitas vezes lhes estejamos a disponibilizar os recursos necessários para aligeirarem a carga quando ela se torna insuportável. Nas mochilas que, hoje, muitas crianças transportam existem exigências e expectativas desfasadas, excesso de estímulos e distrações, competição, superproteção, controlo excessivo, culpa, inadequação, e outros fardos que tais. Por outro lado escasseiam o treino para o foco e atenção, a presença, a empatia, a conexão e a comunicação.

Quem lhe educa a emoção para chegar a bom porto?

Dou então com ela a fechar a mochila e a colocá-la às costas e pergunto-me que peso sente ela ou irá sentir daqui para frente?

O certo é que não sei que desafios encontrará no caminho nem sequer com quem se irá cruzar. Tão pouco lhe posso garantir que haverá o cuidado de a verem como eu a vejo, de a valorizarem para lá das notas e do que o comportamento tantas vezes manifesta sem conseguir revelar a pessoa que é. Nem sequer sei se haverá a sensibilidade e disponibilidade para a orientarem por este mar emoções, tantas vezes difusas e turbulentas, que nos subjugam a razão nos momentos mais decisivos. Nesta escola do saber quem lhe educa a emoção para chegar a bom porto?

Inteligência emocional para saber lidar com o futuro

Junto-me então a ela para verificar o que já leva na sua mochila e perceber que outros recursos posso providenciar, garantindo que ela terá o que é necessário para gerir os desafios com que se vai deparar. A vida por si só e as relações que irá desenvolver criarão as circunstâncias sobre as quais terá de agir e traçará o curso da sua vida. Mas como o fará? Reagindo ou respondendo? A sua imaturidade biológica dita que a reação seja o modus operandi a que mais rapidamente acede, deixando muitas vezes as suas ações e comportamentos à mercê de decisões inconscientes e impulsivas.

Contudo, à medida que vai crescendo o treino na gestão das emoções irá permitir-lhe uma resposta mais adequada e inteligente e uma vivência mais saudável e equilibrada nas várias facetas da sua vida, nomeadamente na profissional que tanto nos inquieta quando percebemos que o mercado das profissões se transforma hoje a um ritmo vertiginoso. Para este mundo, em permanente mudança, mais do competências técnicas, requere-se inteligência emocional para saber lidar com os desafios e as incertezas que o futuro reserva.

Aprendemos melhor quando nos sentimos encorajados e inspirados

No campo da literacia emocional já muito que se faz nas escolas e fora delas, mas muito mais há ainda por fazer. Pais, professores e outros educadores mais despertos percebem a importância de trabalhar estas competências com as crianças para realçar a aquisição e favorecer a utilização dos saberes académicos no contexto da vida prática. A neurociência indica-nos que aprendemos melhor quando nos sentimos encorajados e inspirados.

Num contexto em que se ensina e se educa com empatia e alegria, as crianças sentem-se motivadas para aprender e menorizam a carga negativa dos erros, tradicionalmente muito conotada com culpa e vergonha. Ao invés, percebem que erros são ótimas oportunidades para aprenderem e melhorarem. Com recurso a uma boa gestão das emoções, ficarão também mais capacitadas a colaborar porque se sentem envolvidas numa atmosfera que privilegia as singularidades, ritmos e interesses de cada criança, valorizando a diversidade com mútuo respeito, ao invés de se concentrar na estandardização de aptidões com os olhos postos nos rankings.

Educar para as emoções

Quando se trata de educar para as emoções, escola e família devem caminhar lado a lado, facilitando e estimulando o acesso a ferramentas de autoconhecimento e autorregulação, que desde logo se materializam no exemplo que pais e educadores são, modelando a forma como a criança se perceciona a si, aos outros e ao mundo, e condicionando as decisões mais ou menos conscientes que toma. Também em casa os pais podem e devem estimular as habilidades de relacionamento como a empatia, um recurso atualmente nas bocas do mundo, que na prática nos torna capazes de agir ou resolver situações de conflito duma forma positiva, assertiva e compassiva. Se tudo correr bem, com o tempo conseguiremos criar jovens e adultos, que apoiados nestas competências socio-emocionais, serão capazes a tomar decisões cada vez mais responsáveis, em prol de um bem comum, e assentes numa reflexão e crítica construtiva e colaborativa.

Tal como acontece com a escolarização, para se chegar ao tal bom porto, há que dar tempo e espaço para que as crianças, com o nosso apoio, experienciem os recursos emocionais e selecionem os que melhor lhes servem para levarem nas suas mochilas. Em muitas situações, se inteligentemente geridos, estou certa representarão a maior das vantagens para alcançarem a vida bem-sucedida que tanto lhes desejamos.

 

Texto publicado na Revista VIP – Destacável Vip Kids e no site Crescer Contigo