Disciplina para que te quero?

Pergunte-se a 10.000 pessoas se as crianças precisam de disciplina. Estou disposta a apostar que, em qualquer amostra aleatória, 9.999 dos entrevistados dirão “Sim, claro!“.

Mas o que significa exatamente “disciplina”?

A palavra Disciplina originalmente significa Instrução ou Orientação e deriva da mesma raiz latina que a palavra Discípulo.

Hoje em dia, no entanto, esse significado parece ter sido considerado obsoleto, uma vez que na prática a palavra passou a significar punição.

O dicionário define punição como uma “ação com a intenção de ferir”, seja física ou psicologicamente, para ensinar uma lição.

Como Jane Nelsen, fundadora da Disciplina Positiva, diz: “Onde fomos buscar a ideia de que, para ajudar as crianças a fazerem melhor, temos que fazê-las sentirem-se pior?”

Disciplinar não é um ato de provocar dor à criança para a ensinar. Não devemos incutir à ação de disciplinar conotações negativas. Ao invés devemos voltar à origem da palavra, mudar as nossas lentes e começar a ver os nossos filhos não como crianças necessitadas de punição – para convencê-los a parar de se comportarem de forma inadequada – mas como necessitados de orientação, treino e apoio. Perceberíamos então que que:

  1. Todo mau comportamento é um pedido de ajuda ou conexão. 
    Respondendo à necessidade o comportamento mudará. Muito do que consideramos “mau comportamento” é imaturidade normal e pode ser “corrigido” simplesmente através de orientação amorosa.
  2. A criança aprende o que vive
    … através da experiência repetida. Toda interação com os nossos filhos modela como eles se veem a si mesmos e se relacionam com os outros.
  3. Se uma criança não está a responder às nossas expectativas, talvez precise de mais apoio e não culpa
    … seja com ensino, treino, conexão, limites empáticos ou ajuda para lidar com as emoções com as quais não consegue lidar.
  4. Todas as crianças precisam de aprender a fazer reparos quando magoam uma pessoa ou destroem propriedade. …Eles aprendem muito mais com isso do que ao serem punidos. Estarão também mais disponíveis a reparar o erro se não se sentirem envergonhados ou humilhados ao serem punidos.
  5. Uma criança que consiga regular as suas emoções, também poderá regular o seu comportamento. 
    Se o nosso filho se sente conectado connosco, ele irá querer seguir o nosso exemplo – mas às vezes ele não consegue, porque as suas fortes emoções oprimem seu córtex frontal ainda em desenvolvimento. Podemos ajudá-lo a lidar com as emoções, para o ajudar a treinar a gerir o seu comportamento.

Talvez te perguntes se parte deste mau comportamento não será simplesmente a criança a fazer o que ela quer? Claro que é! Mas, nesse caso, talvez devamos entender esse mau comportamento como uma bandeira vermelha hasteada, um sintoma de que a criança considera a conexão que tem connosco menos importante do que fazer o que ela quer. Se isso acontece, talvez o relacionamento precise de ser fortalecido ou a criança precise apenas de ajuda com as emoções que a impedem de se conectar connosco. Se ignorarmos este alerta e a punirmos, estaremos apenas a tratar o sintoma, e não a causa. Esta reação apenas irá garantir mais problemas adiante, porque estaremos a corroer o relacionamento com o nosso filho.

Quando uma criança confia que estamos realmente do lado dela, mais facilmente consegue gerir as suas fortes emoções, e então estará disposta a desistir de fazer o que quer, para fazer algo que ela quer bem mais – permanecer positivamente conectada connosco.

Se pensarmos nisto, veremos que esta é a base de autodisciplina – prescindir de algo que queremos muito (aquele pedaço de bolo) por algo que nos é mais benéfico (a nossa saúde), contrariando o impulso inicial. Sempre que a minha filha escolhe não bater na irmã, porque o que ela mais quer é a minha admiração e respeito, estará a construir os caminhos neurais para se tornar mais autodisciplinada, uma habilidade que a ajudará por toda a sua vida.

“Tudo muito bem”, pensarás “Mas as crianças precisam de limites!” 

Concordo. Estabelecer limites faz parte da orientação que devemos dar às crianças. Mas também faz parte do trabalho da criança testar os limites, para que aprenda o que é permitido e onde estão efetivamente os limites. A maioria dos pais precisa estabelecer limites ao longo de todo o dia, todos os dias. Esses limites devem ser firmes para que a criança possa parar de testar, mas também empática, para que a criança não construa a crença que é uma pessoa má, sem remédio, que não aprende ou que só faz asneira.

Talvez ainda penses: “Mas as crianças precisam de ser punidas para aprender!” 

Na verdade, se aprender é o objetivo, então a criança precisa de ensino ou treino. A aprendizagem é interrompida quando nos sentimos sob ameaça e a punição é uma ameaça para uma criança. Quando te sentes na defensiva, estás disponível para aprender e crescer? As crianças também não estão. Os limites são muito mais eficazes no desenvolvimento da autodisciplina dos nossos filhos quando são colocados com empatia, porque faz com que a criança não resista tanto e mais facilmente se predisponha a colaborar.

Para mudar o nosso pensamento e as nossas atitudes, precisamos mudar as nossas palavras. Concordemos então em voltar à origem da palavra Disciplina, trazendo-a para a prática diária. Eduquemos os nossos filhos com orientação amorosa e limites empáticos.

 

Fonte: Aha Parenting

Tradução/Adaptação: Emoções à flor da Mente

Também as levei e não morri

bater em criança

 

Quando o tema são as palmadas, ainda que convenientemente apelidadas de ‘pedagógicas’, é certo e sabido que a dada altura alguém há-de argumentar:

Também as levei e não morri.

Nessa altura, se por ventura não digo, pelo menos penso:

– Mas numa relação entre pais e filhos o objectivo é sobreviver?

 

É certo que uma palmada não mata (literalmente), e no momento até resolve aquele comportamento.

Oiço quem diga:

– Quando mais nada funciona, uma palmada funciona sempre.

Aí dou a mão à palmatória (salvo seja). De facto a palmada funciona. Se não funcionasse não havia tanta apologia da palmada ‘pedagógica’.

Mas já pararam para pensar a que preço funciona?

Quando damos a dita palmada estamos a ‘pensar’ nos seus efeitos a longo prazo ou apenas a curto prazo?

Em primeiro lugar, não é por acaso que coloco entre aspas a palavra pensar. Na verdade, quando atingimos este limiar, o que acontece é que o cérebro, sob a pretensa ameaça da inquietude, refilice ou birra da criança, sente-se provocado a reagir e sem mais recursos para se controlar, acede ao modo ‘sobrevivência’.

Uma vez aí, domado pelo impulso ‘luta ou fuga’ sentimos que a única forma de voltarmos ao controlo da situação é dar a palmada.

 

No imediato, e na maior parte dos casos, a palmada interrompe os maus comportamentos. Até porque o próprio cérebro da criança, entra no mesmo mood e percebe que perante o cenário em que a sua integridade está em causa confrontado com alguém a quem não conseguem fazer frente, terá de parar (fuga) para ‘sobreviver’.

 

Vários estudos têm revelado ao longo dos anos que crianças habituadas a punições, como a dita palmada, tendem a tornar-se rebeldes ou temerosamente submissas. Numa situação em que as crianças são expostas a este tipo de reações, mas também outros como castigos, gritos, ameaças, há quatro respostas prováveis:

 

Ressentimento

A criança pensa/decide:

– Isso não é justo. Não posso confiar nos adultos.

Retaliação

A criança pensa/decide:

– Ganhaste agora mas hei-de vingar-me.

Rebeldia

A criança pensa/decide:

– Vou fazer exatamente o contrário para provar que não tenho de fazer como tu queres.

Recuo

A criança pensa/decide:

– Da próxima vez vou fazer de tal forma que não descubras. (dissimulação)

– Faço sempre asneira. Sou mesmo uma nódoa. (baixa auto-estima)

 

Nem sempre este processo é consciente e a crença que a criança formula, bem como a ‘decisão’ que toma, dependerão sempre do contexto e do seu temperamento. De qualquer forma, é algo que devemos ter atenção quando usamos métodos punitivos ao educar.

 

Entre as respostas que a criança pode dar a que mais me assusta é por ventura a última, a do recuo que afeta a auto-estima. Talvez porque me identifique com ela…

Nestas circunstâncias a criança passa a acreditar que há algo de errado com ela. É corroída pela culpa. Assume do rótulo de ser alguém que não faz nada direito, que é má, que só faz os outros passarem vergonha, que não devia ter nascido,… Não se sente acolhida, amada ou importante, e andará numa constante luta por agradar, subjugando as suas próprias necessidades interiores às expectativas dos outros.

As crianças aprendem a olhar para os outros como referência para decidirem se estão a fazer o que é correto ou não, em vez de aprenderem a se autoavaliarem. Desenvolvem uma estima baseada nos outros e não uma auto-estima.

 

Para além disso, uma criança que é punida recorrentemente (seja em maior ou menor escala) tendencialmente não deixa de amar os pais e até arranjará forma de os defender e desculpar, mas tenderá a deixar de se amar, de lutar por si e pela sua integridade. E esta é uma decisão que levará de forma mais ou menos consciente pela vida.

 

No momento em que sentirmos que a situação está a fugir ao nosso controlo e que não conseguimos aceder a recursos mais racionais e respeitosos para nós e para a criança, devemos fazer uma pausa. Por vezes basta contar até 10.

Segundo o neurologista John Dylan Haynes, 10 segundos é o interregno de tempo entre o impulso de ação (num pico da atividade cerebral) e tomada efetiva de consciência quanto à decisão tomada, basicamente, é o tempo médio que levamos até que nos caia a ficha.

 

Se o impulso for muito intenso e continuar a ser alimentado pelo estado da criança naquele momento (agradeçam aos ‘neurónios espelho’) pode ser útil avisarmos a criança que nos vamos retirar porque não nos sentimos em condições de resolver a situação. Se for preciso, fujam para casa de banho para passar água no rosto.

Já sei o que estão a pensar:

– Era só o que faltava! E ela safa-se assim?!

Perguntem-se a vocês mesmos: o que é mais importante? Mostrar à criança quem manda, passando-lhe a mensagem que o mais forte conseguirá sempre subjugar o mais fraco, com todas as repercussões que daqui se podem retirar? Ou conquistar o respeito da criança, por meio do autocontrolo e autorregulação que se está a modelar e que, com certeza, no futuro fará toda a diferença nas interações que a criança vier a ter?

Na minha opinião, a segunda parece-me a melhor opção. Mas obviamente, cada um sabe de si e das suas próprias escolhas.

 

Posto isto, quando controlado o vosso impulso de punir, procurem acalmar a criança. Muitas vezes propor um abraço ajuda.

Depois, quando todos estiverem calmos, conversem sobre o que se passou, sem julgamento e procurando validar o que um e outro sentiram, mostrando empatia pela necessidade da criança, ainda que deixando claro que não concordamos com o comportamento. É razoável nesta sequência convidar a criança a pensar numa solução e, se ela própria não conseguir chegar lá, oferecer-lhe recursos para numa próxima situação conseguir responder de uma forma mais adequada. É que não basta dizer que a criança não pode fazer isto ou aquilo. É preciso ajudá-la a perceber o que pode fazer.

 

Não pensem no entanto que seguindo estes passos haverá sempre cooperação e que o mau comportamento não retornará. Não é assim que funciona e não há receitas infalíveis.

Tudo isto é um processo e treino e devemos ter em mente que o próprio cérebro da criança está em desenvolvimento até por volta dos 20/25 anos de idade. Até lá cabe ao adulto ter muita paciência, aprender a autocontrolar-se e regular-se (ele, mais do que a criança terá essa capacidade) e confiar no modelo que é para construção daquela criança.

 

Crédito imagem @criandocomapego