O teu bebé acabou de nascer. Porque não estás feliz?

Bebé

Revejo-me hoje, como há anos, nas tuas angústias, descrédito e desespero. As lágrimas que hoje choras eu também as chorei. Todas as mães as choram, mas, sempre que aparece alguém, é hora de as limpar e sorrir. Afinal, o teu bebé acabou de nascer, porque não estás feliz?

Sim, é possível não estar feliz. Ou…

Está-se, e depois o medo…

Está-se, e depois o desamparo…

Está-se, e depois o cansaço…

Está-se, e depois as hormonas…

Está-se, e depois as opiniões…

Está-se, e depois a impotência…

Está-se, e depois a insegurança…

Está-se e depois, a culpa…

E assim, vai-se estando… sem se estar.

Esta é uma felicidade tão vertiginosa como intermitente. Entre o céu e o inferno. E às tantas, já não sabes o que sentes, porque o que sentes é difuso, é ruidoso, é tremendo, é tantas vezes esmagador.

De repente, tu que só sabias ser filha, és mãe. Tens a tua filha nos braços. Ela tem todo o vagar para ser filha, e tu tens, de uma hora para a outra, de te transformar na íntegra na mãe que ela precisa.

A ela tudo é perdoado – as noites irrequietas, a má pega, o choro, a fome, o sono de passarinho, as fraldas sujas, o arroto que não vem, o peso, a altura, o percentil, as cólicas, a descompressão,… – porque é uma vida nova que se inicia, em todo o esplendor e com a complacência que essa revelação nos traz.

Mas tu, já cá andas há algum tempo, já levaste alguma pancada, já tropeçaste e te levantaste, já aprendeste a te defender, já tens calo nas dores da vida, já sabes com o que contar.

A ti se exige que cuides e protejas essa criança como ninguém mais e que, enquanto dás os primeiros passos nesse tão belo e imenso papel, te cuides e vivencies o momento com ligeireza e contentamento. Porque se exige – e tu mais do que ninguém exiges e pretendes ser a mãe ‘perfeita’ – então, escondes os teus sentimentos e tentas reprimi-los, anulá-los.

Disseram-te que agora é ela que importa mesmo que te sintas, tal como ela, perdida neste mundo novo e também queiras colo, quem te embale e diga que “está tudo bem”. Procuras suster as emoções que te inundam, como quem sustem a respiração. Queres o apoio, o amparo e o abraço, mas ninguém vem, porque acham-te uma fortaleza no alto do teu recente papel de mãe. Mas o pedestal em que te colocaram está ainda em construção e oscila… ó se oscila!

É possível a confusão ser tão grande, a mudança tão imensa, os sentimentos tão opostos, que nos sentimos numa montanha russa na qual entrámos a pensar que sabíamos no que nos metíamos, confiantes, empoderadas pelo milagre que trazíamos em nós. Mas de repente o nosso vagão começa a andar, a alta velocidade. Tentamos apreciar a viagem mas a vertigem, a rapidez com que os altos e baixos se sucedem, suga-nos a atenção, apertam-nos o coração e já só sentimos o estômago às voltas e um nó na garganta que não conseguimos desfazer.

Não se fala deste lado, porque a maternidade quer-se cor-de-rosa (ou azul-bebé) e não cinza. É a esperança e o céu azul. É a frescura cândida da primavera. Não é o desespero, as nuvens carregadas… o frio cortante do inverno.

Mas é. É tudo isto e tudo o mais que não consigo descrever. Todas as estações num só dia, numa só hora, se for preciso. E não há panos quentes. É um assalto à nossa identidade, intrusivo e impiedoso.

Mas dia-a-dia reconstruímo-nos sobre a nossa essência e consolidamos a nossa fortaleza. Aprendemos a reconhecer quem somos e a resfriar a fervura de tudo o que sentimos.

Mais dia, menos dia, o ritmo abranda, as estações suceder-se-ão com mais tranquilidade e vais, por fim, conseguir apreciar e desfrutar da viagem que agora se inicia.

Se quiseres começar já, não sustenhas a respiração. Respira…

É no exemplo que a educação se materializa e o amor se fortalece

Exemplo

Tive reunião na escolinha da B esta semana. Entre mil e um temas de agenda e relatos sobre os desenvolvimentos dos meninos em ambiente escolar, a educadora abordou também os momentos em que ficavam mais agitados e, num aparte, deu conta que numa dessas alturas a B (5 anos) lhe terá dito:
– Precisam de meditar para acalmar.
A sugestão terá sido bem acolhida e ao que parece, de quando em vez, agora lá se sentam todos em meditação conforme sugerido pela coleguinha.

Saber desta história alegrou-me e surpreendeu-me. É que em casa, quando medito junto dela, normalmente a B não demonstra grande interesse pela prática. Já lhe expliquei o que faço quando me sento naquela posição e fecho os olhos, e os benefícios e porque também seria bom ela fazer, mas nunca foi o suficiente para verdadeiramente a motivar. Até costumo perguntar-lhe se se quer juntar a mim, mas na generalidade das vezes diz que não, que prefere ficar só a ver.
Face ao que me parecia ser uma atitude de um certo descaso em relação à meditação, não esperava que ela tivesse a reacção que a educadora relatou e que, de certa forma, impulsionasse para que a prática se tornasse frequente na sala de aula.

O mais inspirador para mim deste episódio é aperceber-me de como o exemplo que passamos aos nossos filhos é na prática apreendido e reproduzido por eles, sem que muitas vezes o manifestem ou nos dêem a entender. O facto é que curiosamente ela nunca abordou em casa esta situação da meditação em sala de aula, e no entanto soube autonomamente fazer uso do exemplo que lhe dei.

A parentalidade é um dos temas quentes nos dias de hoje. Há muitas correntes que se defendem ou renegam, das quais nos aproximamos ou afastamos. Há também muitos pais que hoje se sentem ‘sem rei nem roque’ na tarefa de educar as suas crianças. Hoje, muitos de nós, não temos as redes de apoio de antigamente, nomeadamente nas grandes cidades. A família está longe e com os vizinhos quase não se convive, só se trocam breves palavras de circunstância. As pressões sociais e económicas são muitas e o tempo escasso para responder a tantas solicitações. Asfixiamos lentamente em exigências, cobranças, contas, deveres, compromissos inadiáveis…

Passamos horas sem fim fora de casa, longe dos nossos e nem as tecnologias nos valem para realmente nos aproximarmos. Temos sorte quando há a possibilidade de tomar o pequeno-almoço em família e à noite estarmos todos juntos para jantar à mesma mesa. Pais há que durante a semana só veem os filhos de fugida ou de soslaio quando já dormem. É muitas vezes o alto preço a pagar para sustentar a família.

Mas o tempo urge e eles crescem e nesse crescimento desenraizam-se de nós e dos sonhos que tinhamos para eles. E os pais assistem, quando não estão intensamente alienados ou distraídos, impotentes e incrédulos a esta cruel emancipação prematura, que nos rouba a oportunidade de lhes passar o melhor de nós – os pilares para uma vida presente, saudável, plena e feliz.

Se quisesse tapar o sol com a peneira e apenas lamentar a má sorte de sermos pais nestes tempos modernos, diria que a culpa é desta sociedade, dos governos e desgovernos sem políticas pro-natalidade e pró-família, dos empregadores apenas atentos ao lucro das suas empresas e acionistas, da falta de condições, do êxodo, do diabo a quatro… Mas temos de ser claros. A culpa é nossa, pais, que desnorteados, tocados a vara qual gado, não nos damos tempo para concretizar o que fazemos das nossas vidas e, consequentemente, da vida daqueles a quem mais queremos bem. Enfiamos a cabeça na areia e dizemos que amanhã será o dia, o nosso tempo virá e o deles também. Levamos os dias a correr e a correr com eles (literal e figurativamente falando). Eles fazem birras e nós sobrepomos as nossas. Eles gritam e nós gritamos mais altos pelo bem da nossa autoridade. Eles amuam e nós reviramos os olhos, incapazes de penetrar nos seus corações. Eles esperneiam e agarram-nos as pernas e nós maldizemos a vida e amarguramos os seus olhares pesarosos, angustiados por um abraço demorado para o qual nunca parecemos ter disponibilidade.

As responsabilidades não se varrem para debaixo do tapete e a educação dos nossos filhos e o amor que lhes devemos – não em palavras mas em actos – não pode ser empurrada para as calendas de um tempo indefinido na vã esperança de ainda lá chegarmos a tempo de lhes dar aquilo a que não nos prestámos enquanto era possível. Todos sabemos que o amanhã nunca chega mas é para lá que empurramos os nossos sonhos sem ousarmos começar hoje a construir o futuro que desejamos.

E os nossos filhos, ficam sem raízes, e aí percebemos que na verdade as raízes que lhes demos eram tão frágeis e doentes, porque, a bem dizer, até as nossas deixámos apodrecer num recanto qualquer do tempo do qual já nem sequer nos lembramos, ou procuramos esquecer para que não nos magoe a lembrança.

E no meio desta fragmentação de pais e indivíduos, não conseguimos ser amor por inteiro e dar esse amor incondicionalmente aos nossos espelhado naquilo que somos e fazemos. Somos uma réplica daquilo que desprezamos na sociedade e as nossas crianças são orfãs de pais vivos mas que todas as noites lhes dão um beijinho na ingénua esperança que venham a ser felizes, guiados por aquela mesma felicidade que nos escorre por entre os dedos todos os dias.

E é neste exemplo do que tristemente transmitimos que eles se perdem e procuram por si só as referências que lhes faltam. Quando são pequenos ainda esperneiam, fazem birras e confrontam-nos, procurando despertar-nos para as suas necessidades, para o exemplo que devemos ser.

Mas mais tarde, quando entram na adolescência ficam mudos e perdem qualquer conexão. Procuramo-los mas nos seus olhares encontramos vultos que não conhecemos, pois mal os vimos crescer e na nossa falta assumiram outras referências para a vida. Desesperamos porque se diluem em ações impensadas e incongruentes. Mas onde esteve a nossa consciência, a nossa congruência enquanto cresciam? Acusamo-los de não fazerem uso dos valores que lhes passámos. Mas em que momento lhes exemplificámos os homens e mulheres que vislumbrámos que fossem.

É no exemplo – sempre no exemplo – que a educação se materializa e o amor se fortalece. É no que efectivamente vivemos e somos que as nossas crianças vão beber os valores, comportamentos e orientações.
É nas intenções que definimos para nós enquanto pais e pelas quais solene e genuinamente nos responsabilizamos que se reflectem os filhos que idealizamos ter, não sempre, mas quando menos esperamos.