Para onde apontas o teu foco?

Lanterna

 

Imagina que certa noite resolves dar um passeio pela floresta. Contigo levas apenas uma lanterna que servirá para te guiar no regresso a casa.

Para regressares tens então duas possibilidades:

  1. apontar a lanterna em frente,
  2. ou ir apontando para trás ou para os lados.

Qual das duas possibilidades te vai ajudar a chegar rápida e efetivamente ao teu destino?

Esta é a reflexão que nos leva a pensar onde queremos colocar a nossa atenção e as nossas energias neste novo ano, a cada novo dia, em cada desafio.

Fomos encontrar esta analogia entre lanterna e soluções neste site da Learn2Be quando preparávamos uma livesession online de Disciplina Positiva sobre Focar em Soluções. Na hora percebemos que era daqui que partiríamos para explicar a importância de aprendermos a focar-nos nas soluções (apontar o foco em frente) ao invés de nos retermos nos problemas e distrações que nada acrescentam de útil (apontar o foco para trás ou lados).

Se a questão colocada parece óbvia, no dia-a-dia percebemos que muitas vezes apontamos o foco na direção errada, dificultando e atrasando todo o processo de resolução dos problemas. E porque é que isto acontece?

Quanto mais focamos nos problemas mais os ampliamos, ganhando cada vez mais espaço no nosso foco de atenção. É um ciclo vicioso (alimentado pelo nosso próprio cérebro de forma inconsciente) que desgasta a nossa energia, que devia estar centrada na resolução e não na ampliação do problema. Quando focamos na solução a nossa energia flui, com muito menos ‘distrações’, centrada no único intuito de atingirmos o nosso objetivo.

Quando se diz que este processo de atenção selectiva é alimentado pelo nosso cérebro, estamos a referirmo-nos a uma pequena parte do nosso cérebro – chamada de Sistema de Ativação Reticular – responsável por inconscientemente filtrar a informação que recebemos e que nos prendeu a atenção.

O Sistema de Ativação Reticular não avalia se esse foco de atenção é prejudicial ou benéfico, correcto ou incorrecto, mas passa a considerar que, se focámos lá a atenção, é porque é relevante para a nossa ‘sobrevivência’/objetivo. Então a partir daí a nossa mente irá procurar validar a perceção selectiva, alimentando-nos com todos os recursos que se lhe possam associar e que ele filtra automaticamente.

O meu Sistema de Ativação Reticular esteve especialmente ativo quando fiquei grávida. De repente, tal era o meu foco na gravidez, que parecia que só via grávidas e bebés em todo o lado.

Outro exemplo comum é quando se quer comprar um carro do modelo XPTO e, de repente, parece que nos cruzamos com esse modelo em todo o lado. Afinal, não é coincidência, apenas estamos, por assim dizer, ‘mais despertos’.

A cada momento temos o poder de decidir para onde apontar o foco e assim atingirmos os nossos objetivos, sejam eles quais forem, sem nos perdermos ou distrairmos.

No entanto, isso implica sair do piloto automático em que insistentemente vivemos e trazer às nossas vidas uma mudança de atitudes enraizadas, bem como um treino consciente e consistente para desenvolvermos novas competências e hábitos.

O início de um novo ano parece-nos um bom momento para este desafio de foco e mudança. 😉

O poder de educar para a autoconsciência

 

Um monge vivia num mosteiro em ruínas, na companhia de um grupo de discípulos. Um dia, disse-lhes:

Como sabem precisamos de dinheiro para recuperar o mosteiro e para nosso sustento. Eu estive a pensar numa solução simples.

E qual é essa solução?

Vão à cidade mais próxima e roubem os bens que podem ser vendidos. Assim arranjaremos dinheiro para todas a nossas necessidades.

Todos ficaram espantados com esta sugestão do monge, que era considerado um homem sábio e justo. Ele continuou:

Eu sei que os roubos podem manchar a nossa excelente reputação e trazer-nos a desgraça. Por isso, ninguém pode ver-vos a roubar. Não se deixem apanhar em flagrante!

Os discípulos discutiram o plano. Reconstruir o mosteiro seria uma boa causa? Roubar para comer seria legítimo? E se fossem apanhados a roubar, que aconteceria? As opiniões dividiram-se.

Quando a maioria já tinha concordado em partir para a cidade, o discípulo mais novo levantou a voz:

Eu não vou!

Porque não queres ir com os teus companheiros? – perguntou-lhe o monge, surpreendido.

O seu plano é impossível de realizar. Eu não posso roubar sem ser visto. Não importa aonde vou ou o que faço. Em qualquer lugar, mesmo que ninguém me observe, a minha consciência vê sempre tudo o que eu estou a fazer.

Ao escutar esta explicação, o rosto do monge iluminou-se de alegria. Abraçou o discípulo e declarou:

Estou muito satisfeito contigo, porque compreendeste as minhas palavras e foste capaz de manter a tua integridade.

 

Sei que não estarei sempre por perto para controlar o comportamento das minhas filhas. E, como diriam os meus pais (e bem), “a cama que fizeres é aquela em que te deitas”. Então, cabe a cada um e mais ninguém a responsabilidade de fazer e lidar com as suas escolhas, boas ou más.

Confesso que nem sempre esta consciência me afectou assim tanto. Lembro-me de uma ocasião em que a B era bem pequena e num hipermercado pegou num peluche. Na correria para fazer compras, pagar e ir para casa já só reparámos no bendito boneco que ela trazia nos braços a caminho de casa.

Na ocasião pensei: “Olha, que se lixe. Veio, veio“.

Recentemente estávamos a sair de uma loja de desporto. Entrámos para o carro e reparei que a L trazia uma bola de ténis de mesa da mão.

Ainda pensei: “Isto também não vale nada“, mas logo a minha consciência me recordou:

Que exemplo estás a dar? Ninguém reparou, mas tu sabes que não é teu. Não é da tua filha.

Então olhei para ela e disse:

– Dás a bola à mamã? Sabes, ela não é nossa. Não a pagámos. Temos de a ir devolver.

Ela deu-me a bolinha e eu regressei à loja e entreguei a um funcionário explicando que a minha filha a tinha levado sem pagar e pedi desculpas pelo incómodo.

De volta ao carro, olhando para o Nuno, percebi que ambos estávamos certos do exemplo que queremos ser para elas e dos valores que nos norteiam como família. Nem todos os dias foram assim. Mas hoje são-o cada vez mais e sou grata por isso e por todo o esforço que fazemos para termos cada vez mais presente e consciente a nossa intenção enquanto pais, a porta que escolhemos.

Esta história do monge, retirada do livro ’99 Histórias de Sabedoria’, de António Estanqueiro (Editorial Presença), leio-a com recorrência à B. Refiro-me às vezes a este conto em situações em que ela por algum motivo tenta dissimular, mentir, levar vantagem. Pergunto-lhe:

– Lembras-te do monge que mandou os alunos irem roubar? O que disse o mais novo? Lembra-te que até me podes enganar mas convives bem com isso? Achas mesmo que é a mim que me prejudicas?

Por norma acabamos a falar do que a faz ter a atitude inadequada e tentar encontrar melhores soluções para resolver o seu problema sem ter de mentir, enganar, dissimular,…

É no exemplo que a educação se materializa e o amor se fortalece

Exemplo

Tive reunião na escolinha da B esta semana. Entre mil e um temas de agenda e relatos sobre os desenvolvimentos dos meninos em ambiente escolar, a educadora abordou também os momentos em que ficavam mais agitados e, num aparte, deu conta que numa dessas alturas a B (5 anos) lhe terá dito:
– Precisam de meditar para acalmar.
A sugestão terá sido bem acolhida e ao que parece, de quando em vez, agora lá se sentam todos em meditação conforme sugerido pela coleguinha.

Saber desta história alegrou-me e surpreendeu-me. É que em casa, quando medito junto dela, normalmente a B não demonstra grande interesse pela prática. Já lhe expliquei o que faço quando me sento naquela posição e fecho os olhos, e os benefícios e porque também seria bom ela fazer, mas nunca foi o suficiente para verdadeiramente a motivar. Até costumo perguntar-lhe se se quer juntar a mim, mas na generalidade das vezes diz que não, que prefere ficar só a ver.
Face ao que me parecia ser uma atitude de um certo descaso em relação à meditação, não esperava que ela tivesse a reacção que a educadora relatou e que, de certa forma, impulsionasse para que a prática se tornasse frequente na sala de aula.

O mais inspirador para mim deste episódio é aperceber-me de como o exemplo que passamos aos nossos filhos é na prática apreendido e reproduzido por eles, sem que muitas vezes o manifestem ou nos dêem a entender. O facto é que curiosamente ela nunca abordou em casa esta situação da meditação em sala de aula, e no entanto soube autonomamente fazer uso do exemplo que lhe dei.

A parentalidade é um dos temas quentes nos dias de hoje. Há muitas correntes que se defendem ou renegam, das quais nos aproximamos ou afastamos. Há também muitos pais que hoje se sentem ‘sem rei nem roque’ na tarefa de educar as suas crianças. Hoje, muitos de nós, não temos as redes de apoio de antigamente, nomeadamente nas grandes cidades. A família está longe e com os vizinhos quase não se convive, só se trocam breves palavras de circunstância. As pressões sociais e económicas são muitas e o tempo escasso para responder a tantas solicitações. Asfixiamos lentamente em exigências, cobranças, contas, deveres, compromissos inadiáveis…

Passamos horas sem fim fora de casa, longe dos nossos e nem as tecnologias nos valem para realmente nos aproximarmos. Temos sorte quando há a possibilidade de tomar o pequeno-almoço em família e à noite estarmos todos juntos para jantar à mesma mesa. Pais há que durante a semana só veem os filhos de fugida ou de soslaio quando já dormem. É muitas vezes o alto preço a pagar para sustentar a família.

Mas o tempo urge e eles crescem e nesse crescimento desenraizam-se de nós e dos sonhos que tinhamos para eles. E os pais assistem, quando não estão intensamente alienados ou distraídos, impotentes e incrédulos a esta cruel emancipação prematura, que nos rouba a oportunidade de lhes passar o melhor de nós – os pilares para uma vida presente, saudável, plena e feliz.

Se quisesse tapar o sol com a peneira e apenas lamentar a má sorte de sermos pais nestes tempos modernos, diria que a culpa é desta sociedade, dos governos e desgovernos sem políticas pro-natalidade e pró-família, dos empregadores apenas atentos ao lucro das suas empresas e acionistas, da falta de condições, do êxodo, do diabo a quatro… Mas temos de ser claros. A culpa é nossa, pais, que desnorteados, tocados a vara qual gado, não nos damos tempo para concretizar o que fazemos das nossas vidas e, consequentemente, da vida daqueles a quem mais queremos bem. Enfiamos a cabeça na areia e dizemos que amanhã será o dia, o nosso tempo virá e o deles também. Levamos os dias a correr e a correr com eles (literal e figurativamente falando). Eles fazem birras e nós sobrepomos as nossas. Eles gritam e nós gritamos mais altos pelo bem da nossa autoridade. Eles amuam e nós reviramos os olhos, incapazes de penetrar nos seus corações. Eles esperneiam e agarram-nos as pernas e nós maldizemos a vida e amarguramos os seus olhares pesarosos, angustiados por um abraço demorado para o qual nunca parecemos ter disponibilidade.

As responsabilidades não se varrem para debaixo do tapete e a educação dos nossos filhos e o amor que lhes devemos – não em palavras mas em actos – não pode ser empurrada para as calendas de um tempo indefinido na vã esperança de ainda lá chegarmos a tempo de lhes dar aquilo a que não nos prestámos enquanto era possível. Todos sabemos que o amanhã nunca chega mas é para lá que empurramos os nossos sonhos sem ousarmos começar hoje a construir o futuro que desejamos.

E os nossos filhos, ficam sem raízes, e aí percebemos que na verdade as raízes que lhes demos eram tão frágeis e doentes, porque, a bem dizer, até as nossas deixámos apodrecer num recanto qualquer do tempo do qual já nem sequer nos lembramos, ou procuramos esquecer para que não nos magoe a lembrança.

E no meio desta fragmentação de pais e indivíduos, não conseguimos ser amor por inteiro e dar esse amor incondicionalmente aos nossos espelhado naquilo que somos e fazemos. Somos uma réplica daquilo que desprezamos na sociedade e as nossas crianças são orfãs de pais vivos mas que todas as noites lhes dão um beijinho na ingénua esperança que venham a ser felizes, guiados por aquela mesma felicidade que nos escorre por entre os dedos todos os dias.

E é neste exemplo do que tristemente transmitimos que eles se perdem e procuram por si só as referências que lhes faltam. Quando são pequenos ainda esperneiam, fazem birras e confrontam-nos, procurando despertar-nos para as suas necessidades, para o exemplo que devemos ser.

Mas mais tarde, quando entram na adolescência ficam mudos e perdem qualquer conexão. Procuramo-los mas nos seus olhares encontramos vultos que não conhecemos, pois mal os vimos crescer e na nossa falta assumiram outras referências para a vida. Desesperamos porque se diluem em ações impensadas e incongruentes. Mas onde esteve a nossa consciência, a nossa congruência enquanto cresciam? Acusamo-los de não fazerem uso dos valores que lhes passámos. Mas em que momento lhes exemplificámos os homens e mulheres que vislumbrámos que fossem.

É no exemplo – sempre no exemplo – que a educação se materializa e o amor se fortalece. É no que efectivamente vivemos e somos que as nossas crianças vão beber os valores, comportamentos e orientações.
É nas intenções que definimos para nós enquanto pais e pelas quais solene e genuinamente nos responsabilizamos que se reflectem os filhos que idealizamos ter, não sempre, mas quando menos esperamos.