“PÁRA!!!” Quando parece que é contigo, mas é comigo que grito

maosdadas

Apesar de presente o desafio de não aceitar presentes tóxicos, ironicamente, a semana que passou mostrou-se particularmente difícil para cultivar uma atitude serena e compassiva para comigo e para com os outros.

Desculpas à parte, poderia dizer que as exigências dentro e fora de casa avolumaram-se. Mas a verdade é que o cansaço, o stress e as ‘pre-ocupações’ que não consegui internamente gerir agigantaram-se e criou-se o monstro.

Num fim de dia destes, entre birras da TV que ainda não se quer desligar e de onde não se tira o sentido (nem para responder quando a chamam pela milésima vez), o braço-de-ferro do jantar de que não se quer ouvir falar quanto mais comer, aliadas a outras contrariedades que amiúde foram surgindo vindas de vários sentidos (mas sobretudo de mim mesma), fizeram com que sentisse crescer em mim o lobo que não queria alimentar.

O desafio revelou-se enorme. Não queria de todo perder as estribeiras, mas não consegui. Ela chorava e gritava, e dei por mim a segurá-la e gritar-lhe para parar.

Ela assustou-se. Chorou mais ainda.
A mais pequena começou também a chorar, sem perceber de onde veio aquele reboliço e mau ambiente.
E eu assustei-me comigo, porque no fundo, sabia que aquele ‘PÁRA!!!’ não foi para ela ou sequer para o que estava a acontecer exteriormente, mas para mim e para o turbilhão de emoções que se descontrolavam aqui dentro.

Pedi-lhes um minuto. Uma pausa para mim, para me recompor. Saí de cena e fui para o quarto.
Sentada na cama, com as mãos a apoiar a cabeça, pensei:

“Está tudo bem. Acalma-te… Não te sintas mal. Importante é a diferença que podes fazer agora, no momento que se segue. O que vais fazer?”

Entretanto ouvi-a dizer ao pai:

“Quando a mãe falou assim comigo eu pensei que ela não gostava de mim”.

Arrepiei-me.
Dei-me mais alguns minutos para serenar. Aproveitei para ir deitar o lixo fora e respirar o ar fresco da noite.
Regressei a casa e com ela já deitada sentei-me ao lado dela. Com a voz agora mais calma e falando baixo, pedi-lhe desculpa pela birra que eu fiz. Sim, porque se ela fez uma grande birra, a minha birra não foi menor. Às vezes, acontece-nos, a todos, pequenos e graúdos. Mas eu sei, e devo procurar ter sempre a consciência de que ela é pequenina. Está a aprender a gerir as emoções dentro dela e a expressar-se, e nem sempre tem os recursos disponíveis para o fazer da melhor maneira possível. Por isso conta comigo como orientadora nesta missão. Nesta noite senti que não estive à altura, apesar do muito que queria e de todo o esforço interior que tentava fazer.

Mais apaziguadas, expliquei-lhe que às vezes sentimos coisas que se tornam maiores que nós, explosivas, quase incontroláveis. Mas temos de fazer a nossa parte para parar esse carro desgovernado que somos naquele momento para não ferirmos ninguém. Por isso tive de sair um pouco para me reorganizar e reencontrar. Precisava de deixar de alimentar o lobo faminto que se empanturrava da raiva, da adrenalina e da confusão mental que me controlava.

Expliquei-lhe que se lhe falei naquele tom não foi por não gostar dela. Isso jamais aconteceria! Aconteça o que acontecer, mesmo quando faço cara de má ou digo que estou triste, eu sei – e preciso que ela saiba também – que irei amá-la sempre. O que me entriste ou faz zangar não é a pessoa que ela é, mas sim os comportamentos que ela por vezes tem, e é sobre eles que tento agir, sem colocar em causa o quanto ela é merecedora de todo o meu respeito.

Se me exaltei não foi culpa dela, mas minha, que me senti perdida nesta guerra interna entre me tentar acalmar e responder adequadamente à tensão crescente que se instalara. Se me chateei não foi com ela, mas comigo, que me senti incapaz de me controlar e gerir pacificamente a situação.

Tudo isto lhe expliquei, para que entenda que, por vezes, a gerir as emoções estou tão impreparada quanto ela. Apesar de adulta também estou a aprender. Neste caminho aprendemos as duas.

Fiquei ali sentada de mão dada com ela, e com a mais pequena que entretanto se instalara no meu colo. Ainda que pouco pareça entender destas ‘guerras’ eu sei que também já as sente.

O ambiente ficou então tranquilo. Tornou-se de novo mais leve e acolhedor. As duas rapidamente adormeceram, uma ao colo, serena e reconfortada, a outra com as pequenas e inquietas mãozinhas confiadas às minhas.