Quando deixamos a dislexia apagar o brilho das nossas estrelas

Dislexia

 

Como Estrelas na Terra (Taare Zameen Par). Fixem. Qualquer pai, educador ou pessoa que lide com crianças precisa mesmo de ver este filme. Especialmente se lidarem com crianças com perturbações cognitivas ou emocionais. Neste caso específico, falamos de dislexia.

Estava já há bastante tempo para o ver mas era muito longo e deixei para logo que houvesse oportunidade. Esta semana deu-se essa oportunidade e vimos em família.

A história

O filme retrata a vida de um menino de 8 anos com dificuldades de aprendizagem e incompreendido pelos pais, professores e colegas de escola. Porque é preferível dizer que não quer aprender em vez de assumir que não consegue, esconde a dificuldade que sente faltando às aulas, sendo agressivo, desobediente… Este ciclo faz com que os pais se sintam frustrados nas suas expectativas e procurem uma alternativa que ajude a disciplinar aquela criança. Durante algum tempo, separado dos seus e num novo ambiente, o pequeno Inu sente-se perdido, triste e abandonado. As dificuldades acentuam-se e ele cada vez mais deprimido.

É então que surge um professor substituto de Artes que se identifica com aquela criança e tudo aquilo por a que está a passar e se propõe a ajudá-lo, empreendendo alternativas para contornar as suas dificuldades enquanto resgata a sua autoestima, confiança, motivação, aceitação, alegria de viver e identidade singular. Basicamente, este professor resgata a infância de Inu.

Dislexia na vida real

Há pouco tempo descobri que a minha irmã viveu esta realidade, embora não tenha contado com a sorte de ter neste caminho quem a resgatasse. Há 25 anos atrás não se falava de dislexia ou de outras perturbações como hoje, o que provavelmente limitou em muito a intervenção que poderia ser feita no caso dela.

Recordo-me de em criança e na adolescência (altura em que fui para a universidade) ela ter grandes dificuldades na escola. Até ir para a escola era uma criança vivaça, curiosa, reguila. Mas depois de entrar para a escola, pouco a pouco, a sua vivacidade foi-se perdendo, e fechava-se cada vez mais. Para ela a escola era uma tortura.

Só há poucos meses tive noção dos pormenores, contornos e impacto do que viveu durante o percurso escolar ao rever a sua história de vida que escreveu para, agora com os seus 30 anos, completar o 12º ano. Creio que só ela sabe o quanto lhe custou, emocionalmente sobretudo, regressar a este ambiente escolar que lhe foi tão adverso. Felizmente, desta vez, com muito empenho, sacrifício e apoio psicológico, atingiu os objectivos a que se propôs.

Foi um murro no estômago e um aperto de alma conhecer os pormenores do que viveu. Senti-me culpada por não ter percebido exatamente o que se passava e não a ter conseguido ajudar ou defender mais, embora tal como ela, eu também não passasse de uma criança na altura.

Este filme ajuda-nos a compreender a importância que faz na vida de uma criança com dislexia ou qualquer outra perturbação cognitiva ou emocional contar com alguém que se importe, que consiga ver as causas para lá do comportamento, que acredite no seu potencial humano e a encoraje a descobrir-se para lá das suas limitações.

Causas e sintomas

Para quem possa não saber o que caracteriza a dislexia, os seus sintomas ou causas, talvez ajude saber que:

A dislexia pode ser hereditária ou resultar de alterações genéticas e neurológicas. Quem tem dislexia manifesta sempre dificuldades com a linguagem, com a escrita e a ortografia, bem como, dificuldade e lentidão na leitura, com uma intensidade maior do que é comum.

Uma criança com dislexia pode ainda apresentar:

  • disgrafia (letra de difícil percepção)
  • discalculia (dificuldade com o calculo matemático, nomeadamente símbolos e tabuada)
  • dificuldades com memória de curto prazo e organização;
  • dificuldades em seguir indicações de caminhos e executar tarefas complexas
  • dificuldades de interpretação de textos
  • dificuldades em aprender uma segunda língua
  • dificuldades com a percepção espacial
  • confusão entre direita e esquerda.

Os pais e professores que estas crianças necessitam

Enquanto pais, educadores e professores, a forma como nos relacionamos com uma criança com dislexia e as suas dificuldades condiciona de forma determinante o êxito no seu progresso, não só académico como na superação das suas limitações, na motivação para descobrir os seus talentos e na resiliência para construir uma identidade estruturada e uma auto-imagem positiva e confiante.

Ser otimista e persistente, mantendo a calma e confiança e manifestando apoio incondicional perante as adversidades com que a criança lida, permitirá que os pais construam relações fortes e saudáveis com a criança. Ajudará também não se auto-culpabilizar pela condição que o filho vive, assim como, procurar estratégias criativas para auxiliar a criança a ultrapassar as suas dificuldades.

Já os professores devem privilegiar o encorajamento através da:

  • Preferência pela correção dos conhecimentos e não da ortografia;
  • Destacar os acertos em detrimento dos erros;
  • Privilegiar a avaliação oral;
  • Individualizar o ensino;
  • Dividir a matéria em partes e confirmar a sua compreensão
  • Repetir a informação as vezes necessárias
  • Ensinar a criança a relacionar as aprendizagens com as suas experiências de vida
  • Dar tempo para que a criança organize os pensamentos e execute as tarefas
  • Passar trabalhos motivantes e não muito extensos
  • Respeitar e avaliar o aluno segundo o seu ritmo, dando ênfase à proatividade e aos progressos em vez do resultado final.

Amar e aceitar a criança tal como é

Nenhuma criança merece ficar à margem da sua existência, dos seus sonhos e das suas potencialidades, por expectativas que se criam social e culturalmente e que apenas parecem cumprir padrões standard de competição e sucesso superficial.

Em cada criança emana uma fonte de vida única, especial, que deve ser honrada e preservada em qualquer circunstância. Encorajar a criança a cumprir o propósito único e insondável da sua existência, amando-a e aceitando-a tal como é, criando o ambiente e as condições propícias ao seu pleno desenvolvimento, respeitando o seu ritmo próprio e potenciando a descoberta dos seus talentos individuais, é um desafio que merece todo o nosso empenho e toda a nossa capacidade de confiarmos na missão singular que nos é entregue, sob pena de, ao não fazê-lo, vermos as nossas estrelas extinguirem o seu brilho. E o que é das estrelas sem o seu brilho?

Nuno Rosa

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