O conto da águia que viveu a acreditar ser uma galinha.

crenças limitantes

 

Um agricultor encontrou nas montanhas um ovo de águia. Levou-o para casa e colocou-o junto de outros ovos que estavam a ser chocados pro uma galinha.

Logo que a águia e os pintainhos nasceram, o agricultor começou a tratar das aves sem qualquer distinção. Sempre que a pequena águia tentava levantar voo, era reprimida pelo agricultor. Chegou a ser amarrada para não voar.

Enquanto crescia a águia aprendeu a pensar e a comporta-se como uma galinha. Esgravatava a terra para procurar comida. Cacarejava. Sacudia as asas e voava apenas alguns metros.

Passou o tempo. A águia cresceu e habituou-se à águia limitada das galinhas no quintal do agricultor. Aceitou como natural a sua incapacidade de voar.

Um dia, olhou para o céu e teve uma visão magnífica. Viu um pássaro majestoso a voar livremente, num estilo de voo muito elegante, como se não precisasse de fazer esforço. Então perguntou à galinha mais velha:

– Que pássaro é aquele?

– É uma águia, a rainha das aves.

– Podemos voar como essa águia?

– Nem penses nisso. Tu e eu somos diferentes da águia. Somos galinhas. Ela pertence aos céus, nós pertencemos à terra.

Ao lado das galinhas a águia olhava para o céu com inveja. Nunca acreditou que podia voar em liberdade como as outras águias. Domesticada viveu e morreu a pensar que era uma galinha.

As crenças limitantes

Este é um conto que muito me diz porque me faz lembrar das crenças limitantes que interiorizamos desde crianças. Desde a infância, se as mensagens que escutarmos forem no sentido de menorizar as nossas capacidades e competências, podemos efetivamente acreditar que não somos capazes, que determinadas façanhas são apenas para os outros, que falta-nos isto ou aquilo. Não voamos porque tudo e todos nos fizeram acreditar que não podíamos voar, que estava para lá das nossas capacidades, quando afinal, temos tudo em nós, bastaria desfazer as crenças limitantes que interiorizámos. Desenganem-se no entanto com a simplicidade deste ‘bastaria’ porque a determinada altura, nós sentimos que ‘somos’ as nossas crenças (e ai de quem nos diga o contrário) e para as descolarmos de nós, há que desapegar de todo o conforto que, por mais limitantes que sejam, elas nos trazem.

É preciso então coragem para questionar, desapegar e ressurgir num voo que traz à tona a nossa essência mais profunda e nos oferece a liberdade que só quem se confronta com a incerteza é capaz de alcançar.

O encorajamento no processo de descoberta

Esta reflexão leva-me também a pensar na sorte que há quando neste processo alguém nos ajuda a ver para lá dos nossos véus de limitações e nos ajuda a desconstruí-los para construir uma identidade mais consentânea com o nosso real valor.

E se neste conto uma das galinhas tivesse olhado para a águia e lhe tivesse dito que ela tinha características diferentes, especiais, que podia tentar, logo que tivesse mais espaço para o fazer?…

E se o agricultor tivesse cuidado em proteger o ovo mas logo que a ave deu mostras de querer voar, tivesse encorajado o voo?…

No nosso desenvolvimento, na educação e na sociedade, creio que vivemos mais com domesticadores do que com encorajadores e isso entristece-me. O cárcere a que tantos de nós nos sujeitamos e estamos, por inconsciência, a sujeitar as nossas crianças, dá-nos a ilusória segurança de saber com o que contar, mas diminui a nossa visão e entorpece as nossas asas. Quão alto voaríamos se acreditássemos?

A propósito de aves e coragem, terminamos com esta citação:

 

Um passarinho quando aprende a voar sabe mais de coragem que de voo.

                                                                                                                                      – Lucão

 

Que tenhamos a coragem de rever as nossas crenças e construir uma nova  e libertadora história.

Que tenhamos a coragem de ajudar os nossos ‘passarinhos’ a descobrir os seus talentos e valores, a persistirem, para alcançarem grandes voos.

 

O conto hoje partilhado pode ser encontrado no livro 99 Histórias de Sabedoria, de António Estanqueiro, da Editorial Presença.

Liliana Ferreira

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