O caso (im)possível da divisão dos 17 camelos

Camelos

 

Um homem deixou aos seus 3 filhos uma herança de 17 camelos. Deu instruções para que os 17 camelos fossem divididos pelos 3 da seguinte forma:

– o primeiro filho ficava com metade dos camelos,

– o segundo com um terço,

– e o terceiro com um nono dos camelos.

Os filhos procuraram negociar a divisão dos camelos, mas rapidamente perceberam que não era possível dividir 17 por 2, tal como não era dividir por 3 e nem sequer por 9. Desesperados por não conseguirem desfazer aquela confusão, resolveram pedir ajuda a uma sábia idosa da comunidade onde viviam.

Depois de apresentado o problema a senhora pensou um pouco e acabou por lhes indicar que os poderia ajudar.

– Ofereço-vos o meu camelo. Assim, já ficam com 18, que dá para fazer a divisão que o vosso pai desejava.

E assim foi. Ao dividirem os 18 camelos, o primeiro filho ficou com 9 camelos, o segundo com 6 e, por fim, o terceiro com 2 camelos.

Feitas todas as divisões, ficou a sobrar um camelo. Pela generosa ajuda que a velha sábia lhes havia dado para resolverem o problema, os três irmãos decidiram oferecer o camelo de volta à idosa.

 

Muitas vezes andamos às voltas com problemas de “17 camelos”, sem encontrar solução, embrenhados em conflitos que não conseguimos deslindar. Mas quando nos afastamos do problema, damo-nos a possibilidade de encontrar um novo olhar para o desafio e encontrar novas possibilidades para resolver algo que à partida nos parecia irresolúvel.

Não raras vezes, sozinhos temos dificuldade em sair do epicentro do problema ou conflito e focarmo-nos na solução. É nessa medida que contar com alguém, talvez um familiar, um amigo, um facilitador ou um mediador, que nos apoie neste processo pode ser uma preciosa ajuda para encontrarmos os 18º camelo que falta na equação.

 

Uma mente que transborda de certezas não tem espaço para aprender

Chá

 

Certo dia, um homem arrogante procurou um grande mestre com o objetivo de lhe fazer algumas perguntas sobre diversas questões da vida humana.

Logo no início da conversa o homem mostrou-se incapaz de escutar e muito pouco motivado a aprender. Interrompia constantemente o mestre para exibir as suas opiniões sobre todos os assuntos. Tinhas mais certezas do que dúvidas.

De repente o mestre perguntou-lhe:

– Aceita chá?

– Sim, obrigado!

O mestre foi preparar o chá e deixou o homem à espera.

Regressado, serviu o chá, enchendo a chávena até transbordar, como se estivesse distraído. O chá transbordou para o pires, depois para a mesa e, por fim, para o chão.

Surpreendido, o homem olhou para o chá e para a expressão sorridente do mestre. Nem sabia o que dizer. Mas, a determinado momento sentiu-se forçado a falar:

– Não vê que a chávena está cheia?! Não pode levar mais chá!

Então, num tom de voz sereno, o mestre disse:

– É assim que a sua mente se encontra. Está cheia de conhecimentos inúteis, opiniões e preconceitos, sem qualquer espaço para receber novas ideias.

O homem ficou irritado com estas palavras. Mas o mestre acrescentou:

Se quiser saber mais precisa de esvaziar a mente das ideias que impedem a sua aprendizagem. De outro modo, nada posso ensinar-lhe. Só os humildes conseguem escutar e aprender.

 O conto da ‘Chávena de Chá’ desafia-nos a confrontarmo-nos com as nossas certezas, opiniões e preconceitos que tendemos a acumular ao longo da vida e que em certa medida bloqueiam o acesso a novos caminhos de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal.

Tal como acontece com a chávena que uma vez cheia não permite levar mais chá, também com o passar dos anos a nossa mente fica repleta de crenças e informações que, naturalmente, se podem tornar equivocadas, desatualizadas ou desajustadas face às mudanças e novos contextos que a vida sempre nos traz.

Rever os conteúdos, questionar as certezas e fazer a devida triagem do que nos serve a cada momento e nos permite evoluir e adaptarmo-nos de forma eficaz e harmoniosa aos desafios com que lidamos, é essencial para abrirmos espaço para novos conteúdos de conhecimento e novas possibilidades de ser.

Por toda a vida será bom lembrarmo-nos que…

Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.    

– Paulo Freire