Encorajar – A arte de ser consciente para treinar a coragem

Coragem

 

São negras e densas as nuvens que carregam o céu de um semblante triste e opressivo. Em todo o horizonte sente-se a tensão da tempestade que ameaça a todo o instante com temíveis trovões e uma chuva sem fim.

Mas eis que surge, irrompendo por entre as nuvens ameaçadoras, um pequeno raio de sol. Timidamente começa a ocupar os espaços por entre as nuvens, recordando-nos que para lá delas há todo um céu azul que nos convida a acreditar, a sonhar e a ousar.

Quando no início de um fim-de-semana de imersão, nos convidou a desenhar como víamos a nossa Coragem, foi este cenário, de temíveis nuvens e um raio de sol que instintivamente retratei.

Por muito escuro e sombrio que se afigure o futuro em determinados momentos, é este raio de sol que procuro. É ele que me dá esperança, me consola e conforta, me aquece a alma e me dá energia para olhar para lá das nuvens, circunscrevendo-as ao que são para atingir a luz que quero trazer para mim e para os que me cercam.

A vulnerabilidade e a coragem caminham de mãos dadas na nossa vida. A coragem não teria espaço para emergir se a vulnerabilidade não se fizesse sentir. Qual flor de lótus que só nasce em lagos pantanosos, também a coragem só aflora no campo da vulnerabilidade. Exatamente onde nos sentimos mais indefesos e frágeis é onde reside a nossa maior força.

Durante dois dias acolhi a vulnerabilidade, que tantas vezes procuro ocultar, e decidi-me ir à procura de um processo de encorajamento. Que estranho isto, não? Talvez a maioria de nós pense que a coragem surge pura e simplesmente quando é preciso. Mas quantas pessoas conhecemos (eventualmente até nós mesmos) que em tantas situações, sentimos que nos falta a coragem para fazer as mudanças que queremos trazer para as nossas vidas? A esperança reside aqui, neste processo de encorajamento, que se pode e se deve aplicar conscientemente e consistentemente. Aqui está um pouco sobre o que aprendi sobre ele durante esse fim-de-semana.

A AUTOCONSCIÊNCIA é o primeiro passo deste processo que nos permite descobrir forças e fraquezas e descobrir através de que lentes vemos a vida.

Quando compreendemos como nos vemos (autoimagem/autoconceito), que mensagens sobre nós, sobre os outros e sobre o mundo interiorizámos no nosso percurso, e que crenças nos limitam e como nos têm impactado, podemos então questionar o que serve os nossos objectivos e o que não serve. A partir daqui reunimos então condições de explorar o que necessita ser transformado e que experiências subjectivas poderão ser resignificadas, para definirmos um novo acolhimento das nossas experiências passadas.

Esse acolhimento leva-nos ao segundo passo do processo, a ACEITAÇÃO.

A nossa infância, as pessoas que interagem connosco, as decisões que tomámos, o rumo que seguimos, o que nos aconteceu, a nossa história, as circunstâncias, o ambiente,… Tudo isto, foi o que foi e é o que é. A única coisa que podemos mudar é o que sentimos e pensamos no presente para empreendermos no futuro respostas diferentes das que tivemos até hoje.

Contudo, se não aceitamos o que foi e o que é, negando a sua realidade e resistindo-lhe, porque a determinada altura consideramos que o que é deveria ser diferente, facilmente entramos num campo de stress permanente. É como se nos encontrássemos numa zona tomada por areias movediças que nos envolve pouco a pouco, mais e mais, na co-criação da realidade de resistência, queixume, crítica, autocomiseração e negação. Este é um lugar onde nunca somos suficientes e temos sempre algo a provar. Quão exaustivo não é lutar contra toda esta areia movediça? É que se ao menos fosse eficaz…

Por outro lado, ao aceitarmos que a realidade é o que é, sem julgamentos, e que nós somos como somos, sem ‘ses’ nem ‘mas’, libertamo-nos desse espaço de resistência para, aliados à autoconsciência, conseguirmos regressar ao lugar onde somos plenamente suficientes tal como somos, à nossa essência.

Agora que já estamos conscientes do nosso percurso, das nossas crenças e identidade que assumimos, e que aceitamos que as coisas são o que são, podemos avançar para o terceiro passo do processo, a AÇÃO.

Este é o passo em que , depois da desconstrução de uma identidade que formámos de forma inconsciente, estabelecemos os nossos objectivos e traçamos um caminho para lá chegar. Pequenas mudanças, alterações de mini-hábitos e escolhas conscientes permitem-nos construir um novo discurso interno, uma identidade autêntica alinhada com as nossas mais profundas intenções e um presente e futuro que nos faz sentido viver.

O processo de encorajamento em si parece simples, mas de tão profundo que é, requer uma prática constante, questionamento regular, criatividade e abertura para explorar novas possibilidades de sentir, pensar e agir, rompendo antigos padrões que nos aprisionam e construindo novos ciclos para Ser. Acima de tudo, requer que confiemos no processo, porque não é linear nem instantâneo e, por isso, se torna tão desafiador e, simultaneamente, tão mágico.

Passou agora um mês desde que me aventurei neste processo conduzido pela Danielle Capella, a primeira e atualmente única Master Trainer em língua portuguesa do programa Lynn Lott Encouragement Consultant Training. Ainda há muito que estou a digerir e a tentar, passo a passo, aplicar na minha vida. Todo este conhecimento e práticas são muito intensas, e exigem muita resiliência para com o processo e compaixão para connosco. Contudo, constato o quão gratificante e libertador é desbravar este caminho.

Se vos faz sentido também aventurarem-se neste caminho, fiquem atentos à página da Danielle para saberem mais sobres as próximas Certificações Internacionais em Consultor/a de Encorajamento. Vale bem a pena, não só toda a partilha e vivências que se proporciona, como por todos os recursos que trazemos para aplicar connosco e com os que nos rodeiam.

 

A Coragem de Ser Imperfeito

De fio a pavio este livro de Brené Brown foi uma autêntica revelação. A Coragem de Ser Imperfeito (Editora Nascente) trouxe-me consciência do quão transversal e enraizada está a vergonha na nossa vida, não só a nível individual mas enquanto cultura social.

Absorvi cada ensinamento. Cada tópico levantado pela autora colocava o dedo na ferida e fez-me perceber o quão impreparados estamos para aceitar e conviver com as nossas vulnerabilidades e o quanto isso nos afasta da nossa essência e das nossas relações. E tudo começa na educação, propagando-se pelas restantes esferas da nossa vida. A grande maioria de nós lança-se à vida com armaduras e escudos, procurando-nos proteger, mas o que tantas vezes conseguimos é simplesmente entorpecer os movimentos e os sentimentos que nos podem levar a uma vida mais plena.

A Coragem de Ser Imperfeito é um livro que nos convida à autoconsciência, à reflexão, ao questionamento, à revisão de crenças, à aceitação, à mudança e à transformação.

Se ainda não estiverem motivados para ler o livro assistam à TED que projectou mundialmente Brené Brown.

 

Entretanto, para aguçar a curiosidade, partilho o Manifesto de Plenitude para Criar Filhos que a autora inclui neste livro e que espelha tudo o que espero conseguir trazer para a minha família.

 

Antes de mais, quero que saibas que é amado e que tens capacidade de amar.

Aprenderás isso através das minhas palavras e acções – as lições sobre o amor têm que ver com a forma como eu te trato e como eu me trato a mim mesma.

Quero que abordes o mundo sob a perspectiva do merecimento.

Aprenderás que és digno de amor, pertença e alegria sempre que me vires a praticar o auto-compaixão e a aceitar as minhas próprias imperfeições.

Praticaremos a coragem na nossa família ao aparecermos, ao deixarmos que nos vejam e honrando a vulnerabilidade. Partilharemos as nossas histórias de dificuldades e força. Em nossa casa haverá sempre espaço para ambas.

Vamos ensinar-te a compaixão ao praticarmos compaixão primeiro connosco e depois uns com os outros. Vamos estabelecer e respeitar os limites; vamos honrar o trabalho árduo, a esperança e a perseverança. O descanso e a diversão serão valores familiares, bem como práticas familiares.

Vais aprender sobre responsabilidade e respeito ao me veres-me cometer erros e corrigi-los, e ao vendo como peço aquilo de que preciso e falo sobre como me sinto.

Quero que conheças a alegria, para que juntos pratiquemos a gratidão.

Quero que sintas alegria, para juntos aprendermos a ser vulneráveis.

Quando a incerteza e a escassez surgirem, vais ser capaz de ir buscar forças ao espírito que é uma parte da tua vida diária.

Juntos, vamos chorar e enfrentar o medo e o sofrimento. Vou Vou querer fazer desaparecer a tua dor, mas em vez disso vou sentar-me contigo e ensinar-te a senti-la.

Vamos rir e cantar, dançar e criar. Teremos sempre permissão para sermos nós próprios um com o outro. Aconteça o que acontecer, vais sempre pertencer aqui.

Ao começares a tua jornada de plenitude, a maior dádiva que te posso dar é viver e amar de todo o coração e ousar ser grande.

Não vou ensinar ou amar ou mostrar nada na perfeição, mas vou deixar que me vejas e vou sempre considerar sagrada a dádiva de te ver a ti. Ver-te verdadeira e profundamente.

       Este manifesto está disponível na versão original em www.brenebrown.com.

 

Sinopse

Ter a coragem de ser imperfeito é querer mudar a manei

ra como conduz a sua vida, o amor, o trabalho e a família.

Você vive evitando emoções como o medo, a mágoa ou a desilusão.

Fechando as portas ao amor e aos outros. Defendendo-se a todo o custo de eventuais erros e fracassos.

Se é assim que você vive, então não está a usufruir das experiências marcantes que dão significado à vida. Exponha-se! Abra-se a novas experiências e será uma pessoa mais autêntica e realizada.

Aprenda a aceitar a sua vulnerabilidade e a vencer a vergonha. Ousar ser quem é pode conduzi-lo a uma vida mais plena.

 

Boas leituras!