Uma outra perspectiva de ‘Wonder’… os irmãos que crescem na sombra

irmãos que crescem na sombra

 

Recentemente fomos assistir ao filme “Wonder“. A expectativa era grande porque já algum tempo ansiava a oportunidade de ver este filme que me pareceu sobretudo interessar pela mensagem de empatia, inclusão e superação que prometia trazer. Talvez por causa da expectativa já criada em torno da personagem principal e da sua história, no final até nem foi o seu drama que mais me cativou e me trouxe reflexões. Curiosamente, e sem esperar, deparei-me com o drama paralelo dos irmãos que crescem na sombra.

Os irmãos que crescem na sombra

Via é a irmã mais velha de Auggie, o menino de 10 anos que neste filme entra pela primeira vez para uma escola pública, e face às deformidades do seu rosto, lida com uma série de problemas de integração, nomeadamente bullying. Todo o filme gira em torno desta criança que, desde do seu nascimento, já havia feito 27 operações. A própria Via, adolescente que acabada de ingressar no Secundário, com todas as aventuras e desventuras que isso acarreta, refere:

– A nossa família é como a terra que gira em torno do sol. Auggie é o sol. A minha mãe, o meu pai e eu somos os planetas que orbitam à sua volta.

Recentemente li o livro Irmãos sem Ciúmes, de Adele Faber e Elaine Mazlish, onde entre as várias questões que surgem entre irmãos se fala do papel dos filhos quando existe um com necessidades especiais. Via retrata perfeitamente o que li neste livro. Dado os muitos problemas do irmão ela tornou-se uma presença silenciosa naquela família. Ela tem os seus próprios desafios, mas sabe que não se comparam com os do irmão. E é esta comparação que a apaga subtilmente do olhar dos pais, transformando-a numa sombra que se vê mas à qual não se presta grande atenção. Ela, bem comportada, aparentemente equilibrada e madura, procura não trazer problemas para casa, como será de esperar a uma criança a quem não falta nada. Mas será que não falta?

A mãe e o pai dizem que sou a miúda mais compreensiva do planeta. Eu não sei nada sobre isso. A única coisa que eu sei é que eles não precisam de mais problemas.

A renúncia das próprias necessidades emocionais por abnegação

Esta filha renúncia às suas mais básicas necessidades emocionais – de se sentir aceite e pertencente nesta família – para que ao irmão possa ser dada toda a atenção que necessita, incluindo a atenção dela. Afinal, o amor é assim, abnega de si próprio para entrega à pessoa amada.

A dada altura, após um primeiro dia de aulas complicado quer para Auggie como para Via, a atenção dos pais está voltada para o filho mais novo. Depois dos pais insistirem um pouco para saberem como correu o dia de Auggie, o menino explode e sai da mesa transtornado. Os pais saem logo de seguida. Via mantém-se à mesa e pergunta à cadelinha, desapontada mas conformada:

– Achas que me vão perguntar pelo meu primeiro dia?

Em quantas famílias onde existe uma criança com necessidades não existe este irmão atencioso, prestável, carinhoso, que prescinde de ser visto, ouvido, compreendido, deixando as suas necessidades ‘não prioritárias’ para quando houver espaço, sem que, em algum momento, as pareça reivindicar – reprimindo essa necessidade algures dentro de si? Mas tantas vezes as doenças graves, crónicas, genéticas, as necessidades cognitivas, neurológicas, emocionais, parecem esgotar o espaço e cristalizar uma hierarquia de necessidades, e por muito boa vontade que haja e muito amor, faz crescer a carência de atenção que se afirma e se cola àquela criança que também quer um pouco de luz no lugar de ficar constantemente à sombra.

A necessidade de se ser visto

Que não se interprete mal a perspectiva que estou a trazer. Não se trata da criança sem necessidades especiais querer protagonismo, ou desconsiderar as suas necessidades, ou do irmão com necessidades especiais ser algum mau da fita, intimamente egoísta. Nada disso. São dinâmicas que se vão criando, em função de necessidades prementes, mas que se consolidam no seio familiar, de tão fechados que ficam os papéis, que às vezes não damos por outras necessidades, igualmente válidas que florescem e que merecem também o seu espaço para serem vistas e atendidas.

A determinada altura Via, magoada, confronta Auggie:

– Achas que és só tu que tens problemas?

Ao que Auggie responde:

– Queres comparar?

E continua com um inventário de dores que legitimamente o assolam e de alguma forma transportam a irmã para a oculta culpa e mágoa que carrega, trazendo à tona o seu lado cuidador de irmã mais velha, que genuinamente quer proteger o irmão de tamanhas dores.

Não há comparações a fazer aqui, ainda que a intensidade do drama nos pareça maior numa das vertentes. Trata-se de duas realidades paralelas, que se conjugam por via de uma enorme amor, mas que merecem atenção individualizada para conquistarem o seu próprio espaço na vida e nos corações daqueles que amam.

Curiosamente, e sem esperar, esta foi uma das mais fortes reflexões que trouxe de “Wonder”. Naturalmente que todo o filme é um encanto, poderia aqui falar no papel da mãe guerreira, que Julia Roberts interpreta, do pai, protagonizado por Owen Wilson, que nos traz um humor desconcertante que nos cativa e torna mais suave todo o drama que carrega, do amigo Jack Will que é um exemplo precoce de força de carácter, do director que todas as escolas deveriam ter, do professor inspirador e solidário pronto a dar a mão e dar palco igual a todas as suas crianças, e por aí adiante, finalizando no encantador Auggie, uma criança como qualquer outra, que é diferente e especial, como todas o são.

Sim, poderia falar de cada uma dessas personagens e outras que tornam o filme um must see, mas talvez por ser a irmã mais velha, talvez por a minha irmã ter lidado com algumas dificuldades (não iguais às de Auggie, mas teve na infância duras batalhas) e, de apesar das nossas bulhas, ter sempre procurado estar ali para ela, motivando-a e dando o mínimo de preocupações possível aos meus pais, que para além de nós tinham às costas uma casa para construir e sustentar, e tanto com que se preocuparem… talvez por tudo isso e mais, o papel da Via tocou-me e despertou-me para esta mensagem que me parece importante partilhar.

Liliana Ferreira

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