“A Família educa e a Escola ensina” verdade ou não?

.Família educa Escola ensina

 

Confesso que me dá alguma urticária quando oiço alguém dizer o chavão: “A Família educa e a Escola ensina” ou “Em casa se educa e na escola se forma”, procurando separar as águas sobre a quem cabe passar os valores éticos e morais às crianças e as referências de conduta adequadas em sociedade.

O papel da Família

Por aqui não nos passa pela cabeça demitirmo-nos do nosso papel de pais e da referência que devemos ser na transmissão de competências e valores às nossas filhas. Sabemos no entanto que haverá casos de pais em que essa demissão acontece. Contudo, é-me muito claro que, a partir de determinada altura, não somos apenas nós as referências de atitudes, comportamentos e valores delas. Elas absorvem-nas não apenas em casa (embora seja um espaço privilegiado), mas em todo o ecossistema social em que se movimentam.

O papel da comunidade

Todos aqueles com quem elas se cruzam ou interagem, têm também uma responsabilidade de serem exemplo de valores de um saudável e positivo relacionamento interpessoal.

A vizinha que lhes dá os bons dias no elevador, a senhora do café que sorri quando as vê e pergunta como estão, a auxiliar que as recebe de forma calorosa e com um abraço, a educadora que presta atenção à alegria e ao desânimo naquele dia e lhes dá colo, a professora que as ouve com entusiasmo falarem do fim-de-semana e encoraja a gentileza, a cooperação e o respeito mútuo na sua sala e recreio, a senhora da cantina que é atenciosa e se recorda que aquela criança até nem gosta de ervilhas e compensa com um pouco mais de puré,… e tantos outros exemplos se podiam aqui juntar.

Em situações em que as crianças até nem sequer têm o devido acompanhamento da família para colocar limites e educar para competências e valores que se esperaria que fossem passados em casa. Os adultos com quem essas crianças interagem fora da esfera familiar podem fazer toda a diferença nas suas histórias de vida. Isto, se estiverem disponíveis para serem essa diferença positiva.

Os exemplos que perduram

Quantos de nós não lembramos alguém, sem que seja pai ou mãe, que a determinado momento nos inspirou a ser melhores? Em alguns casos, esse alguém até nem fez nada de especial. Foi apenas para nós uma pessoa especial, que fazia coisas que podem ser tão simples e banais, como ser amável, tratar-nos com respeito e dignidade, honrar a criança que éramos e o adulto que poderíamos vir a ser.

Passar valores e competências não tem a ver com educar ou ensinar, tem a ver com SER. A todo o momento as crianças observam os adultos à sua volta, a forma como falam com elas e com outros, as atitudes que têm, o que fazem ou deixam de fazer, etc… É o que somos que ensina às crianças os valores e condutas que privilegiamos em sociedade.

É preciso uma aldeia para educar uma criança

Gosto sempre de recordar que “É preciso uma aldeia para educar uma criança”. Os pais, independentemente de serem presentes ou ausentes, não estão nem devem nunca estar sozinhos nesta missão.

Em matéria de educar não nos podemos escudar no chavão “A Família educa e a Escola ensina”. Todos devemos assumir a nossa quota-parte de responsabilidade (todos!). Educar não deve ser visto como um fardo que se sacode, mas sim como um privilégio que se acolhe.