Depois de uma briga entre irmãos, devemos forçá-los a pedir desculpa?

briga entre irmãos

 

Depois de uma briga entre irmãos a maioria dos pais insiste ou mesmo obriga os filhos a pedirem desculpa um ao outro. É natural que como pais queiramos que os nossos filhos se entendam, se perdoem e se amem. Fazêmo-lo automaticamente, porque achamos que é desta forma que reparam os seus erros e a relação entre eles e terminam os conflitos. Mas será que produz o efeito que pretendemos ou é na verdade contraproducente obrigar os miúdos a desculparem-se quando não estão preparados para isso?

Porque não devemos forçar os nossos filhos desculparem-se depois de uma briga entre irmãos

Pesquisas feitas com casais adultos por John Gottman revelam que quando um adulto se sente forçado a “pedir desculpas” ao parceiro antes de se sentir pronto para tal, isso não só não ajuda a reparar a relação, como, na verdade, tende a criar ressentimento e a relação piora.

Apesar de não haver registos de estudos com crianças, podemos sempre perguntar-lhes o que sentem e pensam quando são forçadas a desculparem-se. Talvez percebam o impacto que algo que nos parece tão lógico tem sobre eles, os seus conflitos e a relação que estabelecem entre irmãos.

  • “Sinto que estou a mentir ao pedir desculpa porque não é isso que eu quero dizer.”
  • “Quando meus pais fazem o meu irmão desculpar-se, sinto que ganhei. Isso é bom, mas não me faz gostar mais dele.”
  • “Quando estou zangada, odeio pedir desculpa. Isso ainda me deixa mais chateada com a minha irmã”.
  • “Não gosto quando o meu irmão me pede desculpas quando meus pais o fazem fazer isso, porque ele age como se fosse um frete e nem sequer quisesse pedir desculpa. Isso deixa-me ainda mais irritado”.
  • “Sei que mais tarde volto a gostar da minha irmã. Nesse momento poderia então pedir-lhe desculpa, mas não quando estou demasiado alterado”.

O que fazer então?

Bom, se com isto já percebemos que forçar as crianças a desculparem-se não resulta, o que fazer então?

  1. Concentre-se em ajudar as crianças a comunicarem entre si

Ajude as crianças a expressarem seus desejos e necessidades, a ouvirem-se umas às outras e repetirem o que ouviram os seus irmãos dizerem. Desta forma as crianças começarão a curar seus conflitos a um nível mais profundo, de modo que as desculpas se tornem quase supérfluas.

  1. Espere até a raiva passar

Se a criança ainda estiver com raiva, mais do que ouvir o lado do irmão ela vai necessitar de falar, de se sentir ouvida, sem julgamento.

  1. Quando a criança estiver mais calma, incentive-a a reparar as coisas com o irmão.

Depois da tempestade vem a bonança. Depois da raiva passar costumamos estar propensos a olhar os estragos e repará-los. Para promover essa reparação desde cedo, em vez de obrigar a crianças a pedir desculpa, deixe que ela se sinta capaz de resolver os seus problemas e conflitos. Ajude-a a organizar o que aconteceu, reconhecer os sentimentos envolvidos e a procurar uma solução que ajude a reparar a situação.

“Eu percebi que ficaste furioso com o que o teu irmão te fez. E também sei que ele te adora. Por isso quando lhe gritaste ele ficou magoado. O que achas que podias fazer para ajudar resolverem as coisas entre vocês?”

  1. Se o seu filho sugerir de imediato pedir desculpas, fique atento ao tom de voz e postura.

Se a criança parecer mal-humorada ou zangada, provavelmente o pedido de desculpas não será sincero, mas funciona como um penso rápido para encerrar o assunto e evitar-lhe mais chatices.

Pergunte-lhe se acha que esse pedido de desculpa, nesse momento, daquela forma, faria realmente a outra crianças sentir-se melhor.

“Pedir desculpa é uma ótima forma de melhorarmos a situação, mas deves pedir se sentires que é realmente o certo a fazer e que te sentes preparado. Pedir desculpas por pedir não faz ninguém sentir-se melhor.”

  1. Ajude a encontrar forma de reparar o erro

Se seu filho não souber o que fazer para reparar o conflito, talvez o possa ajudar com algumas sugestões:

“E que tal ajudares o mano a construir uma nova torre de Legos?”

“Ajudaria escreveres um cartão?”

“Achas que podias consertar o carrinho?”

“E que tal sugerires um abraço?”

“E se fizessem um acordo e assinassem, prometendo não repetir a infração e indicando como a situação deverá ser tratada no futuro. Seria uma boa ideia?”

Notem que a ideia não é infligir um castigo ou propor uma consequência. O foco está na solução e em encorajar a criança para que se sinta capaz e responsável pela resolução do problema e se sinta bem por ter a possibilidade de reparar algo que provocou dor ou prejudicou alguém.

A adulto é mediador neste processo e não um juiz. Se achar que o seu filho é capaz de encontrar uma solução por si só, pode encorajá-lo nessa missão.

“Eu sei que vais arranjar uma ótima forma de resolver esta situação. Tu tens ideias muito criativas.”

  1. E se o seu filho não estiver disposto a resolver o conflito?

Reconheça que a criança ainda está com muita raiva e porquê. Se puder, ajude-o a lidar com a raiva. Em seguida, defina a expectativa de que, quando ele se sentir melhor, poderá pensar em alguma solução para resolver o conflito.

Percebo que estás ainda muito zangada com esta situação e ainda não estás disposta a falar com a tua irmã. Sei no entanto que por mais que vocês briguem, gostam muito uma da outra e quando há amor tudo pode ser resolvido. Às vezes precisamos de algum tempo para nos acalmarmos. Podemos fazer alguma coisa que gostemos e nos ajude a sentir menos raiva. Se quiseres eu posso ficar aqui um pouco contigo e depois, quando estiveres pronta, sei que vais fazer o que está certo para não ficarem magoadas.

  1. Seja um modelo.

As crianças aprendem connosco como resolver conflitos e reparar rupturas nos relacionamentos. Certifique-se de que, quando você e seu filho tiverem uma discussão ou algo que possa causar dano no vosso relacionamento, lhe pede desculpas e encontras maneiras de se reconectar com ele.

 

Artigo adaptado/traduzido do site Aha Parenting

Liliana Ferreira

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