A professora ralhou comigo…

Ralhete

No final da primeira semana de aulas, já ao fim da noite, quando nos estávamos para deitar, a B pediu para ficar só uns minutos na nossa cama.

– Sabes, mãe, preciso de um pouco de mimo. Hoje não foi um dia muito bom…

– Mas passou-se alguma coisa?

– Sim, mas não quero contar…

– Sabes que podes confiar em mim. Estou aqui para te ouvir. Às vezes ajuda se conversarmos…

– Sinto-me mal. Hoje a professora ralhou comigo.

– Queres-me contar o que aconteceu para ter ralhado contigo?

– Foi durante a aula. Estava a falar e a brincar com o meu colega de mesa.

– Estou a ver… E o que é que a professora te disse?

– Que não podíamos estar a brincar e que se continuássemos tinha de nos separar.

– E tu não te queres separar do teu amigo?

– Não…

– Ok. E a professora ralhou quando estavas a fazer algum exercício, quando estava a explicar alguma coisa,…?

– Eu já tinha terminado o exercício e o meu colega também. Mas os outros meninos ainda estavam a fazer.

– Parece-me que se calhar a vossa conversa e brincadeira estaria a destabilizar os colegas e por isso a professora chateou-se um pouco, não?

– Sim, acho que foi isso.

– E como te sentiste quando a professora ralhou contigo?

– Muito triste… Fiquei com uma grande vontade de chorar, mas não chorei.

– Percebo. Uma vez quando tinha a tua idade uma professora também ralhou comigo mas porque me tinha enganado a responder a um exercício. Lembro-me de me ter sentido muito mal. Se calhar podemos pensar no que podes fazer para a professora não voltar a ralhar contigo e também para que não te separe do teu amigo. O que achas que podias fazer?

– Se calhar é melhor não brincar…

– Parece-me bem. Podes tentar deixar para o intervalo. Mas se calhar, quando acabas o trabalho e os outros meninos ainda estão a fazer, podes fazer alguma coisa que não faça barulho ou distraia os outros meninos.

– Sim, mãe. Vou fazer isso… Mas agora posso adormecer abraçada a ti? Obrigado por me ouvires.

– Obrigado eu, meu amor, por confiares em mim.

E assim ficou, abraçada, até adormecer. Eu fiquei a pensar que realmente conhecer ferramentas de Disciplina Positiva e Parentalidade Consciente faz toda a diferença na forma como me relaciono com as minhas filhas.

Nesta noite consegui acolhê-la, sem a julgar, só procurando que ela se sentisse aceite. Queria que a necessidade dela fosse atendida naquele momento sem sermões ou a expor a vergonha e culpa. Até porque ela, sendo uma criança com uma grande necessidade de agradar, já se sentia mal o suficiente com a repreensão.

A B é uma criança enérgica, cheia de vida, muito comunicativa, que adora interagir, mas que está a aprender a lidar com novas rotinas e exigências. Sei que é um enorme desafio para ela muito embora se empenhe para que tudo corra bem.

Quando compreendemos que um ‘mau comportamento’ ou inadequado tem subjacente uma necessidade que precisa de ser atendida torna-se lógico que existem recursos que devem ser facultados para que a criança consiga responder de uma forma adequada ao desafio que tem em mãos. Acontece, porém, que muitas vezes também nós, pais e educadores, temos recursos limitados para lidar com os desafios que eles nos apresentam, porque não estamos despertos para estas ‘necessidades’, e apenas nos focamos no comportamento. Na ânsia de que a criança faça o que achamos ajustado e pare de se ‘comportar mal’ somos levados a fazê-la sentir-se mal para que se corrija.

Jane Nelsen, criadora da Disciplina Positiva, tem uma célebre frase que nos deve colocar a refletir sobre estas situações:

“De onde tirámos a ideia absurda de que, para fazer com que as crianças ajam melhor, primeiro devemos fazê-las sentirem-se pior?”

No caso da B, que sei o quão susceptível se sente face a críticas e o quanto desmoralizada fica com atitudes de punição e repreensão, percebo que ser repreendida em frente de toda a turma a angustiou e a fez sentir-se envergonhada. Da mesma forma que percebo que ao acabar uma determinada tarefa, ficando sem o que fazer, se comece a sentir entediada e acabe por começar a conversar, brincar,…

Quantos de nós, quando, estando numa reunião, a assistir a uma palestra, ou outra situação idêntica um pouco mais aborrecida, não começamos a mexer no telemóvel, a iniciar uma conversa paralela com a pessoa do lado, nos distraímos com o que se passa do outro lado da janela? Isto só para dar alguns exemplos. E, ainda assim, esperamos que uma criança consiga ficar perfeitamente concentrada e quieta, sabendo à partida da sua impreparação e imaturidade própria da idade?

Entre as estratégias e ferramentas que descobri ao aprofundar abordagens conscientes e positivas de educar e me relacionar com as minhas filhas, fiquei a pensar noutras opções que podem ser consideradas nestas situações. Pode-se optar por se aproximar da mesa e bater no tampo com a ponta da caneta e, posteriormente, aproveitar o final da aula para conversar com os meninos sobre o comportamento inadequado, combinando outras alternativas mais adequadas. Eventualmente, se ambos já tivessem acabado a tarefa, talvez lhes pudesse ser dada outra coisa para fazerem ou então poderiam ir por 5 minutos à biblioteca enquanto os colegas terminavam. Talvez, para as crianças mais irrequietas, se possa combinar um sinal ‘secreto’ que é ativado para lembrar a criança que se está a exceder e precisa de se acalmar. Uma reunião de turma, para definir conjuntamente regras de conduta na sala de aula, em que os alunos são de facto incentivados a contribuir com as suas sugestões e soluções construtivas (não punitivas), também ajuda, porque as crianças ficam realmente mais motivadas a cooperar e a responsabilizarem-se se se sentirem envolvidas nas decisões. Talvez se possa pedir aos primeiros a terminarem que ajudem os colegas que precisam de ajuda… Ou talvez se possa advertir mas utilizando o humor para gerar empatia e proximidade. Estar um bocadinho num ‘espaço da calma’, criado por toda a turma, também poderia ser outra opção.

Confesso que é de facto mais imediato, quando o nosso foco é outro, acabar por adotar os recursos tradicionais para gerir uma situação de desafio de comportamento. Afinal sempre fizemos assim. Mas se em consciência nos perguntarmos: Como me sentiria se alguém me advertisse assim? Imaginemos que é o nosso chefe, o nosso marido ou companheiro… Isso faria sentir-me motivada a mudar? Teria um efeito positivo em mim? O que eu estaria a decidir fazer?

Há um enorme desafio nesta consciencialização. É preciso alguma criatividade e uma grande vontade de criar relações genuínas e inspiradoras para se pensar noutras formas de gerir os desafios de comportamento de forma empática, respeitando-nos a nós próprios e à criança, especialmente quando não estamos habituados a responder ‘fora da caixa’. Para isso, se percebermos em nós esta necessidade e quisermos fazer melhor, é preciso questionarmos a forma como nos relacionamos e procurar novos recursos que nos apoiem, com as ferramentas que nos façam sentido utilizar face à intenção que temos enquanto pais e educadores. E já agora, talvez devamos começar, antes de mais, por definir a intenção que temos enquanto educadores. Temos realmente pensado nisso?