Porquê esta vergonha, este pudor de te abraçar e de acarinhar?

Abraço

 

Meu filho,
Quantas vezes desejo falar-te
e dizer-te tanta coisa que anda comigo.
Quantas vezes quero fazer-te uma festa
e dar-te um beijo dizendo:
Meu filho como te amo!
Porém tu cresceste.
Voaste para o teu mundo
o teu mundo de jovem
Às vezes solitário, outras perdido
outras, alegre e distante.
E entre nós vai crescendo essa separação
Vamos ficando na aparência
um pouco estranhos,
divididos pelas idades
e pelos mundos de cada um.

Ah meu filho!
Porquê esta vergonha, este pudor
de te abraçar e de acarinhar?
de te dizer: Olá meu amor!
Porquê este medo que
nos deixa assim,
com o coração cheio de ternura,
mas os gestos parados,
o olhar vazio,
As palavras todas por dizer.

Vamos mudar isto? Queres?
Então abraça-me,
um abraço forte como dois amigos,
mais que irmãos.
Penetra no meu mundo e eu no teu
Demos as nossas mãos
e caminhemos juntos
na procura que tu queres e eu também.
E vamos construir um mundo
em que não há autoridade
nem distância
mas doçura, compreensão
e amor
E assim, como dois jovens
talvez possamos entender a vida
e sermos companheiros na alegria.
E quem sabe, descobrirmo-nos
um ao outro.

Leio este poema de Júlio Roberto e toda eu, no meu corpo e alma – que é muito de filha mas aqui se manifesta sobretudo enquanto mãe – sei que é de mãos dadas com as minhas filhas que quero seguir pela vida.

Não quero abismos, separações e distanciamentos. Vergonha, culpa, medo e autoritarismo não me servem neste papel. Esgotam-me energias e roubam-me a alegria de desfrutar desta bênção.

Por isso quero estar disponível para que se mostrem tal como são, sem julgamentos, capaz de discernir o que é importante a cada momento, sobretudo os mais desafiantes, e orientá-las pelos valores que nutrem as mais sólidas e saudáveis relações. Também eu tenho de me entregar, plena de luz e de sombra, a este amor de mãe em que confio a minha missão de vida. Que me importa que elas vejam as minhas cicatrizes?! Quero conhecer as suas histórias, saber dos meus medos e dores, e com elas vivenciar a alegria da superação, da entrega sem limites e da transformação a que nos dedicamos quando queremos mesmo ser e fazer dos outros seres humanos plenos e felizes.

A primeira vez que li este poema foi há cerca de um ano e tudo o que me transmitia já fazia então um imenso sentido para mim. Ressoava naquilo que entendia ser o caminho da viagem de uma vida.

Hoje, com os recursos que a Parentalidade Consciente e a Disciplina Positiva me trouxeram sei que não é uma utopia acreditar neste tipo de relação entre pais e filhos. Sei que é possível, embora exigente, porque me obriga a reconhecer e trabalhar as minhas vulnerabilidades, fruto da educação e crenças que carrego e ainda moldam – mais vezes do que gostaria – a minha forma de agir.

É necessária muita presença, consciência, empatia, partilha, respeito e compaixão, para caminharmos de facto juntos com os nossos filhos na desafiante viagem da educação, sem perder o vínculo e o amor.

A Coragem de Ser Imperfeito

De fio a pavio este livro de Brené Brown foi uma autêntica revelação. A Coragem de Ser Imperfeito (Editora Nascente) trouxe-me consciência do quão transversal e enraizada está a vergonha na nossa vida, não só a nível individual mas enquanto cultura social.

Absorvi cada ensinamento. Cada tópico levantado pela autora colocava o dedo na ferida e fez-me perceber o quão impreparados estamos para aceitar e conviver com as nossas vulnerabilidades e o quanto isso nos afasta da nossa essência e das nossas relações. E tudo começa na educação, propagando-se pelas restantes esferas da nossa vida. A grande maioria de nós lança-se à vida com armaduras e escudos, procurando-nos proteger, mas o que tantas vezes conseguimos é simplesmente entorpecer os movimentos e os sentimentos que nos podem levar a uma vida mais plena.

A Coragem de Ser Imperfeito é um livro que nos convida à autoconsciência, à reflexão, ao questionamento, à revisão de crenças, à aceitação, à mudança e à transformação.

Se ainda não estiverem motivados para ler o livro assistam à TED que projectou mundialmente Brené Brown.

 

Entretanto, para aguçar a curiosidade, partilho o Manifesto de Plenitude para Criar Filhos que a autora inclui neste livro e que espelha tudo o que espero conseguir trazer para a minha família.

 

Antes de mais, quero que saibas que é amado e que tens capacidade de amar.

Aprenderás isso através das minhas palavras e acções – as lições sobre o amor têm que ver com a forma como eu te trato e como eu me trato a mim mesma.

Quero que abordes o mundo sob a perspectiva do merecimento.

Aprenderás que és digno de amor, pertença e alegria sempre que me vires a praticar o auto-compaixão e a aceitar as minhas próprias imperfeições.

Praticaremos a coragem na nossa família ao aparecermos, ao deixarmos que nos vejam e honrando a vulnerabilidade. Partilharemos as nossas histórias de dificuldades e força. Em nossa casa haverá sempre espaço para ambas.

Vamos ensinar-te a compaixão ao praticarmos compaixão primeiro connosco e depois uns com os outros. Vamos estabelecer e respeitar os limites; vamos honrar o trabalho árduo, a esperança e a perseverança. O descanso e a diversão serão valores familiares, bem como práticas familiares.

Vais aprender sobre responsabilidade e respeito ao me veres-me cometer erros e corrigi-los, e ao vendo como peço aquilo de que preciso e falo sobre como me sinto.

Quero que conheças a alegria, para que juntos pratiquemos a gratidão.

Quero que sintas alegria, para juntos aprendermos a ser vulneráveis.

Quando a incerteza e a escassez surgirem, vais ser capaz de ir buscar forças ao espírito que é uma parte da tua vida diária.

Juntos, vamos chorar e enfrentar o medo e o sofrimento. Vou Vou querer fazer desaparecer a tua dor, mas em vez disso vou sentar-me contigo e ensinar-te a senti-la.

Vamos rir e cantar, dançar e criar. Teremos sempre permissão para sermos nós próprios um com o outro. Aconteça o que acontecer, vais sempre pertencer aqui.

Ao começares a tua jornada de plenitude, a maior dádiva que te posso dar é viver e amar de todo o coração e ousar ser grande.

Não vou ensinar ou amar ou mostrar nada na perfeição, mas vou deixar que me vejas e vou sempre considerar sagrada a dádiva de te ver a ti. Ver-te verdadeira e profundamente.

       Este manifesto está disponível na versão original em www.brenebrown.com.

 

Sinopse

Ter a coragem de ser imperfeito é querer mudar a manei

ra como conduz a sua vida, o amor, o trabalho e a família.

Você vive evitando emoções como o medo, a mágoa ou a desilusão.

Fechando as portas ao amor e aos outros. Defendendo-se a todo o custo de eventuais erros e fracassos.

Se é assim que você vive, então não está a usufruir das experiências marcantes que dão significado à vida. Exponha-se! Abra-se a novas experiências e será uma pessoa mais autêntica e realizada.

Aprenda a aceitar a sua vulnerabilidade e a vencer a vergonha. Ousar ser quem é pode conduzi-lo a uma vida mais plena.

 

Boas leituras!

A professora ralhou comigo…

Ralhete

No final da primeira semana de aulas, já ao fim da noite, quando nos estávamos para deitar, a B pediu para ficar só uns minutos na nossa cama.

– Sabes, mãe, preciso de um pouco de mimo. Hoje não foi um dia muito bom…

– Mas passou-se alguma coisa?

– Sim, mas não quero contar…

– Sabes que podes confiar em mim. Estou aqui para te ouvir. Às vezes ajuda se conversarmos…

– Sinto-me mal. Hoje a professora ralhou comigo.

– Queres-me contar o que aconteceu para ter ralhado contigo?

– Foi durante a aula. Estava a falar e a brincar com o meu colega de mesa.

– Estou a ver… E o que é que a professora te disse?

– Que não podíamos estar a brincar e que se continuássemos tinha de nos separar.

– E tu não te queres separar do teu amigo?

– Não…

– Ok. E a professora ralhou quando estavas a fazer algum exercício, quando estava a explicar alguma coisa,…?

– Eu já tinha terminado o exercício e o meu colega também. Mas os outros meninos ainda estavam a fazer.

– Parece-me que se calhar a vossa conversa e brincadeira estaria a destabilizar os colegas e por isso a professora chateou-se um pouco, não?

– Sim, acho que foi isso.

– E como te sentiste quando a professora ralhou contigo?

– Muito triste… Fiquei com uma grande vontade de chorar, mas não chorei.

– Percebo. Uma vez quando tinha a tua idade uma professora também ralhou comigo mas porque me tinha enganado a responder a um exercício. Lembro-me de me ter sentido muito mal. Se calhar podemos pensar no que podes fazer para a professora não voltar a ralhar contigo e também para que não te separe do teu amigo. O que achas que podias fazer?

– Se calhar é melhor não brincar…

– Parece-me bem. Podes tentar deixar para o intervalo. Mas se calhar, quando acabas o trabalho e os outros meninos ainda estão a fazer, podes fazer alguma coisa que não faça barulho ou distraia os outros meninos.

– Sim, mãe. Vou fazer isso… Mas agora posso adormecer abraçada a ti? Obrigado por me ouvires.

– Obrigado eu, meu amor, por confiares em mim.

E assim ficou, abraçada, até adormecer. Eu fiquei a pensar que realmente conhecer ferramentas de Disciplina Positiva e Parentalidade Consciente faz toda a diferença na forma como me relaciono com as minhas filhas.

Nesta noite consegui acolhê-la, sem a julgar, só procurando que ela se sentisse aceite. Queria que a necessidade dela fosse atendida naquele momento sem sermões ou a expor a vergonha e culpa. Até porque ela, sendo uma criança com uma grande necessidade de agradar, já se sentia mal o suficiente com a repreensão.

A B é uma criança enérgica, cheia de vida, muito comunicativa, que adora interagir, mas que está a aprender a lidar com novas rotinas e exigências. Sei que é um enorme desafio para ela muito embora se empenhe para que tudo corra bem.

Quando compreendemos que um ‘mau comportamento’ ou inadequado tem subjacente uma necessidade que precisa de ser atendida torna-se lógico que existem recursos que devem ser facultados para que a criança consiga responder de uma forma adequada ao desafio que tem em mãos. Acontece, porém, que muitas vezes também nós, pais e educadores, temos recursos limitados para lidar com os desafios que eles nos apresentam, porque não estamos despertos para estas ‘necessidades’, e apenas nos focamos no comportamento. Na ânsia de que a criança faça o que achamos ajustado e pare de se ‘comportar mal’ somos levados a fazê-la sentir-se mal para que se corrija.

Jane Nelsen, criadora da Disciplina Positiva, tem uma célebre frase que nos deve colocar a refletir sobre estas situações:

“De onde tirámos a ideia absurda de que, para fazer com que as crianças ajam melhor, primeiro devemos fazê-las sentirem-se pior?”

No caso da B, que sei o quão susceptível se sente face a críticas e o quanto desmoralizada fica com atitudes de punição e repreensão, percebo que ser repreendida em frente de toda a turma a angustiou e a fez sentir-se envergonhada. Da mesma forma que percebo que ao acabar uma determinada tarefa, ficando sem o que fazer, se comece a sentir entediada e acabe por começar a conversar, brincar,…

Quantos de nós, quando, estando numa reunião, a assistir a uma palestra, ou outra situação idêntica um pouco mais aborrecida, não começamos a mexer no telemóvel, a iniciar uma conversa paralela com a pessoa do lado, nos distraímos com o que se passa do outro lado da janela? Isto só para dar alguns exemplos. E, ainda assim, esperamos que uma criança consiga ficar perfeitamente concentrada e quieta, sabendo à partida da sua impreparação e imaturidade própria da idade?

Entre as estratégias e ferramentas que descobri ao aprofundar abordagens conscientes e positivas de educar e me relacionar com as minhas filhas, fiquei a pensar noutras opções que podem ser consideradas nestas situações. Pode-se optar por se aproximar da mesa e bater no tampo com a ponta da caneta e, posteriormente, aproveitar o final da aula para conversar com os meninos sobre o comportamento inadequado, combinando outras alternativas mais adequadas. Eventualmente, se ambos já tivessem acabado a tarefa, talvez lhes pudesse ser dada outra coisa para fazerem ou então poderiam ir por 5 minutos à biblioteca enquanto os colegas terminavam. Talvez, para as crianças mais irrequietas, se possa combinar um sinal ‘secreto’ que é ativado para lembrar a criança que se está a exceder e precisa de se acalmar. Uma reunião de turma, para definir conjuntamente regras de conduta na sala de aula, em que os alunos são de facto incentivados a contribuir com as suas sugestões e soluções construtivas (não punitivas), também ajuda, porque as crianças ficam realmente mais motivadas a cooperar e a responsabilizarem-se se se sentirem envolvidas nas decisões. Talvez se possa pedir aos primeiros a terminarem que ajudem os colegas que precisam de ajuda… Ou talvez se possa advertir mas utilizando o humor para gerar empatia e proximidade. Estar um bocadinho num ‘espaço da calma’, criado por toda a turma, também poderia ser outra opção.

Confesso que é de facto mais imediato, quando o nosso foco é outro, acabar por adotar os recursos tradicionais para gerir uma situação de desafio de comportamento. Afinal sempre fizemos assim. Mas se em consciência nos perguntarmos: Como me sentiria se alguém me advertisse assim? Imaginemos que é o nosso chefe, o nosso marido ou companheiro… Isso faria sentir-me motivada a mudar? Teria um efeito positivo em mim? O que eu estaria a decidir fazer?

Há um enorme desafio nesta consciencialização. É preciso alguma criatividade e uma grande vontade de criar relações genuínas e inspiradoras para se pensar noutras formas de gerir os desafios de comportamento de forma empática, respeitando-nos a nós próprios e à criança, especialmente quando não estamos habituados a responder ‘fora da caixa’. Para isso, se percebermos em nós esta necessidade e quisermos fazer melhor, é preciso questionarmos a forma como nos relacionamos e procurar novos recursos que nos apoiem, com as ferramentas que nos façam sentido utilizar face à intenção que temos enquanto pais e educadores. E já agora, talvez devamos começar, antes de mais, por definir a intenção que temos enquanto educadores. Temos realmente pensado nisso?