Colo é manha ou uma necessidade básica?

Colo é manha

 

Por altura da II Guerra Mundial muitos bebés foram entregues aos cuidados de orfanatos. Sem mãos a medir para cuidar de tantas crianças eram-lhes prestados os cuidados mais elementares – higiene, saúde e alimentação – descurando-se o colo e os mimos. Com o passar do tempo as enfermeiras e auxiliares que cuidavam dos bebés começaram a perceber que apesar de alimentadas e cuidadas as crianças pareciam estar a definhar. Procurou-se encontrar quem se dispusesse a ir às instituições unicamente para dar colo aos bebés ou então arranjar amas a quem encaminhar as crianças mais vulneráveis. Nesses casos, em que o toque e o envolvimento emocional eram frequentes, constatou-se que os bebés se começaram a desenvolver, mostrando que o contacto físico, o colo, os mimos e todos os cuidados de afeto são tão essenciais como a alimentação ou cuidados de higiene e saúde.

Quando a B nasceu muitas vezes ouvi:
Não lhe dês muito colo que depois não quer outra coisa e não te deixa fazer nada.
– Olha que muito colo estraga-os.
– Deixa-a chorar um pouco. Não lhe faz mal e até areja os pulmões.

De tanto ouvir estas instruções, sem sequer questionar de onde vinham tais crenças (por melhores intenções que tivessem), acreditava que de facto era assim e muitas vezes dei comigo a desesperar com o choro ao qual queria atender de coração, mas na minha cabeça lá vinham as vozes (a minha inclusive) a dizer que era errado, que não o devia fazer, que não estava a ser uma boa mãe porque estava a ceder aos mandos e desmandos de meio palmo de gente que queria colo a toda a hora.
Decerto que numa ou noutra altura terei eu própria dado a mesma orientação a outras mães, afinal “eles são pequenos mas já têm a manha toda”.

Quão errada eu estava! Afinal, mais tarde aprendi, que não é manha querer colo mas uma necessidade básica do bebé que, especialmente nos primeiros meses, só se sente inteiro quando está com a mãe. Porque afinal, foi dentro da mãe que ele esteve durante 9 meses. É com a mãe (ou cuidador mais próximo), junto ao seu corpo, que ele compreende quais são os seus limites físicos e emocionais e se sente seguro e protegido.

Assim, naquela altura e apesar de sentir que algo não estava certo, contrariava o que instinto me pedia para fazer. Suportava o choro dela e a minha angústia de não a consolar tanto quanto eu queria e também eu precisava.
Felizmente que tenho o hábito de procurar respostas fundamentadas às inquietações que me atormentam. Então, pesquisando e lendo, aprendi que os bebés são autênticas esponjas. Se a mãe está tensa, desesperada, ansiosa, alarmada,… eles próprios refletem esse estado. É certo que o seu desenvolvimento emocional é muito imaturo mas ao mesmo tempo é altamente perspicaz nestes primeiros meses e anos de vida.

Ao privarmos o bebé do colo, do nosso toque, das palavras afáveis, dos olhares próximos, será bom também pensarmos na mensagem que lhe estamos a passar. O que será que este bebé decidirá quando, com frequência, não recebe dos pais o que mais necessita? Como é que esse bebé se percepciona, percepciona os que o rodeiam e o mundo à sua volta?

É com base na observação do que se passa em seu redor, das emoções que os principais cuidadores transmitem (mãe e pai em particular) e da experimentação, que o bebé forma a sua percepção do mundo: se é seguro, confiável, amável, ou pelo contrário, se é perigoso e hostil. Esta percepção é a base das sinapses neuronais que o bebé forma, e olhem que só por segundo um bebé estabelece em média um milhão de sinapses. É muito!

Também não é por acaso que o final do dia é a altura em que os bebés costumam ser assolados pelas famosas “cólicas”. Muitos pais queixam-se destas “cólicas” de final de tarde/início de noite, que se prolongam às vezes durante horas.

Imagine-se então que o nosso bebé é uma panela de pressão (sim, leram bem). Ao longo do dia o bebé vai recebendo informações e interagindo com o que o rodeia. Vê, toca, saboreia, ouve, sente o frio, o calor, texturas… Vai assimilando tudo o que pode. No fim do dia todos estes estímulos deixam o bebé complemente assoberbado. Como uma panela de pressão ele precisa de libertar a tensão que tem em si. Precisa de descomprimir. Este choro zangado e intenso do fim do dia é exatamente o que ele precisa para descompensar. E não tem mal algum, porque o bebé precisa deste choro e desta zanga como escape emocional. Ao mesmo tempo precisa que a mãe ou o pai atuem como um regulador externo que equilibra este estado de descompensação e lhe diz “Está tudo bem. Estou aqui para ti”.

Que não é fácil, não é. Nós também temos neurónios espelho, e no desespero do nosso bebé começamos a desenvolver o nosso desespero. Eles berram e agitam-se e nós parecemos baratas tontas que só queremos, de forma igualmente agitada, acalmar a situação. Procuramos então técnicas de relaxamento, mesinhas e medicamentos. Tudo o que for possível para que o bebé fique calmo. Não é à toa que o pediatra Mário Cordeiro diz que apenas uma pequena percentagem das chamadas cólicas são de facto cólicas, eventualmente com necessidade de serem medicadas. Todas as restantes são imaturidade emocional do bebé para lidar com os estímulos a que se alia uma impreparação emocional dos pais.

Ainda me dei ao trabalho, só por via das dúvidas, de pesquisar estudos de fontes credíveis que atestassem que o colo, a mais ou não, faz mal aos bebés. A pergunta até se coloca mas a grande maioria das fontes e investigações dizem-nos que o colo é bom, nunca é demais e recomenda-se, para bem do vínculo e da saúde emocional de pais e filhos.

Por estas e outras razões, hoje – mais tarde do que gostaria, ainda assim sempre a tempo – entendo que não é bom deixar o bebé chorar sem lhe prestar consolo, sem lhe falar de uma forma calma e amável, sem lhe pegar ao colo para lhe dar o conforto de que necessita para se acalmar e aprender a autorregular-se. Sei que é o amor e o afeto, e não a privação destes, que são determinantes para os ajudar a crescerem saudáveis e capazes de desenvolver competências emocionais que levam para o resto da vida e que, afinal, absorvem também de nós desde da mais tenra idade.

O teu bebé acabou de nascer. Porque não estás feliz?

Bebé

Revejo-me hoje, como há anos, nas tuas angústias, descrédito e desespero. As lágrimas que hoje choras eu também as chorei. Todas as mães as choram, mas, sempre que aparece alguém, é hora de as limpar e sorrir. Afinal, o teu bebé acabou de nascer, porque não estás feliz?

Sim, é possível não estar feliz. Ou…

Está-se, e depois o medo…

Está-se, e depois o desamparo…

Está-se, e depois o cansaço…

Está-se, e depois as hormonas…

Está-se, e depois as opiniões…

Está-se, e depois a impotência…

Está-se, e depois a insegurança…

Está-se e depois, a culpa…

E assim, vai-se estando… sem se estar.

Esta é uma felicidade tão vertiginosa como intermitente. Entre o céu e o inferno. E às tantas, já não sabes o que sentes, porque o que sentes é difuso, é ruidoso, é tremendo, é tantas vezes esmagador.

De repente, tu que só sabias ser filha, és mãe. Tens a tua filha nos braços. Ela tem todo o vagar para ser filha, e tu tens, de uma hora para a outra, de te transformar na íntegra na mãe que ela precisa.

A ela tudo é perdoado – as noites irrequietas, a má pega, o choro, a fome, o sono de passarinho, as fraldas sujas, o arroto que não vem, o peso, a altura, o percentil, as cólicas, a descompressão,… – porque é uma vida nova que se inicia, em todo o esplendor e com a complacência que essa revelação nos traz.

Mas tu, já cá andas há algum tempo, já levaste alguma pancada, já tropeçaste e te levantaste, já aprendeste a te defender, já tens calo nas dores da vida, já sabes com o que contar.

A ti se exige que cuides e protejas essa criança como ninguém mais e que, enquanto dás os primeiros passos nesse tão belo e imenso papel, te cuides e vivencies o momento com ligeireza e contentamento. Porque se exige – e tu mais do que ninguém exiges e pretendes ser a mãe ‘perfeita’ – então, escondes os teus sentimentos e tentas reprimi-los, anulá-los.

Disseram-te que agora é ela que importa mesmo que te sintas, tal como ela, perdida neste mundo novo e também queiras colo, quem te embale e diga que “está tudo bem”. Procuras suster as emoções que te inundam, como quem sustem a respiração. Queres o apoio, o amparo e o abraço, mas ninguém vem, porque acham-te uma fortaleza no alto do teu recente papel de mãe. Mas o pedestal em que te colocaram está ainda em construção e oscila… ó se oscila!

É possível a confusão ser tão grande, a mudança tão imensa, os sentimentos tão opostos, que nos sentimos numa montanha russa na qual entrámos a pensar que sabíamos no que nos metíamos, confiantes, empoderadas pelo milagre que trazíamos em nós. Mas de repente o nosso vagão começa a andar, a alta velocidade. Tentamos apreciar a viagem mas a vertigem, a rapidez com que os altos e baixos se sucedem, suga-nos a atenção, apertam-nos o coração e já só sentimos o estômago às voltas e um nó na garganta que não conseguimos desfazer.

Não se fala deste lado, porque a maternidade quer-se cor-de-rosa (ou azul-bebé) e não cinza. É a esperança e o céu azul. É a frescura cândida da primavera. Não é o desespero, as nuvens carregadas… o frio cortante do inverno.

Mas é. É tudo isto e tudo o mais que não consigo descrever. Todas as estações num só dia, numa só hora, se for preciso. E não há panos quentes. É um assalto à nossa identidade, intrusivo e impiedoso.

Mas dia-a-dia reconstruímo-nos sobre a nossa essência e consolidamos a nossa fortaleza. Aprendemos a reconhecer quem somos e a resfriar a fervura de tudo o que sentimos.

Mais dia, menos dia, o ritmo abranda, as estações suceder-se-ão com mais tranquilidade e vais, por fim, conseguir apreciar e desfrutar da viagem que agora se inicia.

Se quiseres começar já, não sustenhas a respiração. Respira…

Quase a ser mãe… MEDO!!!

maternidade

Quando éramos pequenas, eu e tu brincávamos às mães e aos pais, como muitas meninas o fazem nessas idades. Recordo-me que não tínhamos muitas bonecas e as que tínhamos a mãe guardava em cima do roupeiro para não se estragarem (ou não as estragarmos). Já não me lembro o que lhes aconteceu quando crescemos e elas, bem conservadas nas respetivas caixas, desapareceram de casa, quase sem uso. Assim, sem bonecas mas com muita imaginação, improvisávamos.

Meio palmo de gente, confiávamos que sabíamos perfeitamente o que fazíamos quando prestávamos os cuidados básicos aos nossos bebés. As papinhas eram sempre deliciosas, os banhos estavam sempre na temperatura certa. A muda da fralda não era problema, até porque nem sequer havia assaduras, assim como não havia noites mal dormidas, interrompidas pela fome, chichi, cocó ou pura necessidade de afeto do pequenote. Os nossos bebés raramente adoeciam e quando isso acontecia uma de nós representava na perfeição o papel de médico, de tal forma que mal a mamã e bebé punham o pé fora do consultório já estava tudo bem. Se bem me recordo, também choravam muito pouco esses bebés porque logo que os segurávamos percebíamos o que lhes faltava. Às vezes bastava um pouco de colo, nada mais. Era tão simples…

Hoje crescemos e a confiança que guiava os nossos gestos com esses imaginários bebés perdeu-se algures nessa meninice encantada. A poucos dias de sermos mães, atormenta-nos o medo da responsabilidade que aí vem, não é verdade? Até aqui, mal ou bem, só precisávamos de cuidar de nós. Mas não tarda tens esse pequeno e frágil ser no colo, à mercê do mundo, a contar contigo.

Dizias-me, há dias, que o que mais receavas não era o momento do parto – se estava lá dentro teria de sair, é inevitável – mas sim o pós, a dúvida de se estarás à altura das exigências de ser mãe, se serás capaz.

Como mãe que sou, com iguais inseguranças por que passei, com todas as dúvidas e erros que cometi e cometerei, com todas as lágrimas que já chorei e os sustos que apanhei, mas também com todas as alegrias que já vivi, a ternura que experienciei, as risadas que já dei com as minhas meninas e todos os momentos de pleno orgulho que senti enquanto mãe e ser humano, garanti-te que sim.

Mas no começo não é fácil. O amor não é um sentimento que se materialize em nós instantaneamente (pelo menos não para todos). O amor é feito de laços que se criam. Não surge de repente. Por isso o amor requer muita da nossa disponibilidade, paciência e entrega, para descobrir o outro e nesse processo descobrirmo-nos no nosso novo papel, nesse namoro em que nos demoramos com o nosso bebé.

Sabes, quando a B nasceu não me senti envolta em nenhuma aura de amor incomensurável. Ela foi colocada no meu peito e era perfeita. Finalmente era real depois de meses em que a senti em ‘abstrato’ a crescer dentro de mim. Contudo, ainda que perfeita não deixava de a ver como uma extraterrestre recém-chegada. Lembro-me de olhar para ela, horas depois de nascer, e pensar:

‘E agora? O que faço contigo? O que fazemos as duas?’

Por mais cursos de preparação que haja, por mais que se leia sobre o tema, por mais que se oiçam as mais diversas histórias – boa parte delas de uma arrebatada paixão que nasce com o teste de gravidez positivo – por mais que se sinta crescer o bebé dentro de nós e a ocupar cada vez mais e mais o seu espaço naquilo que somos, não era mágico o que senti. Era uma imensa confusão e não durou apenas umas horas ou dias. Foram semanas, meses talvez de uma enorme turbulência emocional. Eu era uma menina-mulher à descoberta do que é ser mãe, a aprender o que é cuidar de uma filha. Nada me havia preparado para a sensação de ter uma perfeita desconhecida aninhada no meu peito, tão desprotegida e carente, como também não me preparou para a fragilidade e impotência velada com que me sentia naquele momento.

De repente, sem qualquer anestesia psicológica e a debater-me com as ‘dores tortas’ que fisicamente me faziam também sofrer (para estas ainda assim há analgésicos), estreei-me num novo e imenso papel, que senti maior que as minhas forças e capacidades. Não minto que os primeiros meses foram muito desafiantes. Talvez os primeiros anos. Na verdade, mesmo quando nasceu a L, a sensação – embora com nuances diferentes – manteve-se.

Sabes, mana, no início, especialmente quando deixamos aquele ambiente controlado do hospital, onde contamos com o apoio de especialistas, aparece acima de tudo o medo e todas as suas faces: a frustração, a raiva, o descrédito, o desespero, a angústia,… Estamos doridas, física e mentalmente, e sentimo-nos colocadas à prova como nunca antes. O nosso corpo está em regeneração e adaptação após o parto e, de certa forma, creio que a nossa mente gere ainda a ‘amputação’ daquele que é o mais precioso milagre que aconteceu dentro de nós. Amputaram-nos um segundo coração, que agora tem vida própria, um rosto e uma história por escrever.

A responsabilidade que assumimos para com essa vida, que era até então tão visceralmente nossa, e de tudo quanto vislumbramos para o seu futuro, faz-nos tremer as pernas, suar, sentir tonturas, na dúvida que se instala se iremos saber ser alicerce bastante para apoiar e dar segurança à construção dessa pessoa, que se espera que cresça saudável e feliz.

Dúvidas nunca vão deixar de existir. É o desconforto, que nos incomoda e nos agita, que nos obriga a questionar e procurarmos ser o melhor que podemos ser. Não menosprezes por isso as tuas dúvidas e inquietações. Pára e ouve-as. Mas não te atormentes se não encontras as respostas que procuras. A culpa oculta a força que tens. Na dúvida, escolhe sempre os atos de amor. No cuidar e no amar procura ser sempre a mãe que queres que ela recorde. Educa presente da tua intenção enquanto mãe e não nos objetivos que possas fixar para a tua menina. Não alimentes expectativas. Isso limita-a. Ela será um livro em branco, um mundo de oportunidades que não cabe nos nossos confinados horizontes.

Madre Teresa dizia sobre eles:

Os filhos são como as águias,
Ensinarás a voar mas não voarão o teu voo.
Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos.
Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida.
Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos.

Duvida, questiona-te e tem a coragem de mudar o que tiveres de ser em nome desse amor que se constrói e fortalece hora-após-hora, dia-após-dia, a cada encontro de olhar, cada sorriso, cada carícia, cada afeto, cada cuidar, para enfim seres a referência de mãe e mulher que queres que a tua filha guarde e procure sempre que tiver necessidade.

Acredita que tens em ti todas as respostas para as tuas inquietações. Quando a incerteza te cercar e outras vozes se tentarem sobrepor à tua, respira fundo. No lugar de dares ouvidos a terceiros e acalentares opiniões alheias, dá voz ao teu coração. Inspirado por aquela menina que se imaginava no papel de mãe, ele saberá responder à pergunta:

O que faria nesta situação essa mãe que sonhei ser?

No confronto com esta simples pergunta encontras a mais sábia resposta. Se a mantiveres sempre presente, verás que no reflexo dela crescerá uma outra menina, igualmente forte, confiante e feliz.

 

Dedicado à minha irmã