Com dois anos e não fala… Será preguiçosa?

otite

 

Com ano e meio ela dizia muito poucas palavras. ‘Pai’, ‘Mãe’ e pouco mais.

Aos dois mantinha um vocabulário muito limitado, mas em todos os indicadores mostrava um bom desenvolvimento e era muito autónoma. A pediatra sinalizou para observação dali a seis meses.

Entretanto aos dois anos e meio regressou para nova avaliação do desenvolvimento da fala. Continuava praticamente igual embora já tentasse dizer mais algumas palavras.

A pediatra recomendou fazer alguns exames – timpanograma e audiograma tonal –  e ser avaliada por um profissional da especialidade. Marcámos consulta com um otorrino pediátrico e percebemos finalmente o que se passava.

A L tinha afinal uma surdez de transmissão, também conhecida como otite serosa, que faz com que ela oiça como se estivesse debaixo de água.

Fez um tratamento durante um mês. Repetiu os exames mas os resultados não registaram alterações. A L é operada hoje para resolver este problema e depois, ouvindo com nitidez, poderá então reproduzir as palavras com clareza.

Durante este tempo o que me marca são os rótulos que, inclusive nós, tão facilmente lhe colocámos à conta deste atraso no desenvolvimento da fala.

Ela sempre foi tão desembaraçada e independente. Praticamente não precisava de pedir porque arranjava forma de ter o que queria, fosse pelo próprio pé, arrastando cadeiras ou trepando pelos móveis, ou através de uma espécie de mímica improvisada, mas que servia para ela se fazer entender.

Tantas vezes ouvimos, e nós mesmos inicialmente chegámos a dizer, que ela tinha era preguiça de falar. Também achámos que como via a irmã a comunicar tão bem, sempre tão eloquente, talvez tivesse optado por se destacar de outra forma.

Pensámos que podia ficar inibida por dizer mal as palavras porque sempre que a incentivávamos a dizer alguma coisa ou repetir ela retraía-se.

Afinal a nossa pequenina não era preguiçosa ou tímida. Habilmente, na verdade, arranjou maneira de contornar um problema que tinha e que fez com que este atraso não fosse identificado mais cedo ou acabasse por ser desvalorizado dado o seu desembaraço.

Serviu-nos esta vivência para sermos mais empáticos com os desafios que as nossas filhas apresentam e procurar ir um pouco mais além do que à primeira vista a situação nos sugere. Sairmos do modo julgamento e rotulagem para questionar e procurar acolhê-las e apoiá-las neste processo, seja ele condicionado por uma circunstância física ou de outra natureza, fortalece a forma como encaram os desafios e aprendem a superar as adversidades, acompanhadas ao invés de rotuladas.

Espero que a L tenha feito ouvidos de mercador aos comentários que foi ouvindo ao longo dos últimos meses. Olhando para ela, tão bem disposta e autónoma, até aqui a tagarelar ao jeito dela, creio que sim.

Porque escolhi educar com Disciplina Positiva?

Na minha infância lembro-me que a educação que recebi foi essencialmente centrada no controlo e na punição. Fruto de uma cultura que vinha de outros tempos, em que os filhos nasciam para ajudar os pais para o sustento do lar e havia uma espécie de subserviência cega, em que o respeito era devido apenas de filhos para pais, e a própria hierarquia social e familiar seguia uma estrutura rígida, a minha criação seguiu moldes idênticos, embora, à luz dos novos tempos, os métodos utilizados tenham sido, ainda assim, um pouco mais suaves.

Os meus pais fizeram o melhor que sabiam com os recursos que disponham, que por si só, pela infância que viveram, eram muito limitados. No fundo limitaram-se a reproduzir o que havia sido feito com eles. Afinal, eles sobreviveram e tornaram-se pessoas de bem, logo, resultou. Porque não resultaria com as filhas?

Assim, enquanto cresci não me faltaram os sermões, as reprimendas, o sobreolho levantado e testa franzida ao mínimo pisar de risco, e algumas tareias sempre que o risco, conhecido ou não, fosse ultrapassado.

Habituei-me a conviver com o medo e a ansiedade de não estar à altura, de não agradar, de não ser suficiente. Queria ser o orgulho dos meus pais, mas entre tudo o que fazia bem, ‘não fazia mais do que a minha obrigação’. Já quando fazia mal, se a dor de alguma forma me era sempre incutida, o facto é que a vergonha e a culpa logo surgiam como parceiras para me amestrar.

Nunca tive muita liberdade de escolha, porque ‘criança não tem querer’, nem grande possibilidade de questionar, porque ‘não é não e ponto final’, ou de argumentar ‘não há mas nem meio mas’. A vida e o que me era permitido era muito claro para mim ‘é como eu digo e acabou-se’, ainda que nem sempre o que me diziam fosse o que de facto faziam mas ‘enquanto viveres debaixo do meu tecto, é assim que as coisas são’.

E assim foram por longos anos em que sei que fui a menina exemplar, obediente, bem comportada, estudiosa, a fada do lar, prendada, responsável, cuidadosa,… pelo menos a maior parte do tempo. Mas debaixo destes rótulos, houve sempre uma menina que espreitava à janela para tentar que o sol lhe aquecesse a alma. Ficava a sonhar com ter mais liberdade, mais opções, para ser uma menina como as outras. Que gostaria que o amor não fosse opressor e castrador e que a alegria não fosse constantemente vigiada pelo medo de falhar e de envergonhar as pessoas que mais amava.

Um dia fui mãe. Um dia, numa ocasião que a minha filha mais velha, no auge dos seus 2 anos, fez uma birra à mesa porque não queria jantar, vi-me reproduzir o controlo e punição que jurei que não traria para a nossa casa. Mas que fazer se este era o único modelo que conhecia, a única referência que tinha? E afinal, eu sobrevivi e sou uma pessoa de bem. No meu coração esta resposta não me tranquilizou. Sei que padrões de resposta a minha educação me trouxe. Sei de que decisões e limitações me cercou. É mesmo o que quero que resulte para ela?! Não!

Mas nesse momento deparei-me com o vazio, a escuridão. Se não faço assim, faço como? Se não sou esta mãe, que mãe vou ser?

Neste processo de questionamento, até então impensável para mim, surgiram as dores de trazer à tona a consciência da criança que fui e ainda morava em mim. Ao olhar para a minha filha, era hora de regressar às dores que reprimi, ao choro que engoli, às lágrimas que rapidamente limpei e ao que em minha defesa, da minha integridade e autenticidade ficou por mostrar, com medo de não ser aceite, de não me enquadrar nas expectativas.

Há um provérbio árabe que diz

A hora mais escura do dia é que antecede a alvorada

Numa altura em que estava a aprender a lidar com a dores, a procurar acolher a criança que fui, aceitando as minhas limitações e transformando as minhas visões da vida, para aprender a lidar os desafios que as minhas filhas me traziam a todo o momento, comecei a ler sobre parentalidade consciente e logo depois conheci a Disciplina Positiva, que imediatamente ressoou em mim e me fez tanto sentido face ao que procurava para educar as minhas meninas e ao mesmo tempo fortalecer o vínculo de amor que nos une.

Baseada nos ensinamentos da psicologia adleriana, Jane Nelsen desenvolveu o conceito de Disciplina Positiva como forma de educarmos e nos relacionarmos com as crianças, procurando um equilíbrio entre firmeza e gentileza, numa base de respeito mútuo.

A Disciplina Positiva fundamenta-se em cinco critérios:

  1. Ajuda a criança a sentir-se aceite, importante e capaz de contribuir,
  2. Encoraja o respeito mútuo,
  3. É efetiva a longo prazo,
  4. Ensina habilidades sociais e de vida,
  5. Ensina a criança a usar seu poder pessoal de forma construtiva e descobrir os seus talentos.

Ao invés de nos impormos à criança, usando métodos punitivos e controladores, a Disciplina Positiva desafia-nos a conquistá-las, tratando-as com dignidade e respeito, sendo um exemplo desses valores, e a confiarmos nas suas capacidades para cooperarem e contribuírem, orientando-as nas aprendizagens.

O importante nesta abordagem não é forçá-las a fazerem o que é correto, exigindo obediência, para exibirem uma conduta regida por fatores externos (punição ou recompensa), mas ensiná-las a olharem para dentro de si, refletirem sobre as atitudes e autoavaliarem os comportamentos, promovendo respostas conscientes e respeitosas, tanto quanto possível no presente, mas sobretudo com os olhos postos no futuro. Desta forma, a Disciplina Positiva ajuda a promover a autoestima da criança, visto que se procura desenvolver o lócus de controlo interno com base na empatia, ao invés de desenvolverem uma estima baseada em expectativas alheias.

Ao contrário do que acontece num estilo autoritário, em que quando a criança se porta mal, a tendência é fazê-la sentir-se mal para que se comporte bem, Jane Nelsen considera uma incongruência, uma vez que as crianças sentir-se-ão encorajadas a agir melhor e cooperar se sentirem que são ouvidas, que os seus sentimentos são validados e que há a preocupação de se entender a perspetiva delas e de as envolver na solução, em vez de as vermos como problemáticas, birrentas, irritantes ou tantos outros rótulos que lhes costumamos colocar.

Nesta abordagem há apego emocional (que é diferente de superproteção e permissividade). As necessidades das crianças são atendidas, mas são tidas em igual conta as necessidades dos adultos. As regras são responsabilidade de todos e definidas em conjunto sempre que possível, as soluções são o foco e, sempre que os pais precisarem de usar do seu discernimento para decidir algo, ao invés da agressividade e rigidez ou da manipulação com base em recompensas, utiliza-se a firmeza, gentileza, dignidade e respeito. Todas as emoções são aceites embora os comportamentos possam ser revistos para benefício mútuo.

Racionalmente todo o conceito me fez todo o sentido. Senti-me ainda mais encorajada porque não se trata apenas de uma abordagem teórica, mas antes uma metodologia assente em ferramentas práticas. A Disciplina positiva oferece dezenas de recursos para evitarmos cair na punição ou permissividade e a melhor compreendermos as nossas reações e os comportamentos das nossas crianças.

Para mim a Disciplina Positiva não te trata de um manual de instruções, ou sequer de uma receita que sigo à risca, até porque cada mãe é única e cada criança também e os erros são inevitáveis e até essenciais para o crescimento e evolução. Entendo a Disciplina Positiva como uma bússola que me orienta no meu caminho de mãe e me mantém presente e consciente da minha intenção nesta jornada.