Querem adultos saudáveis? Aposte-se na primeira infância

Primeira Infância

 

90% das sinapses neuronais são formadas até os 6 anos. Esta percentagem evidencia o quanto é importante cuidarmos da primeira infância (0 aos 6 anos), um período determinante para o saudável desenvolvimento físico, cognitivo e emocional de qualquer pessoa.

Logo desde a gravidez os cuidados básicos ao bebé revelam-se significativos, não só a nível físico – através das consultas regulares de acompanhamento, boa alimentação e evitando hábitos menos saudáveis – mas também emocional – começando a cultivar o vínculo com o bebé e cuidadado do bem-estar da mãe, que se refletirá em como a feto absorve as energias e as emoções.

Depois de nascer a evolução do cérebro do bebé acontece a um ritmo vertiginoso, criticamente influenciado por factores tais como: os relacionamentos, experiências vividas e meio ambiente em que cresce.

Nos primeiros meses o desenvolvimento da criança e as sinapses neuronais que edifica são fortemente impactados pelas interações que estabelece em primeira instância com a mãe, mas também com outros cuidadores, como o pai e pessoas mais próximas, sobretudo as incluídas no núcleo familiar.

À medida que vai crescendo, as relações que a criança estabelece expandem-se também a outros familiares, educadores, vizinhos e outras crianças que influenciam também a forma como se vê e perceciona o mundo. Quanto melhor a qualidade das interações que a criança tem neste período, melhor será a sua preparação para os desafios que enfrentará no futuro.

Para melhor compreendermos a importância crucial desta fase pensemos numa casa em construção. A primeira infância corresponderá à fase em que são construídas todas as fundações e estrutura-base que permitirá sustentar de forma segura e duradora paredes, telhado, janelas, portas, e todos os restantes acabamentos que serão incorporados ao longo da vida.

Estímulos adequados, vínculo e afeto são assim essenciais para que o processo de desenvolvimento pleno da criança e a sua arquitectura cerebral se construa de uma forma sólida, positiva e apta a superar dificuldades.

Com dois anos e não fala… Será preguiçosa?

otite

 

Com ano e meio ela dizia muito poucas palavras. ‘Pai’, ‘Mãe’ e pouco mais.

Aos dois mantinha um vocabulário muito limitado, mas em todos os indicadores mostrava um bom desenvolvimento e era muito autónoma. A pediatra sinalizou para observação dali a seis meses.

Entretanto aos dois anos e meio regressou para nova avaliação do desenvolvimento da fala. Continuava praticamente igual embora já tentasse dizer mais algumas palavras.

A pediatra recomendou fazer alguns exames – timpanograma e audiograma tonal –  e ser avaliada por um profissional da especialidade. Marcámos consulta com um otorrino pediátrico e percebemos finalmente o que se passava.

A L tinha afinal uma surdez de transmissão, também conhecida como otite serosa, que faz com que ela oiça como se estivesse debaixo de água.

Fez um tratamento durante um mês. Repetiu os exames mas os resultados não registaram alterações. A L é operada hoje para resolver este problema e depois, ouvindo com nitidez, poderá então reproduzir as palavras com clareza.

Durante este tempo o que me marca são os rótulos que, inclusive nós, tão facilmente lhe colocámos à conta deste atraso no desenvolvimento da fala.

Ela sempre foi tão desembaraçada e independente. Praticamente não precisava de pedir porque arranjava forma de ter o que queria, fosse pelo próprio pé, arrastando cadeiras ou trepando pelos móveis, ou através de uma espécie de mímica improvisada, mas que servia para ela se fazer entender.

Tantas vezes ouvimos, e nós mesmos inicialmente chegámos a dizer, que ela tinha era preguiça de falar. Também achámos que como via a irmã a comunicar tão bem, sempre tão eloquente, talvez tivesse optado por se destacar de outra forma.

Pensámos que podia ficar inibida por dizer mal as palavras porque sempre que a incentivávamos a dizer alguma coisa ou repetir ela retraía-se.

Afinal a nossa pequenina não era preguiçosa ou tímida. Habilmente, na verdade, arranjou maneira de contornar um problema que tinha e que fez com que este atraso não fosse identificado mais cedo ou acabasse por ser desvalorizado dado o seu desembaraço.

Serviu-nos esta vivência para sermos mais empáticos com os desafios que as nossas filhas apresentam e procurar ir um pouco mais além do que à primeira vista a situação nos sugere. Sairmos do modo julgamento e rotulagem para questionar e procurar acolhê-las e apoiá-las neste processo, seja ele condicionado por uma circunstância física ou de outra natureza, fortalece a forma como encaram os desafios e aprendem a superar as adversidades, acompanhadas ao invés de rotuladas.

Espero que a L tenha feito ouvidos de mercador aos comentários que foi ouvindo ao longo dos últimos meses. Olhando para ela, tão bem disposta e autónoma, até aqui a tagarelar ao jeito dela, creio que sim.