Inteligência Emocional

Incontornável! Esta é a obra que atribui a Daniel Goleman o título de “Pai da Inteligência Emocional”, fruto de anos e anos de pesquisa, de recolha e cruzamento de informação, de estudos, de várias conversas e entrevistas com investigadores e cientistas das mais diversas áreas.

Goleman popularizou o conceito de Inteligência Emocional definindo-o como “a capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos”, algo que mais do que o QI pode determinar o sucesso ou insucesso de cada indivíduo nas mais variadas esferas da sua vida.

Para este psicólogo e escritor, a quem devo toda esta aventura a que me dedico neste blogue, a Inteligência Emocional caracteriza-se por 5 habilidades:

Autoconhecimento – Capacidade de identificar as próprias emoções e sentimentos. Sem esta capacidade deixamos que as emoções nos controlem. Somos praticamente fantoches sem regulação ativa.

Autocontrolo – capacidade de gerir as emoções adequando à situação. Esta habilidade permite-nos lidar com o que sentimos, libertando-nos do piloto automático em que as emoções nos colocam. Não é que deixemos de sentir o que sentimos, simplesmente existe a capacidade de nos autorregularmos para respondermos à situação de forma adequada ao invés de reagirmos.

Auto motivação – capacidade que permite direcionar as emoções em prol de um determinado objetivo ou propósito. Esta auto motivação atenua o impacto da ansiedade e ouros emoções que bloqueiam a ação, potenciando os recursos necessários para mantermos o foco e o bem-estar até alcançar a recompensa que se idealiza.

Reconhecer as emoções alheias – capacidade de identificar as emoções dos outros e ter empatia pelo que sentem. A empatia assume um protagonismo determinante para construir relações significativas e duradouras.

Relacionamentos interpessoais – associada à capacidade de gerir, eficazmente as relações com outros por via do desenvolvimento de competências sociais.

Para Goleman estas são habilidades que todos nós podemos desenvolver e melhorar ao longo da vida, que podem e devem ser treinadas de forma a potenciar uma melhor saúde mental, melhores relacionamentos e um maior bem-estar social.

Ler este livro foi uma revelação para mim. Houve tanta informação que me fez tanto sentido. Dei por mim a dizer a cada página que lia Ahah! Então é por isto que… Realmente faz sentido que… Olha que interessante… Tanto se iluminou sobre mim, as pessoas que conheço, as relações que tenho, mas também sobre o tanto do que se passa e se vê pelo mundo. Numa altura em que me sentia emocionalmente perdida ajudou-me a perspetivar a vida de uma outra forma. A rever os meus pensamentos e atitudes. A perceber comportamentos de outras pessoas e o tanto que já se passou na minha vida.

Este foi o livro que me levou a querer partilhar este conhecimento e as minhas descobertas individuais com outras pessoas. Foi a semente de onde floresceu a vontade de criar o blogue para que esta partilha fosse possível, na esperança que me continue a motivar a procurar saber mais sobre estes temas, a aplicá-los na minha vida e inspirar outros a fazê-lo, num caminho que é menos solitário e é, sem dúvida, mais gratificante se for feito com companhia.

Sinopse

Daniel Goleman serve-nos de guia numa jornada através da visão científica das emoções de alguns dos mais confusos momentos das nossas próprias vidas e o mundo que nos rodeia. O fim da jornada é compreender o que significa trazer inteligência à emoção, e como fazê-lo: «Em “Ética a Nicómaco”, a investigação filosófica de Aristóteles sobre a virtude, o carácter e a boa vida, o desafio que ele nos faz é gerir a nossa vida emocional com inteligência. As nossas paixões quando bem exercidas têm sabedoria. Guiam o nosso pensamento, os nossos valores, a nossa sobrevivência. Mas podem facilmente desgovernar-se e fazem-no com frequência. Tal como Aristóteles bem viu, o problema não é a emocionalidade, mas no sentido da emoção e das expressões. A questão é: como trazer inteligência às nossas emoções, e civismo às nossas ruas e solicitude à nossa vida em comunidade?»

Boas leituras!

Como reage o nosso corpo às emoções?

reações do corpo

Desde tempos ancestrais o nosso cérebro emocional, desencadeando determinado tipo de reações face à situação com que nos confrontamos, tem-nos permitido sobreviver e prosperar enquanto espécie.

O facto de hoje estar a escrever este texto e de o poderem ler é muito mérito dos nossos mais longínquos antepassados que passaram as passas do Algarve para nos fazerem chegar aqui. Ora eram os predadores, as secas ou outras intempéries fatais, ou então a fome, os acidentes, as maleitas e outros incómodos que tais. Certo era que chegar aos 30 anos era uma proeza há uns bons milhares de anos. Com o advento da agricultura, acomodámo-nos às regiões onde nos instalámos, construímos abrigos, aprendemos a defendermo-nos das feras, e a partir daí foi ver a esperança média de vida a aumentar, aumentar, aumentar, até à referência dos nossos dias.

É certo que hoje já não nos deparamos com as condições inóspitas de outras eras, mas, pelo sim, pelo não, os nossos antepassados certificaram-se em registar nos nossos genes a informação necessária para que perante determinadas circunstâncias estejamos aptos a reagir no modus operandi que garantiu até aqui a sobrevivência da espécie. Em estratégia que ganha não se mexe, não é verdade? E por isso, quer se queira quer não, o nosso cérebro emocional (que antecede o desenvolvimento do nosso cérebro racional), dotado do seu canivete suíço das emoções, continua a prevalecer quando enfrentamos situações mais complicadas ou decisivas.

Mas o que foi à luz da época uma vantagem evolutiva pode ser hoje uma enorme dor de cabeça.

É por isso que sabermos identificar o reportório de emoções que existe em nós, como se formam e se manifestam, é o primeiro passo para estarmos aptos a treinar a autorregulação e prevenir ‘finais’ infelizes.

Apesar de não ser consensual e ser uma área ainda em exploração por investigadores da área da psicologia e neurociências estas são mais algumas das emoções básicas e as suas reações biológicas/fisiológicas que Daniel Goleman descreve em ‘Inteligência Emocional’:

Ira – Faz aumentar o ritmo cardíaco, subir os níveis de adrenalina gerando uma onda de energia vigorosa e faz o sangue fluir para as mãos. Há milhares de anos foi crucial para nos defender e mesmo abater feras que nos ameaçavam – ainda hoje assim o é. Mas quando a ira se apodera nos dias de hoje de um adulto que perde a  numa discussão ou de um jovem ou adolescente que se altera por se sentir injustiçado ou marginalizado, esta emoção faz estragos dramáticos que com regularidade nos chegam através dos meios de comunicação social.

Medo – Para permitir a fuga o sangue flui para os grandes músculos esqueléticos mas o rosto empalidece por causa da perda de fluxo sanguíneo (o que provoca também a sensação de frio). O corpo imobiliza-se por um breve momento para ter tempo de decidir se foge ou se se esconde. O corpo fica tenso por via das hormonas que o colocam em alerta geral enquanto a atenção se foca na ameaça. Algo engraçado que trazemos ainda nos genes é o facto de ficarmos em alerta sempre que ouvimos o som ‘Pssssstttttttttt’. Recorda-nos o sibilar de uma cobra, nossa arqui-inimiga de longos tempos.

Bem-estar – Desencadeia-se uma atividade acrescida de um centro do cérebro que inibe sentimentos negativos e favorece um aumento de energia que predispõe a desempenhar tarefas e perseguir objetivos. Sentimos um estado de calma que faz o corpo recuperar mais rapidamente da agitação provocada pelas emoções perturbadoras.

Amor – Em contraposição ao medo e ira que nos mobilizam para uma reação “luta-ou-fuga”, esta emoção provoca uma excitação parassimpática, uma resposta de relaxamento. Gera um estado geral de calma, contentamento e facilita a cooperação.

Surpresa – Para aumentar o acesso à informação arqueamos a sobrancelha, o que permite o alargamento do campo visual e entrada de mais luz na retina.

Repulsa – É uma expressão igual em qualquer parte do mundo. O lábio superior fica repuxado para o lado e o nariz levemente franzido. Segundo Darwin esta seria uma tentativa de tapar as narinas contra o odor ofensivo ou de cuspir o alimento venenoso.

Tristeza – Ajuda a adaptarmo-nos a uma perda significativa, como a morte de alguém querido ou um grande desgosto. Aporta uma quebra de energia e de entusiasmo. À medida que se acentua e aproxima da depressão abranda o metabolismo do corpo. Dada a vulnerabilidade do momento esta perda de energia, que nos permite processar o sucedido e avaliar as consequências, seria útil aos nossos antepassados primitivos para que se mantivessem nas proximidades de lugares que lhes eram familiares e onde estariam mais seguros.

As emoções são preponderantes no rumo que as nossas vidas levam. A maior parte das vezes, na idade adulta, o nosso cérebro emocional e o racional tendem a trabalhar harmoniosamente em conjunto para nos dotar do máximo de recursos para tomarmos as melhores decisões. Mas é o cérebro emocional que continua, para o bem e para o mal, em momentos de tensão, a ganhar no braço de ferro emoção vs razão, porque é a ele que cabe o papel de guardião primordial da nossa sobrevivência. Está gravado nos nossos genes. É ele que recebe, analisa e primeiro decide sobre a informação que recebe do exterior, emitindo, se entender motivo para tal, sinais de emergência para vários circuitos de resposta automática do nosso corpo, e em última instância pode mesmo bloquear a passagem da informação à área pensante. Se entender que uma situação, pessoa, animal ou objeto nos pode fazer mal ou colocar em perigo funciona imediatamente como um detonador neuronal, ativando todos os centros de ação que considerar necessários para nos defender e anulando outros.

O nosso cérebro emocional é muito bem intencionado, mas tem rastilho curto e tem tendência a ferver em pouco água à mínima perturbação. Não o interpretem mal. Levou milhares de anos a perceber o que funcionava para nos proteger de cenários fatais à nossa existência. Contudo, não tem conseguido fazer todas os updates necessários para adequar a resposta ao contexto da vida moderna, que como sabemos altera a realidade da nossa vivência enquanto espécie a um ritmo vertiginoso. Na impossibilidade de acompanhar este ritmo, continua muitas vezes a recorrer a estratégias da idade da pedra. Resta-nos a consciência dos processos que se desenrolam em nós, a observância das nossas reações, bem como uma educação para as emoções que nos permite avaliar , autorregular e treinar para respostas mais adequadas.

Uma lagosta em burnout e a sua renovação

Burnout

 

Era uma vez uma lagosta…

Hummmm… Ia começar pela história da lagosta mas fará mais sentido começar por parte da minha história e sobre como vivi o síndrome de burnout. Mais tarde voltamos à lagosta e tudo fará mais sentido (prometo!).

Há dois anos, por esta altura, recebi indicação da minha obstetra que tinha de ficar de repouso até a L nascer. A minha pequenina nasceu em junho. Passei as primeiras semanas da baixa a sentir-me desenquadrada. Até então – fora a licença de gravidez da B – contavam-se pelos dedos da mão os dias em que fiquei por casa, por indicação médica. Quando estamos habituados às exigências e rotinas do trabalho, é difícil desligar, mas passadas umas semanas finalmente desliguei e liguei-me à minha bebé e à minha família, e foram meses muito bem vividos.

Passado um ano o dilema era outro. Já de regresso à ‘vida ativa’ após a licença, mas ainda com horário reduzido de amamentação, comecei a contar o tempo (ou a ver esfumar-se o tempo) para o momento em que haveria de voltar a trabalhar a ‘tempo inteiro’.

Mãe de uma bebé de poucos meses e de uma menina de 4 anos, sempre a sair de casa por volta das 7h30 para as deixar na ama e na escolinha e seguir para o trabalho, custava-me pensar que daí a pouco tempo deixaria de as ir buscar por volta das 17h30. Ao invés, passaria a chegar a casa já só pelas 19h30.

A perspetiva, de estar praticamente 12h00 fora de casa, de as deixar entregues a outros cuidados que não os meus, numa espécie de ‘institucionalização’ forçada, era uma violência e deixava-me psicologicamente de rastos.

Insistentemente pensava que não tinha sido mãe para que outros educassem as minhas filhas, para que outros assistissem às suas conquistas do dia-a-dia, rissem com elas, enxugassem as suas lágrimas, as apoiassem em cada nova aprendizagem, lhes dessem resquícios de amor que por completo só eu poderia dar… Enquanto eu, longe, lastimava tudo aquilo que perdia e culpava-me por não estar presente no papel que mais me competia e que tanto queria abraçar.

As semanas foram passando e a angústia aumentava. À culpa e tormento que me esmagava o peito e me engolia as palavras que não conseguia expressar, mas que ocasionalmente à noite se transformavam em lágrimas que me tomavam quando finalmente deitava a cabeça na almofada, juntava-se a exigência constante de todos os dias cumprir com o que achava ser esperado de mim:

  • ser a melhor mãe para que elas, no pouco tempo útil que tinham comigo, me sentissem presente e incondicionalmente disponível e, assim, talvez se apagassem das suas memórias as horas de distância;
  • ser uma esposa carinhosa e atenta, porque o amor, aprendi, deve ser cultivado dia-a-dia e faz-se dos pormenores, dos carinhos, das partilhas e das atenções… mas tinha a cabeça numa roda viva e o coração num constante sobressalto;
  • ser uma profissional assertiva, criativa e produtiva, sempre pronta para um desafio e que prima por ter a check list de tarefas completa ao fim do dia e clientes satisfeitos, para acalentar a ilusória satisfação do dever cumprido;
  • manter a casa limpa e arrumada, roupa engomada, papelada organizada, frigorífico e despensa onde nada falte, almoços e jantares adiantados, contas em dia, orçamentos planeados,… toda a estabilidade que me faltava interiormente;
  • ser a irmã que ouve e aconselha e também a filha que cuida, apoia e trata das burocracias e chatices que com o tempo eles deixaram de conseguir acompanhar, não sabem como fazê-lo ou acham que a filha tem mais disponibilidade (afinal está o dia todo sentada a um computador…);
  • a amiga que não esquece e aproveita aqueles minutinhos da hora de almoço ou viagem para casa para ligar e combinar o lanche ou almoço que há meses se está para marcar, se houver tempo…

E, como se não bastasse…

  • ter uma imagem irrepreensível e adequada, mesmo que a depilação, as sobrancelhas, o cabelo, as unhas, a maquiagem, as roupas, sapatos e adereços, fossem as últimas das minhas prioridades.

 

Sentia-me impotente por tanto tentar e não conseguir ser a mãe, mulher, esposa, irmã, filha, amiga, profissional, whatever… tudo aquilo que ‘tinha’ de ser. Eu já não sabia quem era, nem o que podia dar, embora exteriormente, tudo parecesse igual ao que sempre foi.

Como seria de esperar, sentia a minha cabeça num frenesim imparável. Até o corpo se manifestava com dores de cabeça, pescoço e costas e fiquei mais magra. Andava stressada, nervosa, ansiosa e irritadiça. Temi que a curto prazo me passasse de vez. Cheguei a desabafar com o meu marido, a minha irmã e, eventualmente, alguma amiga mais próxima a asfixia em que me sentia. Os ombros de apoio sempre estiveram disponíveis mas eu continuava a sentir-me desamparada, sem saber como resolver esta angústia interminável e simplesmente… parar.

Por mim, de forma incontrolável, desfilavam os ‘muitos’ que precisava de gerir: muitas obrigações, muitas solicitações, muito trabalho, muita culpa, muita ansiedade, muito cansaço… Ao mesmo tempo escasseava o tempo, a paciência, a energia, o foco e o discernimento para conseguir aligeirar o dia-a-dia e recuperar a paz de espírito. Demasiadas variáveis para uma só pessoa controlar.

Na altura eu não sabia mas hoje, observando bem, acredito que sofria do síndrome de burnout (embora não clinicamente diagnosticado).

Esta forte inquietação levou-me a questionar o que teria de fazer para me reencontrar, aligeirar esta angústia existencial, valorizar a vida e o que de bom me dá, minimizar as contrariedades e aceitar, com serenidade, tudo o que não podia mudar.

Confesso que ler para mim sempre foi uma forma de me recentrar e encontrar as respostas pelas quais procuro. Em determinadas alturas dou por mim a fazer uma espécie de ‘livroterapia’ e creio que resulta.

Foi nessa altura que comecei a ler ‘Inteligência Emocional’ de Daniel Goleman, que me fez vislumbrar a vida e forma como lidava com as minhas emoções e tudo o que me acontecia e rodeava sob uma transformadora perspetiva, um olhar renovado, embora também já tivesse lido alguns livros de Augusto Cury onde encontrei igualmente uma janela de oportunidade para controlar esta demanda das emoções em autogestão. Mas esse momento foi de facto revelador para mim.

Impulsionou-me a querer compreender mais e a empreender para me dar a mim e aos meus uma melhor qualidade de vida. Entender os processos mentais por detrás das minhas escolhas, dos meus medos, das minhas angústias, das depressões e ansiedades que velam sorrateiramente a mente, mas também do que me alegra, entusiasma e estabiliza. Mas fez-me também perceber que tinha um longo caminho pela frente e que era essencial cuidar de mim para conseguir cuidar de todos aqueles que de alguma forma esperavam algo de mim.

Enquanto aprofundava o tema e colocava em prática algumas dicas que aqui e ali fui apanhando, o conceito de uma prática Mindfulness (atenção plena) foi surgindo com frequência. Ocorreu entretanto ter assistido a uma entrevista da Mikaela Övén e, em pesquisa, ter encontrado um curso online que ela orienta. Com a flexibilidade e mobilidade que me permitia, decidi avançar. De lá para cá, em cerca 8 meses, muito mudou em mim e na forma como me vejo e perspetivo a vida e o mundo, como me relaciono com os outros e como deixei de ver tudo tão a preto e branco, a ferro e fogo.

Continuo a trabalhar no mesmo sítio. Saio cedo e chego tarde a casa, na generalidade dos dias as mesmas 12 horas fora, mas estou a aprender a priorizar e valorizar o que realmente importa na minha vida e a tornar o tempo disponível em momento mágicos e preciosos, com um mínimo de desperdício possível.

Procuro julgar menos, ser mais paciente, confiar mais e resistir menos. Tento um pouco mais todos os dias viver com mais desapego e ter uma visão renovada perante o que surge e me rodeia, aceitando a vida tal e qual ela é, sendo grata e retribuindo a sua generosidade.

Muito recentemente dei mais um passo importantíssimo nesta caminhada por me reencontrar e trazer à minha vida um sentido e um legado, coerente com a pessoa que sou e com a mãe que procuro ser.

Porque acredito verdadeiramente que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo e que o que importa não é o que um dia deixarei para os outros mas o que deixarei nos outros, aventurei-me na Certificação Educação Parental em Disciplina Positiva (da Positive Discipline Association) conduzida por Fernanda Lee, com o apoio do GAIP (Mafra). Uma vez mais dei por mim a perceber o quanto as inquietações e os questionamentos interiores que vivemos podem ser enriquecedores e reveladores. Confrontei-me com as minhas fragilidades e crenças mas também me tornei mais consciente em relação ao quão forte pode ser o poder da empatia e de uma educação positiva na construção de uma pessoa que possa de facto construir para tornar este mundo num lugar melhor, ao invés de repetirmos insistentemente padrões obsoletos e destrutivos.

Agora que me sinto complemente desconstruída, é também hora de começar a construir. Começo por casa, em família, e depois logo se vê.

Em retrospetiva percebo que todas as dores pelas quais passei me ajudaram a superar a pessoa que era então e tornar-me um pouco mais completa e mais realizada, uma melhor versão de mim mesma.O que me leva à pergunta que se impõe: mas onde é que entra a lagosta nesta história?

Pois é, a dada altura percebi que na vida somos como a lagosta que à sua maneira também sofre de burnout:

A lagosta é um animal com um corpo mole envolto numa casca dura. No processo de crescimento, ao sentir-se desconfortável e sob pressão na sua casca – que não se expande, mas que lhe garante a proteção – a lagosta resolve, por força dessa dor que sente, esconder-se por detrás das rochas, despir-se da antiga casca e produzir uma nova.

Da dor que sente resulta a emergência da mudança que a faz adaptar-se de uma forma mais harmoniosa e plena às circunstâncias em que vive.

A parte desafiadora é que de novo, quando crescer mais, a lagosta voltará a sentir-se apertada, sob pressão, e todo o processo se repete, numa constante evolução e renovação.