O que podemos aprender e ensinar com os erros?

Erros

 

Na semana passada publiquei um artigo sobre um episódio do qual não me orgulho, um daqueles erros que nunca queremos que aconteçam, mas que inevitavelmente acontecem com muitos pais por esse mundo fora.

Muitas das reações que tive foram de pais que se identificaram e que lamentavam esses erros de momento, sentindo-se culpados e envergonhados por terem não respondido de outra maneira, por não conseguirem ter maior autocontrolo.

Há algumas ideias que considero importantes retermos:

Senão todos, pelo menos diria que a grande maioria dos pais faz o melhor que pode e sabe a cada momento. Por mais conscientes e positivos que sejamos, há sempre momentos em que erramos. Mesmo com todo o conhecimento, recursos e boas intenções do mundo, nem sempre vamos agir de forma adequada e ponderada.

Calha que tivemos um dia complicado, não andamos a descansar o suficiente, discutimos com alguém, estamos doentes, surgiu um imprevisto para resolvermos que nos está a stressar, está a acontecer alguma mudança na nossa vida,… Enfim, muitas vezes situações deste género são o suficiente para a nossa autorregulação ir pelo cano abaixo e sermos naquele momento os pais que não queremos ser. Então falamos de forma menos respeitosa, ficamos alheados, gritamos, punimos, etc…

Afinal, somos seres emocionais. De vez em quando as emoções pregam-nos a partida de nos tomarem de assalto e perdemos o controlo da situação. Num ápice se instala-se o caos que, conscientemente, não teríamos escolhido.

É nesta altura que devemos cultivar a autocompaixão e a responsabilidade (vs culpa), assumindo que algo fez acionar aquele gatilho em nós, e que, por norma (tal como acontece com os nossos filhos quando se comportam mal), deve-se a uma ou mais necessidades não atendidas que carecem da nossa atenção e ação.

Assumir a responsabilidade por regular as nossas emoções, responder às nossas necessidades físicas e emocionais e reconhecer o que podemos fazer para reparar o nosso erro é algo imprescindível para retirar algo de positivo dos momentos em que estivemos menos bem.

Será bom também lembrar que a forma como nós lidarmos com os erros nossos e dos nossos filhos será provavelmente indicador da forma como eles lidarão com os seus erros e os dos outros no futuro. Não se trata apenas do exemplo que damos, mas tem também a ver com o facto de enquanto filhos interiorizarmos desde da mais tenra idade as mensagens que os nossos pais transmitem. Enquanto adultos essas mensagens que ouvimos passam a a atuar (inconscientemente) como a nossa voz interior.

Costuma-se dizer que errar é humano. E eu diria que errar é inevitável e, como tal, se naquele momento não fomos os pais que gostaríamos de ter sido porque não ver o erro como uma oportunidade para aprender e não como algo que utilizamos para nos martirizarmos, acrescentando mais sofrimento, culpa e vergonha?

Esta mudança de perspectiva não só faz toda a diferença na forma como lidamos com a situação a partir daí como é altamente empoderadora porque nos mostra que é a na nossa imperfeição que reside a nossa oportunidade de melhoria constante a todos os níveis. Que seria se fossemos seres completamente acabados. Seria um tédio.


3 R’s da Recuperação dos Erros

É certo que ninguém gosta de errar, muito menos de magoar alguém e se podermos não o fazer tanto melhor. Mas quando erramos e magoamos alguém sugiro que apliquem, e ensinem também aos vossos filhos, os 3 R’s da Recuperação dos Erros:

RECONHECER | Não estive nada bem nesta situação.

Reconheça o erro com um sentimento de responsabilidade em vez de carregar culpa.

A responsabilidade impele-nos à ação. A culpa à lamentação.

RECONCILIAR | Peço-te desculpa.

Verão que as crianças são muito generosas a dar-nos o seu perdão. Para além de que estaremos a ensinar o valor da humildade e integridade de assumirmos os nossos erros.

REPARAR | Podemos procurar juntos uma solução para o que aconteceu, que te parece?

Não vale a pena remoer sobre o que aconteceu. Aprenda e ensine a focar nas soluções e a cooperarem para alcançar um entendimento assente no respeito mútuo.


Pensar que nós (ou os nossos filhos) temos de ser perfeitos é afastarmo-nos da vida plena que queremos viver. Não se vive autenticamente o amor e alegria se não se souber assumir a dor que os erros nos trazem. Só isso nos permite crescer conscientemente juntos, reforçando competências que nos fortalecem como seres humanos e enriquecem as nossas relações.

 

Presta atenção! Há sempre alguém que precisa de um abraço.

abraço

 

Temos de prestar mais atenção a quem nos rodeia, seja próximo, conhecido ou não.

Deparei-me com este vídeo do movimento #SmallTalkSavesLives e recordei-me que há bem pouco tempo descia no elevador para a plataforma do metro. Uma rapariga desceu no elevador comigo. Encostada num canto, procurando passar despercebida, vi-a tentar esconder a tristeza ou a angústia que a consumia. Tinha os olhos rasos de lágrimas que teimava em não deixar verter.

O elevador parou. Saí e ela também, atrás de mim. Dirigi-me para a plataforma, mas não ia em paz. Afinal, eu vi aquela expressão. Eu vi aquelas lágrimas desesperadas por caírem e sem saberem como o fazer. Talvez não caíssem por vergonha do que alguém poderia pensar de quem chora num sítio público, perdida no desamparo de quem passa e finge não ver, ou até se incomoda pela exposição das lágrimas alheias.

Parei. Regressei para junto da rapariga que andava lentamente, e então deixava cair uma ou outra lágrima, porque terá pensado que ninguém repararia.

Abordei-a:

Desculpe… Precisa de alguma coisa?

Surpreendida e algo envergonhada, respondeu:

– Não… Está tudo bem…

Acho que todos nós conhecemos esse ‘está tudo bem’… Já o dissemos em algum momento em que tínhamos um nó na garanta, um aperto no coração, que não conseguindo desamarrar, mas procurámos ocultá-lo com estas palavras, talvez para tentarmos resolver mais tarde, a sós com os nossos botões. Alguns seguiram satisfeitos com esta resposta, pensando que fizeram o que podiam. Outros ficaram e procuraram confortar do jeito que lhes era possível ou permitido.

Eu fiquei e perguntei:

Posso dar-lhe um abraço?

Porquê?!…

– Sinto que precisa de um abraço… Posso?

Entre lágrimas abriu-se um sorriso de surpresa e talvez de alguma esperança reencontrada também.

Sim, pode…

E foi um abraço longo o suficiente e apertado qb para que ela sentisse que, ainda que eu fosse uma estranha, vinda sabe-se lá de onde, seguindo para onde quer que fosse, há sempre alguém que se importa, há sempre alguém que nos vê, há sempre alguém que nos diz, mesmo num murmúrio quase abafado naquele abraço inesperado:

Não sei o que se passou, mas seja lá o que for, tudo passa e tudo há-de ficar bem. Força!

Antes de regressar ao meu caminho, deixei-a com mais um sorriso de compadecido que ela calorosamente me retribuiu também, com um Obrigado sussurrado.

Não sei que caminho ela seguiu. Eu de alguma forma segui mais em paz no meu caminho, porque parei e me importei com aquela pessoa que sofria e dei o que pude e me foi permitido. Não sei se foi muito ou pouco. Não sei até que ponto fez diferença. Mas sei que parei. Saí de mim para ver o outro, sentir o que reprimia. Dei um pouco de mim e espero, de coração, ter ajudado.

 

Partilho este episódio porque acredito que todos nós podemos, a todo o momento, parar e ver-nos sem julgamentos, sem preconceitos, sem pudores, sem armaduras ou máscaras. Podemos simplesmente parar e confortar. Sem esperar nada em troca. Apenas sendo o melhor que podemos ser. Sendo a humanidade que não passa indiferente, mas que se importa e acolhe, nem que seja num simples abraço.

 

@ Imagem campanha #smalltalkssaveslives