Presta atenção! Há sempre alguém que precisa de um abraço.

Presta Atenção

 

Temos de prestar mais atenção a quem nos rodeia, seja próximo, conhecido ou não.

Deparei-me com este vídeo do movimento #SmallTalkSavesLives e recordei-me que há bem pouco tempo descia no elevador para a plataforma do metro. Uma rapariga desceu no elevador comigo. Encostada num canto, procurando passar despercebida, vi-a tentar esconder a tristeza ou a angústia que a consumia. Tinha os olhos rasos de lágrimas que teimava em não deixar verter.

O elevador parou. Saí e ela também, atrás de mim. Dirigi-me para a plataforma, mas não ia em paz. Afinal, eu vi aquela expressão. Eu vi aquelas lágrimas desesperadas por caírem e sem saberem como o fazer. Talvez não caíssem por vergonha do que alguém poderia pensar de quem chora num sítio público, perdida no desamparo de quem passa e finge não ver, ou até se incomoda pela exposição das lágrimas alheias.

Parei. Regressei para junto da rapariga que andava lentamente, e então deixava cair uma ou outra lágrima, porque terá pensado que ninguém repararia.

Abordei-a:

Desculpe… Precisa de alguma coisa?

Surpreendida e algo envergonhada, respondeu:

– Não… Está tudo bem…

Acho que todos nós conhecemos esse ‘está tudo bem’… Já o dissemos em algum momento em que tínhamos um nó na garanta, um aperto no coração, que não conseguindo desamarrar, mas procurámos ocultá-lo com estas palavras, talvez para tentarmos resolver mais tarde, a sós com os nossos botões. Alguns seguiram satisfeitos com esta resposta, pensando que fizeram o que podiam. Outros ficaram e procuraram confortar do jeito que lhes era possível ou permitido.

Eu fiquei e perguntei:

Posso dar-lhe um abraço?

Porquê?!…

– Sinto que precisa de um abraço… Posso?

Entre lágrimas abriu-se um sorriso de surpresa e talvez de alguma esperança reencontrada também.

Sim, pode…

E foi um abraço longo o suficiente e apertado qb para que ela sentisse que, ainda que eu fosse uma estranha, vinda sabe-se lá de onde, seguindo para onde quer que fosse, há sempre alguém que se importa, há sempre alguém que nos vê, há sempre alguém que nos diz, mesmo num murmúrio quase abafado naquele abraço inesperado:

Não sei o que se passou, mas seja lá o que for, tudo passa e tudo há-de ficar bem. Força!

Antes de regressar ao meu caminho, deixei-a com mais um sorriso de compadecido que ela calorosamente me retribuiu também, com um Obrigado sussurrado.

Não sei que caminho ela seguiu. Eu de alguma forma segui mais em paz no meu caminho, porque parei e me importei com aquela pessoa que sofria e dei o que pude e me foi permitido. Não sei se foi muito ou pouco. Não sei até que ponto fez diferença. Mas sei que parei. Saí de mim para ver o outro, sentir o que reprimia. Dei um pouco de mim e espero, de coração, ter ajudado.

 

Partilho este episódio porque acredito que todos nós podemos, a todo o momento, parar e ver-nos sem julgamentos, sem preconceitos, sem pudores, sem armaduras ou máscaras. Podemos simplesmente parar e confortar. Sem esperar nada em troca. Apenas sendo o melhor que podemos ser. Sendo a humanidade que não passa indiferente, mas que se importa e acolhe, nem que seja num simples abraço.

 

@ Imagem campanha #smalltalkssaveslives

Olho por olho e acabamos todos cegos

 

Porque é que quando confrontados com uma maldade, uma ingratidão ou injustiça tendemos a dar o pior ao invés do melhor de nós?
Estava um dia destes sentada no autocarro, que estava prestes a sair da gare, já de porta fechada, pronto a arrancar, quando um senhor aparece a bater à porta. O motorista abre-a. O senhor entra, mas reclama que está em cima das 19h00 (hora de saída) e que não devia estar já a sair quando há pessoas a chegar que depois terão de aguardar pelo próximo autocarro. O motorista, visivelmente chateado, porque pelo menos esperava um ‘Obrigado’, responde que ainda parou para que ele pudesse entrar, mas se estava a reclamar da próxima não parava. Aliás, não iria parar para mais ninguém. Gera-se um pequeno bate-boca concluído pela tão típica sentença “por uns pagam os outros“.
Situações destas repetem-se em vários contextos. Quando sentimos a ingratidão fechamo-nos no nosso ego ofendido, em vez de mostrarmos que independentemente do que o mundo nos faz a nossa boa essência tem a capacidade de se manter e continuamos a agir em conformidade, não com a situação, mas em sintonia com o melhor que podemos ser. Conseguimos responder com compaixão e gentileza. Até porque, convenhamos, as respostas dos outros, independentemente se nos são dirigidas, são responsabilidade do outro, não nossa. A psicologia Adleriana fala a este nível da necessária separação de tarefas, que me parece imprescindível para cuidarmos da nossa paz de espírito.
Acredito que esta forma de estar é o que torna também a nossa vida mais leve e o nosso coração tranquilo. Na verdade, ao agirmos assim, não estamos a ser fracos ou parvos (como muitos pensarão). Estaremos a ser compassivos e justos connosco próprios, a defendermo-nos das agressões que nos puxam para baixo, para o lodo em que muitas vezes se transformam as nossas relações intra e interpessoais. Responder a provocação com provocação, agressividade com agressividade, e por aí adiante, não traz nada de bom. Alguém nos ofende e nós respondemos e a guerra instala-se. Ping-pong de respostas alternadas na esperança cega de se ficar com a última palavra e com a razão. Há alguém que saia bem desta disputa de egos? Entre mortos e feridos ninguém se salva porque se perderam logo no instante em que optaram por ripostar ou invés de fazer jus ao melhor de si.
Não quero com isto dizer que se alguém nos ofende ou é injusto connosco não devamos dar conta disso e, eventualmente, precavermo-nos para próximas situações, mas não precisamos de nos deixar arrastar para o tipo de pessoa que não gostaríamos de ser, às vezes tornando-nos no reflexo do que o outro é, de tão cego que é o desejo de nos sobrepormos. A todo o instante podemos e devemos fazer a escolha de sermos o melhor que podemos ser, mesmo com quem achamos que não o merece. É que se ao menos não for pelos outros, que o seja por nós.
Agora até me podem perguntar: Consegues agir sempre com esta elevação? Não. Confesso que é um enorme desafio. O meu instinto, tal como de qualquer pessoa, é o de responder na mesma moeda, e às vezes acabo por fazê-lo. Mas, em consciência, procuro fazer o esforço para me policiar e fazer diferente mesmo quando o impulso é outro.
Há uma célebre frase de Gandhi que diz:
Olho por olho e acabamos todos cegos.
E é assim que penso. Até porque o mundo nos traz demasiadas mostras de como esta realidade funciona. E não é bonito, nem justo. É muito sujo na verdade.
Foi em tudo isto que fiquei a pensar quando o autocarro partiu e o motorista lá continuava a ruminar o sucedido e a ‘ingratidão’ que tanto o ofendeu. Fiquei com pena por ver o como é fácil deixarmo-nos afundar nesta lama de ressentimentos e injustiças, sem conseguirmos resgatar a leveza que traz paz ao coração.