Assim e Assado, Não Passes ao Lado

A B gosta muito de ler, disse-me uma auxiliar quando num dia destes a fui deixar na escolinha e com ela levava, para ler na sala com os amigos, este ‘Assim e Assado, Não Passes ao Lado’.

Anteriormente uma outra auxiliar já me havia abordado elogiando os livros que a B levava para escola, e nesse momento tivemos uma conversa sobre o porquê de termos lá por casa uma especial atenção aos conteúdos dos livros que lhes compramos.

Na verdade, não compramos um livro ao acaso, só porque tem figuras giras e elas pedem. Os livros não são baratos e não gosto de sentir que estou a desperdiçar tempo e dinheiro com algo que pouco lhes acrescentará. Toda a intenção conta quando o propósito é o de educar os nossos filhos. Sempre que compramos livros, sentimos que é um investimento que fazemos. Procuramos avaliar a mensagem a transmitir. Se é adequada. Se o livro está bem redigido. Se está alicerçado em valores com que nos identificamos e queremos enraizar. Tudo, isto porque entendemos que os livros podem de facto ser preciosos investimentos, ótimos veículos de ensinamentos para a vida e grandes aliados na construção das pessoas que aspiramos que as nossas filhas venham a ser.

Por esta razão, é habitual demorar tempos e tempos nas livrarias para escolher um livro, e sempre que posso faço em conjunto com as minhas filhas, explicando o porquê de se dever optar por um e não por outro. Acredito que tal como tento tomar especial cuidado à comida que ingiro, e no supermercado avalio os ingredientes e composição nutricional dos produtos, considero que os conteúdos funcionam de forma semelhante para a nossa mente. Se não como qualquer porcaria (por norma), nem quero que as minhas filhas se alimentem com algo que sei que não é nutritivo, porque hei-de deixar ao descaso os conteúdos que lhes alimentam a mente. Nesta frente, às vezes já bem basta os desenhos animados que elas veem e aos quais nem sempre conseguimos estar tão atentos quanto gostaríamos.

Por todos estes motivos (e outros mais), no que a livros diz respeito, somos particularmente criteriosos.

Este livro em específico foi levado à anterior escolinha da minha filha numa apresentação da editora Alfarroba.

Das duas histórias escritas em versos que o livro tem, da autoria de Maria Conceição Areias, com ilustrações de Tânia Bailão Lopes, a que a B mais gosta é a do Rodrigo, um menino com perfil de bullie e de como, em contexto escolar, nomeadamente com a ajuda da própria vítima, ele consegue ajuda para canalizar para atividades positivas e saudáveis a sua agressividade.

A outra história, embora um pouco mais ‘abstrata’, é igualmente valiosa no sentido de perspetivar desde o princípio ao fim da vida numa abordagem infantil. Lembro-me de lhe ter lido esta história numa altura em que o avô tinha tido uma situação de saúde um pouco mais grave e esperava para ser operado.

Assim e Assado, Não Passes ao LadoSINOPSE

Livro de rimas composto por dois textos:

«O Rodrigo mata e esfola, é o terror lá da escola»; pretende retratar os agentes de bullying, agressor e vítima, relatando uma história passada na escola.

«Do começo até ao fim e, pelo meio, assim assim»; pretende familiarizar a criança com o nascer, o crescer e o morrer; temas sempre difíceis de explicar, mas que fazem parte da vida.

O inestimável valor de cada pessoa

De manhã bebia um café num quiosque junto à entrada do metro, antes de seguir para um novo dia de trabalho. Enquanto isso a rapariga da caixa ajeitava uma série de notas de 10 euros. Demorou-se numa. Queixou-se que o cliente lhe tinha entregue a nota amarrotada e que era uma chatice porque não ficava direita como as outras. Disse-lhe tão simplesmente:
– Vale tanto como qualquer uma das outras que tem na mão.
Valeu-me o reparo um breve sorriso do outro lado, o qual retribui.

Este episódio recordou-me de imediato uma história que li, em tempos, algures online, acerca de um professor espanhol que procurou ensinar aos seus alunos o valor inestimável que tem qualquer vida humana, no caso, por ocasião do Dia Mundial de Combate ao Bullying.
No seu Instagram relatou assim o momento:

Hoje disse aos meus alunos: “Quem quer esta nota?” E todos a queriam.
Depois, amarrotei-a, atirei-a ao chão, pisei-a e disse-lhe que era inútil, que não valia nada e que me dava pena vê-la. Voltei-lhes a perguntar se a queriam e todos diziam que sim.
Então expliquei-lhes que esta nota era cada um deles. E que quando se insultam, menosprezam, e se tratam mal, jamais perdem o valor que de verdade têm, tal como a nota de 50 euros, mesmo que a pise e a amarrote.
A ideia não é minha, mas surpreendi-os com uma reflexão tão simples como vital no seu crescimento. Que nunca permitam que nada os faça sentir menos que nada.

O bullying é de facto uma realidade para a qual importa estar alerta e intervir, idealmente de forma preventiva, educando crianças desde a mais tenra idade para a bondade e a empatia e estimulando ao longo do seu crescimento essas atitudes. Mas não é só de bullying que esta história fala, embora seja perfeitamente aplicável. Esta lição também fala de autoestima, de compaixão e de autocompaixão.

Será consensual para todos que, independentemente dos bolsos por onde andaram, do quanto foram amassadas ou dobradas, de todas as vezes que foram parar ao chão e regressaram às carteiras, do seu aspeto, das suas manchas ou rugas, tanto a nota do quiosque como a nota do professor espanhol não perderam em nenhum momento o seu valor. Nesse caso, porque é que então nós, quando confrontados com nossos semelhantes, que tal como estas notas passaram momentos difíceis que lhes deixaram marcas, passamos a julgar inferior o seu valor?
Às notas não perguntamos por onde andaram para chegarem àquele estado nem que circunstâncias lhes provocaram aquelas mazelas. Aceitamo-las simplesmente porque não questionamos o seu valor. Já a quem até nós chega, acanhado, sujo ou mal tratado pela vida, não raras vezes ‘adivinhamos’ a sua história, julgamo-los pela sua aparência e não pelo seu valor intrínseco, esse sempre igual, imensurável.

E não é apenas o valor dos outros que tendemos a inferiorizar. Essa crueldade cometemos muitas vezes connosco próprios. Em momentos vários, como quando não conseguimos atingir um determinado objetivo e somos chamados à atenção, quando nos esforçamos mas ainda assim não somos selecionados para aquele lugar que tanto queríamos, quando somos achincalhados ou humilhados sem perceber porquê,… (só para dar alguns exemplos). Facilmente nos recriminamos, nos julgamos e colocamos em causa o nosso valor. Vitimizamo-nos, entramos em autocomiseração e perdemos o rumo. Parece que deixamos de saber quem somos, o que valemos. Não aceitamos que o nosso melhor é também construído pelas derrotas e adversidades por que passamos, alimentado pelas quedas e recuos e irrigado pelas lágrimas que devemos digna e humildemente deixar correr.

Não importa a forma como nos apresentamos em frente ao espelho ou diante de outros. Devemos ter sempre presente que o nosso valor é único e inestimável.