SOS Birra: O que fazer quando estão sob sequestro emocional?

SOS Birra

Todos nós sabemos reconhecer uma birra, certo? Não estou a falar de uma simples teimosia, um braço de ferro em que a criança até argumenta com algum sentido, mas sim quando reage de forma desproporcional a um acontecimento, uma palavra ou uma pessoa. Quando não se consegue controlar, ouvir ou fazer perceber de forma calma e lógica o que lhe motiva a tensão, a raiva e/ou desespero, aquele êxtase de emoções que explode em gritos, choro e mesmo agressividade e, tantas vezes, nos apanha na correnteza.

Neste momento a criança não está apenas a fazer uma birra. Na verdade ela está sob o sequestro da amígdala também conhecido por sequestro emocional. E esta, hein?

Porque mesmo nós, adultos, não somos assim tão conhecedores das bases da neurobiologia e de como funciona o nosso cérebro, troquemos este conceito por miúdos.

A amígdala é uma das áreas mais primitivas do nosso cérebro. Existe no cérebro humano mas também no de todos os vertebrados e é a principal responsável pelas reações emocionais básicas – muito útil para o nosso kit de sobrevivência, mas que, não raras vezes, nos traz dissabores quando seria importante termos uma resposta mais ponderada.

Já o córtex pré-frontal é a região do nosso cérebro responsável pelo pensamento lógico, mas é uma área muito mais recente na formação biológica do nosso cérebro, tendo a amígdala um maior peso na equação quando nos deparamos numa situação de tensão.

Quando o nosso cérebro recebe uma informação exterior é o tálamo que a encaminha por duas vias, uma curta e outra longa, para os nossos comandos de ação: a amígdala – comando emocional – e o córtex pré-frontal – comando racional.

Pois, adivinhem só a que comando chega primeiro a informação? Ah, pois é! À amígdala que, se por sorte fizer acionar o ‘alarme’ biológico, desencadeia automaticamente uma rápida resposta à situação, podendo inclusive bloquear o acesso do comando da ‘razão’ à informação, que poderia dar uma resposta mais adequada.

Por certo, todos nós nos lembramos de situações em que depois de reagirmos a quente pensámos: “ai, o que é que eu fui fazer?!”, “não estava em mim…” ou “não sei onde estava com a cabeça!”. Pois é, culpem a nossa amiga amígdala que, da forma expedita e impulsiva que a caracteriza (ainda que com as melhores intenções), tomou conta da situação.

Com as crianças passa-se exatamente o mesmo, com a agravante que o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento e as suas respostas de autorregulação emocional são por inerência muito limitadas, ficando portanto muito mais sujeitas ao (des)controlo da amígdala, que as comanda a seu bel-prazer, bloqueando facilmente o acesso à área racional. Daniel Goleman chama-lhe ‘sequestro da amígdala’. Já Augusto Cury diria que entrámos numa ‘janela killer’ que nos aprisiona.

Numa situação de sequestro todos nós sabemos que há que lidar com muita cautela. Não queremos provocar o sequestrador, fazer ‘vítimas’ e ser responsáveis por danos colaterais. No calor do momento, se não temos cuidado, ainda damos por nós a ficar feridos ou igualmente reféns, mas desta feita de um novo sequestrador, a nossa amígdala. Que caótico não seria….

Conheça alguns passos que pode seguir para lidar com uma situação de sequestro emocional:

  • Isole o perímetro e certifique-se que há condições de segurança para avançar para o controlo da situação. Se estiver num sítio público ou com muita gente por perto, leve a criança para um local calmo, longe do ‘objeto’ de conflito e dos olhares e palpites alheios que podem intensificar o foco de tensão. Se a criança estiver muito agitada garanta que, de uma forma firme (não violenta, mas gentil), ela não se magoa nem magoa ninguém. Um abraço pode ser uma ótima técnica para conter a explosão de emoções e a agressividade, ‘desarmando’ a criança.
  • Controlado que está o ambiente há que procurar ‘dar um tempo’ para apaziguar as emoções que dão gás ao sequestrador e passar a mensagem que estamos disponíveis para avaliar as opções, logo que haja abertura do outro lado para iniciar as conversações.
  • Até a tensão diminuir opte por ficar por perto (ainda que eventualmente noutra divisão) sem corrigir, repreender, insultar, gritar ou bater. A ‘pedagógica’ palmada é uma técnica que só tende a intensificar o drama e trazer para a criança e para si danos colaterais que podem levar muito tempo a resolver. Perceba que a criança é uma vítima do sequestrador e não tem culpa da sua vulnerabilidade biológica determinada pela impreparação do seu córtex pré-frontal para lidar com a situação.
  • No momento de iniciar as conversações coloque-se ao nível da criança, estabeleça contacto visual, mostrando-lhe que está ali para ela e que ela não está sozinha. Estão no mesmo barco e vão conseguir levá-lo a bom porto.
  • Em momento algum se coloque no lugar de vítima nesta história. A criança está no foco da tensão. Não compre essa guerra porque não lhe pertence. Tem no entanto a obrigação, como adulto que é (e com o córtex pré-frontal plenamente desenvolvido), de a gerir e ensinar a criança a munir-se de ferramentas de autocontrolo.
  • Não tente vencer o sequestrador quando ele se sente ‘dono do pedaço’ e não lhe diga insistentemente ‘Não’. Ou antes diga-o mas de forma velada. “Eu sei que querias muito x mas de momento só podemos fazer y”.
  • Valide as emoções da crianças ainda que não pretenda dar azo às pretensões que desencadeiam o sequestro. Se a criança se sentir compreendida restabelece-se a conexão necessária para desarmar de vez o sequestrador.
  • Resolvida que está a questão com o sequestrador há que cuidar da criança e calmamente – agora que ela já está apta para racionalizar a situação – explicar que o comportamento (e não ela) não foi adequado. Deve-se ajudar a criança a identificar como poderia ter resolvido o foco de tensão de uma forma positiva, evitando que fosse tomada de assalto.

 

Podemos pensar que na maior parte das vezes não temos tempo para empreender esta operação ‘Sequestro’ no papel de negociadores privilegiados. É uma escolha…

Contudo, ter presente que a criança faz birra porque há algo nela que ela própria não consegue gerir e que precisa de ajuda, permite-nos controlar de forma bem mais eficaz as situações de tensão, contribuindo para que futuramente ela própria consiga dar uma resposta mais adequada e gerir de forma mais assertiva as suas emoções e impulsos. Também muito importante é o facto de estarmos a promover uma relação mais positiva e saudável com a criança que não temerá em recorrer ao nosso auxílio quando se sentir mal. É imperativo que se distinga o que é a criança do que é a birra, ajudando-a a acalmar ao invés de a tratarmos como um inimigo.