Vai trabalhar malandro!

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Num fim de um dia destes, já no final da semana, quando me deslocava de metro para regressar a casa, um sem-abrigo, ainda jovem, atravessava a carruagem a pedir algo para comer ou uma moedinha.

Quem anda de metro sabe que estas situações são habituais. Há quem dê alguma coisa do que tem e pode. Há quem faça de conta que não repara ou olhe de soslaio. Há quem, com pesar, lamente que não pode ajudar.

Mas, neste dia em particular ao qual me refiro houve quem, não dando nada, resolvesse julgar o rapaz em praça pública, alto e bom som, para que toda aquela boa gente pudesse ouvir. De pé e de costas para mim um senhor bradava:

Vai mas é trabalhar, malandro! Não têm vergonha! Com tão bom corpo andar aqui a pedir!

Outra senhora juntou-se às críticas:

Deve ser para a droga… Andam aqui nesta miséria!

E a conversa prosseguia, em escalada.

Olhei para o jovem que ainda se virou para trás, mas desconcertado e algo envergonhado baixou a cabeça e acabou por seguir.

Ao meu lado uma jovem, consternada, abanava a cabeça e resolveu intervir dando conta que quem julgava aquele sem-abrigo não conhecia as circunstâncias que o faziam andar a pedir.

Sentindo-se atacado, recebeu resposta pronta do senhor:

Ó menina, tenho 69 anos. A mim não me ensina nada, nem me atiram areia para os olhos! Trabalhei muito para criar os meus dois filhos. A minha filha esteve 9 meses desempregada e ninguém a ajudou. Tive de ser eu. Esta gente não me engana. Querem viver à nossa custa! Não sou a Santa Casa da Misericórdia!

A jovem defendia as hipotéticas circunstâncias familiares, sociais e outras que poderiam justificar uma pessoa tão nova se encontrar nesta situação. Mas a senhora, na casa dos seus 40 e poucos anos, apoiava que se ele estava assim era porque queria:

Esta gente só vive bem assim. E quando não lhes damos o que queremos ainda se tornam violentos. Bem vi quando vivi em São Paulo.

Ouvia aquela conversa que se desenrolava nas minhas costas mas que fazia crescer em mim um nervoso miudinho alimentado pelas injustiças proferidas. Pensei duas vezes se interferia na conversa. Se iria adiantar. Lembrei-me da frase de Martin Luther King:

O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.

E pedi licença para me intrometer:
Sem intenção de julgar ninguém, porque não conheço as vossas histórias, valores ou experiências de vida, devemos lembrarmo-nos que antes de criticar quem quer que seja seria bom calçarmos os seus sapatos.

Não conheço aquele jovem. Não sei pelo que passou para hoje estar aqui a pedir. Não ofendeu ninguém e, a verdade, é que só dá quem quer. Seria bom compreendermos que nem sempre a vida nos proporciona as oportunidades que precisamos ou encontramos, em certos momentos críticos, o apoio que nos permite avançar na vida com outra dignidade e por outros caminhos.

Outra senhora que também até aqui só ouvia a conversa intervém:

Muitas vezes eles não querem apoio. Não aceitam as ajudas. Podiam ir ter com instituições do Estado. Esses é que deviam ajudar. Mas muitas vezes eles não querem mudar.

A minha estação de saída era já a próxima mas ainda tive tempo para lembrar:

Percebo, e de facto há quem já se tenha conformado e, mesmo não vivendo a vida que gostaria, assim se mantém. Por precária que seja é a vida que sabem viver. Mas quantos de nós não somos como eles?
Reclamamos da vida, do que não corre bem, do que queremos e não temos. As relações que não nos fazem felizes. As injustiças com que nos deparamos no dia-a-dia. O emprego que não gostamos ou onde somos explorados… E, ainda assim, também não mudamos. Acomodamo-nos. Não damos o passo que é preciso para mudar. Muitas vezes nem sequer tentamos. O que é que isso diz de nós?

O senhor de 69 anos baixou a cabeça e virou-se para outro lado. A senhora que inicialmente o acompanhou nas críticas saudou a discussão, importante para refletir e se ter outra perspetiva. Percebi que a jovem se sentiu compreendida e acompanhada pelo sorriso de cumplicidade que me devolveu. A senhora que por último interveio desejou-me um simpático ‘Bom fim-de-semana’ quando anunciei, sorrindo, que tinha gostado da conversa mas estava na minha altura de sair.

Estas quatro pessoas, a juntar ao jovem sem-abrigo que entretanto já tinha saído noutra estação, continuaram a sua ‘viagem’. Em consciência não sei se terá impactos positivos esta conversa para quem nela participou ou a ouviu. De minha parte saí de espírito tranquilo e grata por me ter metido na conversa para passar uma mensagem de maior compaixão e empatia por todos os que nos rodeiam e que tão facilmente julgamos.

Lembrei-me de Dalai Lama quando diz:

 Se puderes, ajuda os outros. Se não o puderes fazer, ao menos não os prejudiques.

E também de Maquiavel que lá tinha a sua razão quando dizia:

Em geral, os homens julgam mais pelos olhos do que pela inteligência, pois todos podem ver, mas poucos compreendem o que veem.

Um provérbio Sioux expressa igualmente esta visão acerca do julgamento:

Antes de julgar uma pessoa, caminha três luas com seus sapatos.

Afinal, qualquer julgamento só é justo se vivermos experiências iguais, o que enquanto seres únicos que somos, com histórias e percursos igualmente distintos, não é possível que aconteça. A verdade é que por norma criticar dá muito menos trabalho do que tentar compreender. Podemos manter-nos no nosso egoísmo, centrados na visão restrita do nosso umbigo, ao invés de nos envolvermos a procurar entender as motivações e perspetivas alheias.

Nem de propósito, este episódio passou-se tinha eu publicado há poucos dias um outro texto sobre o valor de cada um e só me lembrava do quão oportuno seria que aquelas pessoas o pudessem ler e refletir sobre ele. De minha parte confesso que procurei aplicá-lo durante aquele encontro no metro.

Liliana Ferreira

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