Vamos brincar com o Quantos Queres das Emoções?

Jardim de infância

Poucos dias depois de ter feito a Certificação de Educação Parental em Disciplina Positiva tive a oportunidade de abordar o tema da gestão das emoções e da Disciplina Positiva numa pequena atividade em sala de aula, com as crianças da sala do Pré-Escolar da minha filha, e, mais tarde, nesse mesmo dia, com os pais, numa breve dinâmica feita durante a reunião do semestre.

O convite surgiu, em parte, por indicação da minha disponibilidade e interesse em abordar o tema das emoções com os meninos, por outro lado, pela educadora da B – entusiasta e sensível aos temas do desenvolvimento das competências emocionais na infância – que, sabendo que iria fazer a certificação, me desafiou a, para além da sessão com os meninos, fazer uma dinâmica com os pais, por considerar importante, numa altura de transição para as crianças (que se preparam para entrar na primária), sensibilizar para formas de aligeirar a mudança e ajudar pais e filhos a enfrentarem, de uma forma mais positiva, os novos desafios.

Confesso que foi grande o entusiasmo mas também a responsabilidade que senti. Aproveitámos uns dias de férias meus para marcar as dinâmicas. Até lá procurei reunir informação e preparar os momentos de cada sessão.

Exigentes como só eles, de manhã, com os pequenos, optei por explicar-lhes como funciona o nosso cérebro através da analogia do cérebro na palma da mão do Dr. Daniel Siegel. Uma introdução à neurobiologia muito divertida que as crianças adoraram.

Falámos de estados  emocionais de medo, de raiva, tristeza e alegria, e também do desafio que são birras, que lhes são tão comuns (mas também aos papás e outros adultos), e de como nos podemos acalmar e relaxar nesses momentos. Para melhor compreenderem a importância da consciência das nossas emoções e atos, contei-lhes a história do lobo bom e do lobo mau para perceberem que gerir as emoções é um exercício que devemos fazer constantemente. Estamos sempre a ser desafiados a alimentar um outro lobo pelo que é importante estarem atentos e perguntarem-se: Que lobo quero alimentar? Em casa, como sabem, resulta lembrar-nos desta história.

Antes de terminar fizemos um breve momento de meditação. Sentados como sapinhos, pedi que colocassem as mãos sobre a barriga e durante dois minutos estivessem atentos às inspirações e expirações que fariam subir e descer as suas barriguinhas.

Para finalizar entreguei-lhe um miminho, idealizado por mim mas desenvolvido criativamente pelo meu marido. Um Quantos Queres das Emoções, para construírem e, em casa ou com os amigos, brincarem a reconhecer as próprias emoções e identificarem as situações que as fazem sentirem-se zangadas, frustradas, tristes, assustadas, desmotivadas, empolgadas, calmas e felizes.

Durante os 45 minutos que durou a sessão estiveram muito participativos e concentrados, o que fez com que o tempo parecesse voar.

Já à tarde a história foi outra. Nós, adultos, somos mais céticos. Termos uma outra mãe a falar-nos sobre perfis de parentalidade e a desafiar-nos a tornarmo-nos mais conscientes da educação que queremos para os nossos filhos causa estranheza. Embora sinta a parentalidade consciente como uma missão de vida que procuro trazer para a minha família, mas que também gostaria de levar a mais pessoas, o certo é que a minha timidez e insegurança não torna esta exposição uma coisa fácil. Ainda assim também sei que apesar de me sentir pouco confortável nestas circunstâncias não é algo que transpareça exteriormente.

Depois de pedir aos pais para identificarmos comportamentos desafiantes e habilidades de vida que gostaríamos que os nossos filhos desenvolvessem fizemos uma dinâmica na qual uma das mães fez o papel de ‘criança’ e os restantes pais participantes dispuseram-se de um lado e do outro. A um dos lados foram entregues frases encorajadoras e, ao outro, frases desmotivadoras que correntemente utilizamos ou já ouvíamos alguém dizer, às vezes lembrando a nossa própria infância. A mãe ‘criança’ andou de pai em pai, alternando o lado, e ouvindo o que estes pais tinham a lhe dizer. No final da dinâmica refletimos em conjunto.

Primeiro convidei a mãe ‘criança’ a dizer como se sentiu ao encarnar este papel e em que lado se sentiu mais acolhida e inspirada a desenvolver as habilidades de vida que havíamos listado anteriormente ou, por outro lado, se sentiu pouco aceite e desafiada a fazer birras, responder mal, amuar, etc. Em conjunto refletimos sobre as frases e revimo-nos em algumas delas, para o bem e para o mal, o que creio nos ajudou a ter uma maior consciência do impacto do que muitas vezes dizemos, tantas vezes em modo piloto automático.

Foi curta a dinâmica com os pais. Senti que muito ficou por dizer e explicar quanto a alternativas e ferramentas de que nos podemos servir para estar mais atentos e sermos pais mais positivos na relação com os nossos filhos. Ainda assim, foi muito bom poder abordar com outros pais este tema e sentir que há abertura para refletirmos juntos em como podemos ser melhores, por nós e pelos nossos.

Por toda a partilha possibilitada neste dia só tenho a agradecer toda a generosidade e dedicação da professora Paula Madeira e ao Jardim de Infância da Restauração, mas também toda a disponibilidade e forma sincera e recetiva como os meninos e os pais me ouviram a participaram nas dinâmicas que pude desenvolver com todos nesse dia.

Apesar das minhas inseguranças e receios, que venham mais, muitas mais partilhas desta, boas e saudáveis.

E por falar em partilha da boa e saudável, cliquem AQUI e imprimam, guardem ou partilhem com as vossas crianças, família e amigos o Quantos Queres das Emoções.

Uma lagosta em burnout e a sua renovação

Burnout

 

Era uma vez uma lagosta…

Hummmm… Ia começar pela história da lagosta mas fará mais sentido começar por parte da minha história e sobre como vivi o síndrome de burnout. Mais tarde voltamos à lagosta e tudo fará mais sentido (prometo!).

Há dois anos, por esta altura, recebi indicação da minha obstetra que tinha de ficar de repouso até a L nascer. A minha pequenina nasceu em junho. Passei as primeiras semanas da baixa a sentir-me desenquadrada. Até então – fora a licença de gravidez da B – contavam-se pelos dedos da mão os dias em que fiquei por casa, por indicação médica. Quando estamos habituados às exigências e rotinas do trabalho, é difícil desligar, mas passadas umas semanas finalmente desliguei e liguei-me à minha bebé e à minha família, e foram meses muito bem vividos.

Passado um ano o dilema era outro. Já de regresso à ‘vida ativa’ após a licença, mas ainda com horário reduzido de amamentação, comecei a contar o tempo (ou a ver esfumar-se o tempo) para o momento em que haveria de voltar a trabalhar a ‘tempo inteiro’.

Mãe de uma bebé de poucos meses e de uma menina de 4 anos, sempre a sair de casa por volta das 7h30 para as deixar na ama e na escolinha e seguir para o trabalho, custava-me pensar que daí a pouco tempo deixaria de as ir buscar por volta das 17h30. Ao invés, passaria a chegar a casa já só pelas 19h30.

A perspetiva, de estar praticamente 12h00 fora de casa, de as deixar entregues a outros cuidados que não os meus, numa espécie de ‘institucionalização’ forçada, era uma violência e deixava-me psicologicamente de rastos.

Insistentemente pensava que não tinha sido mãe para que outros educassem as minhas filhas, para que outros assistissem às suas conquistas do dia-a-dia, rissem com elas, enxugassem as suas lágrimas, as apoiassem em cada nova aprendizagem, lhes dessem resquícios de amor que por completo só eu poderia dar… Enquanto eu, longe, lastimava tudo aquilo que perdia e culpava-me por não estar presente no papel que mais me competia e que tanto queria abraçar.

As semanas foram passando e a angústia aumentava. À culpa e tormento que me esmagava o peito e me engolia as palavras que não conseguia expressar, mas que ocasionalmente à noite se transformavam em lágrimas que me tomavam quando finalmente deitava a cabeça na almofada, juntava-se a exigência constante de todos os dias cumprir com o que achava ser esperado de mim:

  • ser a melhor mãe para que elas, no pouco tempo útil que tinham comigo, me sentissem presente e incondicionalmente disponível e, assim, talvez se apagassem das suas memórias as horas de distância;
  • ser uma esposa carinhosa e atenta, porque o amor, aprendi, deve ser cultivado dia-a-dia e faz-se dos pormenores, dos carinhos, das partilhas e das atenções… mas tinha a cabeça numa roda viva e o coração num constante sobressalto;
  • ser uma profissional assertiva, criativa e produtiva, sempre pronta para um desafio e que prima por ter a check list de tarefas completa ao fim do dia e clientes satisfeitos, para acalentar a ilusória satisfação do dever cumprido;
  • manter a casa limpa e arrumada, roupa engomada, papelada organizada, frigorífico e despensa onde nada falte, almoços e jantares adiantados, contas em dia, orçamentos planeados,… toda a estabilidade que me faltava interiormente;
  • ser a irmã que ouve e aconselha e também a filha que cuida, apoia e trata das burocracias e chatices que com o tempo eles deixaram de conseguir acompanhar, não sabem como fazê-lo ou acham que a filha tem mais disponibilidade (afinal está o dia todo sentada a um computador…);
  • a amiga que não esquece e aproveita aqueles minutinhos da hora de almoço ou viagem para casa para ligar e combinar o lanche ou almoço que há meses se está para marcar, se houver tempo…

E, como se não bastasse…

  • ter uma imagem irrepreensível e adequada, mesmo que a depilação, as sobrancelhas, o cabelo, as unhas, a maquiagem, as roupas, sapatos e adereços, fossem as últimas das minhas prioridades.

 

Sentia-me impotente por tanto tentar e não conseguir ser a mãe, mulher, esposa, irmã, filha, amiga, profissional, whatever… tudo aquilo que ‘tinha’ de ser. Eu já não sabia quem era, nem o que podia dar, embora exteriormente, tudo parecesse igual ao que sempre foi.

Como seria de esperar, sentia a minha cabeça num frenesim imparável. Até o corpo se manifestava com dores de cabeça, pescoço e costas e fiquei mais magra. Andava stressada, nervosa, ansiosa e irritadiça. Temi que a curto prazo me passasse de vez. Cheguei a desabafar com o meu marido, a minha irmã e, eventualmente, alguma amiga mais próxima a asfixia em que me sentia. Os ombros de apoio sempre estiveram disponíveis mas eu continuava a sentir-me desamparada, sem saber como resolver esta angústia interminável e simplesmente… parar.

Por mim, de forma incontrolável, desfilavam os ‘muitos’ que precisava de gerir: muitas obrigações, muitas solicitações, muito trabalho, muita culpa, muita ansiedade, muito cansaço… Ao mesmo tempo escasseava o tempo, a paciência, a energia, o foco e o discernimento para conseguir aligeirar o dia-a-dia e recuperar a paz de espírito. Demasiadas variáveis para uma só pessoa controlar.

Na altura eu não sabia mas hoje, observando bem, acredito que sofria do síndrome de burnout (embora não clinicamente diagnosticado).

Esta forte inquietação levou-me a questionar o que teria de fazer para me reencontrar, aligeirar esta angústia existencial, valorizar a vida e o que de bom me dá, minimizar as contrariedades e aceitar, com serenidade, tudo o que não podia mudar.

Confesso que ler para mim sempre foi uma forma de me recentrar e encontrar as respostas pelas quais procuro. Em determinadas alturas dou por mim a fazer uma espécie de ‘livroterapia’ e creio que resulta.

Foi nessa altura que comecei a ler ‘Inteligência Emocional’ de Daniel Goleman, que me fez vislumbrar a vida e forma como lidava com as minhas emoções e tudo o que me acontecia e rodeava sob uma transformadora perspetiva, um olhar renovado, embora também já tivesse lido alguns livros de Augusto Cury onde encontrei igualmente uma janela de oportunidade para controlar esta demanda das emoções em autogestão. Mas esse momento foi de facto revelador para mim.

Impulsionou-me a querer compreender mais e a empreender para me dar a mim e aos meus uma melhor qualidade de vida. Entender os processos mentais por detrás das minhas escolhas, dos meus medos, das minhas angústias, das depressões e ansiedades que velam sorrateiramente a mente, mas também do que me alegra, entusiasma e estabiliza. Mas fez-me também perceber que tinha um longo caminho pela frente e que era essencial cuidar de mim para conseguir cuidar de todos aqueles que de alguma forma esperavam algo de mim.

Enquanto aprofundava o tema e colocava em prática algumas dicas que aqui e ali fui apanhando, o conceito de uma prática Mindfulness (atenção plena) foi surgindo com frequência. Ocorreu entretanto ter assistido a uma entrevista da Mikaela Övén e, em pesquisa, ter encontrado um curso online que ela orienta. Com a flexibilidade e mobilidade que me permitia, decidi avançar. De lá para cá, em cerca 8 meses, muito mudou em mim e na forma como me vejo e perspetivo a vida e o mundo, como me relaciono com os outros e como deixei de ver tudo tão a preto e branco, a ferro e fogo.

Continuo a trabalhar no mesmo sítio. Saio cedo e chego tarde a casa, na generalidade dos dias as mesmas 12 horas fora, mas estou a aprender a priorizar e valorizar o que realmente importa na minha vida e a tornar o tempo disponível em momento mágicos e preciosos, com um mínimo de desperdício possível.

Procuro julgar menos, ser mais paciente, confiar mais e resistir menos. Tento um pouco mais todos os dias viver com mais desapego e ter uma visão renovada perante o que surge e me rodeia, aceitando a vida tal e qual ela é, sendo grata e retribuindo a sua generosidade.

Muito recentemente dei mais um passo importantíssimo nesta caminhada por me reencontrar e trazer à minha vida um sentido e um legado, coerente com a pessoa que sou e com a mãe que procuro ser.

Porque acredito verdadeiramente que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo e que o que importa não é o que um dia deixarei para os outros mas o que deixarei nos outros, aventurei-me na Certificação Educação Parental em Disciplina Positiva (da Positive Discipline Association) conduzida por Fernanda Lee, com o apoio do GAIP (Mafra). Uma vez mais dei por mim a perceber o quanto as inquietações e os questionamentos interiores que vivemos podem ser enriquecedores e reveladores. Confrontei-me com as minhas fragilidades e crenças mas também me tornei mais consciente em relação ao quão forte pode ser o poder da empatia e de uma educação positiva na construção de uma pessoa que possa de facto construir para tornar este mundo num lugar melhor, ao invés de repetirmos insistentemente padrões obsoletos e destrutivos.

Agora que me sinto complemente desconstruída, é também hora de começar a construir. Começo por casa, em família, e depois logo se vê.

Em retrospetiva percebo que todas as dores pelas quais passei me ajudaram a superar a pessoa que era então e tornar-me um pouco mais completa e mais realizada, uma melhor versão de mim mesma.O que me leva à pergunta que se impõe: mas onde é que entra a lagosta nesta história?

Pois é, a dada altura percebi que na vida somos como a lagosta que à sua maneira também sofre de burnout:

A lagosta é um animal com um corpo mole envolto numa casca dura. No processo de crescimento, ao sentir-se desconfortável e sob pressão na sua casca – que não se expande, mas que lhe garante a proteção – a lagosta resolve, por força dessa dor que sente, esconder-se por detrás das rochas, despir-se da antiga casca e produzir uma nova.

Da dor que sente resulta a emergência da mudança que a faz adaptar-se de uma forma mais harmoniosa e plena às circunstâncias em que vive.

A parte desafiadora é que de novo, quando crescer mais, a lagosta voltará a sentir-se apertada, sob pressão, e todo o processo se repete, numa constante evolução e renovação.