A Coragem de Ser Imperfeito

De fio a pavio este livro de Brené Brown foi uma autêntica revelação. A Coragem de Ser Imperfeito (Editora Nascente) trouxe-me consciência do quão transversal e enraizada está a vergonha na nossa vida, não só a nível individual mas enquanto cultura social.

Absorvi cada ensinamento. Cada tópico levantado pela autora colocava o dedo na ferida e fez-me perceber o quão impreparados estamos para aceitar e conviver com as nossas vulnerabilidades e o quanto isso nos afasta da nossa essência e das nossas relações. E tudo começa na educação, propagando-se pelas restantes esferas da nossa vida. A grande maioria de nós lança-se à vida com armaduras e escudos, procurando-nos proteger, mas o que tantas vezes conseguimos é simplesmente entorpecer os movimentos e os sentimentos que nos podem levar a uma vida mais plena.

A Coragem de Ser Imperfeito é um livro que nos convida à autoconsciência, à reflexão, ao questionamento, à revisão de crenças, à aceitação, à mudança e à transformação.

Se ainda não estiverem motivados para ler o livro assistam à TED que projectou mundialmente Brené Brown.

 

Entretanto, para aguçar a curiosidade, partilho o Manifesto de Plenitude para Criar Filhos que a autora inclui neste livro e que espelha tudo o que espero conseguir trazer para a minha família.

 

Antes de mais, quero que saibas que é amado e que tens capacidade de amar.

Aprenderás isso através das minhas palavras e acções – as lições sobre o amor têm que ver com a forma como eu te trato e como eu me trato a mim mesma.

Quero que abordes o mundo sob a perspectiva do merecimento.

Aprenderás que és digno de amor, pertença e alegria sempre que me vires a praticar o auto-compaixão e a aceitar as minhas próprias imperfeições.

Praticaremos a coragem na nossa família ao aparecermos, ao deixarmos que nos vejam e honrando a vulnerabilidade. Partilharemos as nossas histórias de dificuldades e força. Em nossa casa haverá sempre espaço para ambas.

Vamos ensinar-te a compaixão ao praticarmos compaixão primeiro connosco e depois uns com os outros. Vamos estabelecer e respeitar os limites; vamos honrar o trabalho árduo, a esperança e a perseverança. O descanso e a diversão serão valores familiares, bem como práticas familiares.

Vais aprender sobre responsabilidade e respeito ao me veres-me cometer erros e corrigi-los, e ao vendo como peço aquilo de que preciso e falo sobre como me sinto.

Quero que conheças a alegria, para que juntos pratiquemos a gratidão.

Quero que sintas alegria, para juntos aprendermos a ser vulneráveis.

Quando a incerteza e a escassez surgirem, vais ser capaz de ir buscar forças ao espírito que é uma parte da tua vida diária.

Juntos, vamos chorar e enfrentar o medo e o sofrimento. Vou Vou querer fazer desaparecer a tua dor, mas em vez disso vou sentar-me contigo e ensinar-te a senti-la.

Vamos rir e cantar, dançar e criar. Teremos sempre permissão para sermos nós próprios um com o outro. Aconteça o que acontecer, vais sempre pertencer aqui.

Ao começares a tua jornada de plenitude, a maior dádiva que te posso dar é viver e amar de todo o coração e ousar ser grande.

Não vou ensinar ou amar ou mostrar nada na perfeição, mas vou deixar que me vejas e vou sempre considerar sagrada a dádiva de te ver a ti. Ver-te verdadeira e profundamente.

       Este manifesto está disponível na versão original em www.brenebrown.com.

 

Sinopse

Ter a coragem de ser imperfeito é querer mudar a manei

ra como conduz a sua vida, o amor, o trabalho e a família.

Você vive evitando emoções como o medo, a mágoa ou a desilusão.

Fechando as portas ao amor e aos outros. Defendendo-se a todo o custo de eventuais erros e fracassos.

Se é assim que você vive, então não está a usufruir das experiências marcantes que dão significado à vida. Exponha-se! Abra-se a novas experiências e será uma pessoa mais autêntica e realizada.

Aprenda a aceitar a sua vulnerabilidade e a vencer a vergonha. Ousar ser quem é pode conduzi-lo a uma vida mais plena.

 

Boas leituras!

Que lobo vou alimentar?

Lobos

Sempre senti um certo fascínio pela psicologia e desenvolvimento pessoal, embora, académica e profissionalmente, não tenha seguido por estas áreas. Em determinados momentos da minha infância e juventude recordo-me de ter tiradas em diversas situações que agora me fazem perceber o porquê desta vontade de aprofundar o tema da inteligência emocional e gestão de emoções se ter vincado de forma tão profunda em mim. Foi no entanto com a maternidade que percebi com maior premência que havia algo a explorar na relação comigo mesma, com os outros e com o mundo, numa tentativa de melhor me entender e encontrar os caminhos para uma vivência mais plena e com propósito.

Nos primeiros anos de vida da minha filha mais velha tantos foram os momentos em que duvidei das minhas competências nas várias esferas da minha vida. Em determinadas alturas parecia que dormia com um lençol demasiado curto. Quanto mais puxava para um lado mais se destapava do outro. Várias perguntas se foram formando em mim que exigiam respostas:

Que relação era esta que tinha comigo? Porque exigia tanto de mim? Porque me sentia tão insatisfeita e culpada quando tentava dar sempre o meu melhor? Porque não estava a conseguir responder a todas as solicitudes e mesmo quando conseguia parecia que não me era suficiente? Porque sentia os dias, semanas, meses,… passarem-me por entre os dedos sem que deles conseguisse extrair o melhor da vida? Porque me sentia num constante frenesim sem conseguir aquietar-me?…

É certo que nem sempre a intensidade com que estas sensações e as dúvidas se instalavam era igual. Sempre caracterizei estas crises como cíclicas. Passava semanas com esta angústia e depois apaziguava, o que fazia com que verdadeiramente nunca procurasse uma resposta concreta para a inquietação que me assolava. Mas a cada nova crise – que creio que todos sentimos e tendemos a camuflar com as mais diversas ‘diversões’ – uma determinação se imponha: Não me posso conformar com estes estados! Não posso simplesmente achar que são fases e que é normal! A vida tem de ser mais do que isto!

Com uma filha tão pequena comecei a questionar determinadas formas de estar e de a educar e a culpabilidade que existia em mim por achar que muitas vezes não lhe conseguia transmitir o amor que deveria nortear o seu crescimento e a ligação que queria que criasse comigo. Em vez disso havia por demasiadas vezes o autoritarismo ao invés de tempo de qualidade. Um braço de ferro que magoava as duas e pouco se acrescentava para além da exigência de obedecer sem questionar.

Estas circunstâncias e outras na minha vida familiar e profissional, que mais tarde se acentuaram com o nascimento da minha segunda filha, conduziram-me a diversos autores e a explorar diversas formas de perspetivar a vida, as relações, o que a vida é e pode ser. É esse o caminho que agora percorro e que aqui partilho, procurando respostas para as perguntas que me inquietam.

Este conto tão simples de ‘Os dois lobos’ demonstra como termos a consciência da batalha interna que existe em nós se pode revelar verdadeiramente transformadora.

Num certo dia, um velho índio cherokee contou ao neto uma história sobre a batalha que acontece no interior das pessoas.

“Meu filho, existem dois lobos dentro de nós. Um é mau. Representa a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o arrependimento, a cobiça, a arrogância, a autocomiseração, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o falso orgulho, a superioridade e o ego.”

“O outro é bom. É a alegria, a paz, o amor, a esperança, a serenidade, a humanidade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.”

O neto pensou um pouco e perguntou ao avô:

“Qual dos lobos vence?”

O velho respondeu simplesmente:

“Aquele que alimentares.”

Em casa por diversas vezes já fizemos uso deste simples conto. Eu faço-o muitas vezes em que estou numa situação de maior tensão. Mas até com as birras das mais pequenas resulta. Basta perguntar: Que lobo estás agora a alimentar?