Que lobo vou alimentar?

Lobos

Sempre senti um certo fascínio pela psicologia e desenvolvimento pessoal, embora, académica e profissionalmente, não tenha seguido por estas áreas. Em determinados momentos da minha infância e juventude recordo-me de ter tiradas em diversas situações que agora me fazem perceber o porquê desta vontade de aprofundar o tema da inteligência emocional e gestão de emoções se ter vincado de forma tão profunda em mim. Foi no entanto com a maternidade que percebi com maior premência que havia algo a explorar na relação comigo mesma, com os outros e com o mundo, numa tentativa de melhor me entender e encontrar os caminhos para uma vivência mais plena e com propósito.

Nos primeiros anos de vida da minha filha mais velha tantos foram os momentos em que duvidei das minhas competências nas várias esferas da minha vida. Em determinadas alturas parecia que dormia com um lençol demasiado curto. Quanto mais puxava para um lado mais se destapava do outro. Várias perguntas se foram formando em mim que exigiam respostas:

Que relação era esta que tinha comigo? Porque exigia tanto de mim? Porque me sentia tão insatisfeita e culpada quando tentava dar sempre o meu melhor? Porque não estava a conseguir responder a todas as solicitudes e mesmo quando conseguia parecia que não me era suficiente? Porque sentia os dias, semanas, meses,… passarem-me por entre os dedos sem que deles conseguisse extrair o melhor da vida? Porque me sentia num constante frenesim sem conseguir aquietar-me?…

É certo que nem sempre a intensidade com que estas sensações e as dúvidas se instalavam era igual. Sempre caracterizei estas crises como cíclicas. Passava semanas com esta angústia e depois apaziguava, o que fazia com que verdadeiramente nunca procurasse uma resposta concreta para a inquietação que me assolava. Mas a cada nova crise – que creio que todos sentimos e tendemos a camuflar com as mais diversas ‘diversões’ – uma determinação se imponha: Não me posso conformar com estes estados! Não posso simplesmente achar que são fases e que é normal! A vida tem de ser mais do que isto!

Com uma filha tão pequena comecei a questionar determinadas formas de estar e de a educar e a culpabilidade que existia em mim por achar que muitas vezes não lhe conseguia transmitir o amor que deveria nortear o seu crescimento e a ligação que queria que criasse comigo. Em vez disso havia por demasiadas vezes o autoritarismo ao invés de tempo de qualidade. Um braço de ferro que magoava as duas e pouco se acrescentava para além da exigência de obedecer sem questionar.

Estas circunstâncias e outras na minha vida familiar e profissional, que mais tarde se acentuaram com o nascimento da minha segunda filha, conduziram-me a diversos autores e a explorar diversas formas de perspetivar a vida, as relações, o que a vida é e pode ser. É esse o caminho que agora percorro e que aqui partilho, procurando respostas para as perguntas que me inquietam.

Este conto tão simples de ‘Os dois lobos’ demonstra como termos a consciência da batalha interna que existe em nós se pode revelar verdadeiramente transformadora.

Num certo dia, um velho índio cherokee contou ao neto uma história sobre a batalha que acontece no interior das pessoas.

“Meu filho, existem dois lobos dentro de nós. Um é mau. Representa a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o arrependimento, a cobiça, a arrogância, a autocomiseração, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o falso orgulho, a superioridade e o ego.”

“O outro é bom. É a alegria, a paz, o amor, a esperança, a serenidade, a humanidade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.”

O neto pensou um pouco e perguntou ao avô:

“Qual dos lobos vence?”

O velho respondeu simplesmente:

“Aquele que alimentares.”

Em casa por diversas vezes já fizemos uso deste simples conto. Eu faço-o muitas vezes em que estou numa situação de maior tensão. Mas até com as birras das mais pequenas resulta. Basta perguntar: Que lobo estás agora a alimentar?