O cérebro da criança é um jardim em crescimento 🌱

Como compreender o comportamento das crianças através do desenvolvimento emocional e cerebral

Compreender o comportamento das crianças nem sempre é simples. Birras, impulsividade, dificuldade em lidar com frustrações ou em cumprir limites deixam muitos pais, educadores e professores a perguntar: “O que estou a fazer de errado?”

Talvez a pergunta mais útil seja outra.

Neste artigo convido-te a olhar para o cérebro infantil através de uma metáfora simples, mas muito reveladora: o cérebro da criança é como um jardim em crescimento.

O cérebro infantil não nasce pronto

Quando pensamos num jardim, não esperamos que todas as plantas cresçam ao mesmo tempo nem da mesma forma. Algumas florescem cedo, outras precisam de mais tempo, mais sol ou de um solo mais nutrido.

Com o cérebro das crianças acontece exatamente o mesmo.

O cérebro infantil não é uma versão “menor” do cérebro adulto. Está em construção diária, num processo que se prolonga até à idade adulta, segundo os neurocientista, até por volta dos 25 anos de idade. Algumas áreas desenvolvem-se rapidamente, enquanto outras — essenciais para o autocontrolo e a tomada de decisões — amadurecem muito mais tarde.

Compreender isto muda profundamente a forma como interpretamos o comportamento infantil.

Quando mudamos o olhar, muda a leitura do comportamento

Ao longo do meu trabalho com famílias, crianças e adolescentes, observo que muitos desafios do dia a dia ganham uma leitura completamente diferente quando entendemos o desenvolvimento cerebral.

O que muitas vezes é interpretado como:
– desobediência
– provocação
– falta de respeito
– má vontade

é, na realidade, um cérebro que ainda não tem todas as ferramentas necessárias para responder de outra forma.

O comportamento deixa de ser visto como um problema a eliminar e passa a ser entendido como uma mensagem sobre aquilo que a criança ainda está a aprender.

Emoções intensas vs. autorregulação em desenvolvimento

Neste jardim em crescimento, as emoções são plantas de crescimento rápido.

Raiva, frustração, medo e alegria surgem cedo e com grande intensidade. Já as áreas do cérebro responsáveis pela:
– autorregulação emocional
– controlo de impulsos
– planeamento e tomada de decisões

são como sistemas de irrigação mais complexos. Precisam de tempo, repetição e acompanhamento para ficarem plenamente funcionais.

É por isso que uma criança pode sentir “tudo ao mesmo tempo”, mas ainda não consegue acalmar-se sozinha.

Quando o cérebro emocional assume o controlo, o cérebro racional fica temporariamente indisponível. Nesses momentos, não é o momento de ensinar, corrigir ou exigir reflexão. É o momento de regular antes de educar.

O papel do adulto: ser um jardineiro emocional

Pais, educadores e profissionais desempenham aqui um papel essencial.

Funcionam como jardineiros atentos, ajudando a criar as condições certas para o crescimento emocional da criança: presença, calma, escuta, nomeação das emoções e co-regulação.

Cada vez que acompanhas uma criança a regular-se, estás a ajudá-la a construir esse caminho dentro do cérebro. Com o tempo e a repetição, essa capacidade deixa de depender do adulto e passa a ser interna.

É assim que se constrói autorregulação: em relação, não em isolamento.

Limites que protegem e orientam o crescimento

Num jardim saudável existem cercas. Não para controlar o crescimento, mas para o proteger.

Na educação, os limites cumprem exatamente essa função. Limites claros, consistentes e ajustados à fase de desenvolvimento ajudam a criança a sentir-se segura e orientada.

Quando os limites são acompanhados de relação e empatia:
– deixam de ser apenas regras externas
– tornam-se aprendizagens internas
– promovem autonomia e responsabilidade

Limitar não é impedir crescer. É criar segurança para crescer.

Observar antes de intervir

Educar de forma consciente implica observar antes de reagir.

Muitas vezes, o comportamento que mais nos desafia é apenas um sinal de que algo ainda está a amadurecer. Em vez de perguntar “O que está errado com esta criança?”, o convite é outro:

O que é que este cérebro ainda está a aprender?

Esta mudança de pergunta transforma a relação e a forma como intervimos.

Confiar no processo de crescimento emocional

Com tempo, relação e coerência, o jardim cresce.

As raízes tornam-se mais profundas, as plantas mais resistentes e o sistema mais equilibrado. Esse é o verdadeiro objetivo da educação parental e socioemocional: não apressar o crescimento, mas criar condições para que ele aconteça de forma saudável.

Compreender o cérebro infantil permite-nos trocar:
– reação por intenção
– castigo por orientação
– julgamento por curiosidade

Tal como um bom jardineiro, aprender a confiar no processo é essencial. Um jardim bem cuidado não cresce à pressa nem de um dia para o outro. Cresce com tempo, presença e consistência.

Um convite a aprofundar

Se este olhar te ajuda a compreender melhor as crianças que acompanhas — em casa, na escola ou noutros contextos educativos — talvez seja também um bom momento para cuidares do teu próprio jardim enquanto adulto que educa.

Acompanho pais, cuidadores e educadores em processos de consultoria e mentoria em educação parental, e desenvolvo programas de educação socioemocional para crianças e adolescentes, sempre com uma abordagem prática, consciente e respeitadora do desenvolvimento de cada fase.

👉 Podes explorar os recursos, programas e formas de acompanhamento disponíveis aqui:
https://linktr.ee/emocoesaflordamente

Para outras informações contacta-me pelo email emocoesaflordamente@gmail.com

Até breve!