Porque são hoje as crianças tão diferentes das de outros tempos?

crianças diferentes

 

Costuma-se dizer que as crianças de hoje são diferentes. Não são iguais às crianças que nós, hoje pais, fomos, ou que os seus avós foram noutros tempos.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Isto para dizer que é um facto que as crianças são diferentes, mas isso ocorre porque a sociedade atual é também ela diferente do que era há 20, 40, 60, 80 anos. As crianças só refletem as mudanças que acontecem no seu ambiente e nas relações que tem e lhes são paralelas.

Face ao que foi a realidade com que a minha geração se pode identificar, a atual geração de crianças e seus pais e educadores, depara-se com desafios que atualmente não estavam na nossa órbita ou pelo menos não de uma forma tão vincada.

O que torna as crianças diferentes, os avanços tecnológicos?

Desde logo os avanços tecnológicos, com múltiplos equipamentos para estarmos constantemente conectados a quem quer que seja, onde quer que estejamos e a qualquer hora, torna as relações mais globais, mas também impessoais e indiferenciadas. Nos anos mais recentes, as crianças tem acesso facilitado a um mundo online, tão vasto como incontrolável, de onde surgem novos modelos de referência que pelo seu estar cool, funny, original e irreverente passam as mais diversas mensagens e valores, nem sempre alinhados com os valores e mensagens que os pais gostariam de incutir.

Por seu lado, estes pais, ou pelo menos muitos deles, trabalham muitas horas fora de casa, escasseando também nas proximidades dos seus lares uma rede de apoio próxima e confiável à qual nessas horas entregar a ‘guarda’ das crianças. Nos meus tempos de miúda, se os pais trabalhavam, havia sempre uma avó ou tia para ficar com as crianças ou os vizinhos que davam sempre um olhinho, porque a essência da comunidade local era muito forte e protetora dos seus. Hoje, boa parte dos pais vivem longe dos seus familiares mais próximos e os vizinhos mal se conhecem. Com sorte, entre alguns, consegue-se trocar um ‘Bom dia’.

A queda dos modelos de submissão?

Outros motivo para se ter esta diferença no que são as crianças de hoje face ao que eram outrora está na queda dos modelos de submissão. A hierarquia das relações estava muito presente na sociedade. O pai obedecia a um patrão. Por sua vez a mãe obedecia ao pai, e as crianças eram educadas para obedecer à mãe e ao pai. Hoje, felizmente, a meu ver, difunde-se a ideia de respeito mútuo entre as pessoas, seja a nível profissional como na esfera familiar. Nesta ótica as crianças que reivindicam o seu poder pessoal não estão mais do que a refletir as dinâmicas que vêem em outras interações sociais.

A falta de cooperação e responsabilidade?

Por último, muito se ouve que as crianças de hoje são mimadas, têm tudo e querem tudo de mão beijada. Sobre esta queixa creio que se deva ao facto das crianças terem hoje menos oportunidades para aprenderem a ser colaborativas e de aprenderem responsabilidade.

Havia noutras alturas uma grande necessidade por parte das famílias de que as crianças contribuíssem literalmente para o sustento do lar. Hoje já não é assim. As crianças devem ser crianças sem responsabilidades de adultos. Contudo, do 80 passou-se para o 8, com muitos pais a fazerem tudo pelos seus filhos, a darem tudo aos seus filhos, sem que estes tenham a possibilidade de desenvolver a sua autonomia e independência. Não creio que faça bem às crianças e à sociedade esta limitação constante do desenvolvimento de capacidades. Na sua conta e medida, sob a devida orientação, as crianças precisam de fazer para aprender, de escolher para saberem tomar melhores decisões, de errar para melhorarem, de se frustrarem para construírem resiliência, e por aí adiante. Há que dar estas oportunidades às crianças e procurar um ponto de equilíbrio saudável entre o o 8 e o 80.

Liliana Ferreira

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