Na vida cada um que vem traz algo, permanece algum tempo e parte

A festa da vida

 

Uma pessoa põe-se a caminho. Olhando à sua frente, vê ao longe a casa que lhe pertence e caminha para lá. Ao chegar, abre a porta e penetra num salão preparado para uma festa.

A essa festa compareceram todos aqueles que foram importantes na sua vida. Cada um que vem traz algo, permanece algum tempo, e parte. Cada um traz um presente especial, cujo preço total já pagou, de uma forma ou de outra.

Assim vêm: a sua mãe, seu pai, seus irmãos, um avô, uma avó, os tios e as tias ― todos os que lhe cederam lugar, todos os que cuidaram de si ― vizinhos, talvez, amigos, professores, parceiros, filhos… Todos os que foram importantes na sua vida, e que ainda são importantes.

Cada um que vem, traz algo, permanece algum tempo, e parte. Assim como os pensamentos vêm, trazem algo, permanecem algum tempo, e partem. Como os desejos e os sofrimentos vêm, trazem algo, permanecem algum tempo, e partem. Como também a vida vem, nos traz algo, permanece algum tempo, e parte.

Terminada a festa, aquela pessoa fica em sua casa, cheia de presentes. Junto dela só permanecem aqueles aos quais convém ficar mais um pouco. Ela vai à janela, olha para fora e avista outras casas.

Sabe que nelas um dia também haverá uma festa. Também ela comparecerá, levará algo, ficará algum tempo, e partirá.

Nós também estamos aqui numa festa: trouxemos algo, recebemos algo, ficaremos ainda algum tempo, e partiremos.

 

Esta é “A Festa”, do livro “No centro sentimos leveza”, escrito por Anton “Suitbert” Hellinger, conhecido simplesmente como Bert Hellinger – psicoterapeuta alemão e criador das Constelações Sistémicas.

O texto em si diz tudo. Todos, de alguma forma contribuímos com a nossa existência e a nossa presença para a vida de outros, que nos são mais ou menos próximos, com maior ou menor impacto.

De igual forma, outros contribuem, com o que nos trazem para esta nossa vida de construção e surpresas, que um dia se inicia mas também acaba. Nada é fixo e nada é permanente, ainda assim, nesta passagem deixamos sempre algo a alguém, levamos sempre algo connosco também.

O que nos têm trazido? O que estamos nós a dar àqueles que partilham connosco esta Festa?

A boneca viajante de Kafka e as suas lições

 

Conta-se que certo dia, estariam Kafka e a namorada a passear juntos num parque no bairro onde viviam, em Berlim, quando viram uma menina a chorar. Kafka terá ficado curioso para saber o que teria acontecido para deixar a menina tão desconsolada. A razão era simples, a menina havia perdido a sua única boneca. Para animá-la, Kafka disse que não se preocupasse porque a boneca estava apenas a viajar.

Como sabe? – terá questionado a menina.

Ela escreveu-me uma carta. – respondeu Kafka.

Onde está a carta? – perguntou ela.

Está em minha casa, mas posso trazê-la amanhã.

Comprometido com mentira que acabara de contar, Kafka escreveu uma cartinha e levou-a ao parque no dia seguinte, onde a menina o esperava.

Na carta, a boneca explicava o porquê de ter partido para viajar, justificando a troca da sua amada dona por uma aventura.

A correspondência terá se prolongado por três semanas, tendo Kafka entregado pontualmente à menina outras cartas, que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo.

Segundo a namorada, que o via se fechar-se em casa para escrever as cartas, Kafka punha tanto esforço nas mensagens da boneca viajante quanto dedicava à sua literatura.

Decidir um destino final para a boneca terá sido uma tarefa especialmente dura. Quando Kafka decidiu terminar com os encontros presenteou a menina com uma nova boneca, obviamente diferente da boneca original. Numa carta que a acompanhava explicou:

As minhas viagens transformaram-me…

Muitos anos depois, a menina, então já jovem, encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca que Kafka lhe entregara. Em resumo, dizia:

Tudo o que amas, eventualmente perderás, mas, no fim, o amor retornará de uma forma diferente.

 

Não se sabendo ao certo se se tratará de uma história verídica, o que se sabe é que foi publicada em vários jornais e acabou por inspirar o escritor Jordi Sierra i Fabra a escrever a premiada obra “Kafka e a Boneca Viajante”.

A nós esta história inspira-nos a no dia-a-dia estarmos atentos a oportunidades para contribuirmos para melhorar a vida de alguém, desconhecido ou não, transformando a realidade, por vezes amarga e insensível, numa versão mais doce e solidária, usando os pós de perlimpimpim da imaginação.

Por mais dura que seja a realidade, há sempre como apoiar e consolar num momento de perda, de tristeza, de desânimo, tornando aquele momento um pouco mais leve, mais positivo. Talvez não consigamos ser tão criativos como Kafka terá sido, mas entre encolher os ombros, ou oferecer o ombro a alguém, preferimos a segunda opção.

Importa também reter a última mensagem desta história e eventualmente mais marcante – Tudo o que amas, eventualmente perderás, mas, no fim, o amor retornará de uma forma diferente – porque de facto assim é. A realidade está em permanente mudança. Nada é fixo, nada é permanente. O que hoje temos, amanhã talvez já não tenhamos mais. Talvez se altere. Talvez desapareça. E não é algo que na maior parte das vezes possamos controlar. Ainda assim, com a consciência da inevitabilidade da mudança, talvez nos apazigue simplesmente confiarmos que a vida nos compensará reequilibrando a perda/dádiva e, desta forma, proporcionando novas transformações e aprendizagens.