A visita da tua vida

castelo

Uns tentam passar por entre os pingos da chuva, desejando ter uma vida sem grandes sobressaltos e incómodos. Talvez ficar sossegado no seu canto evite dissabores. Focam-se no que parece seguro, no que dá ‘estabilidade’. E por aqui andam, quase invisíveis, indiferentes à magia da mudança, à alegria dos encontros e reencontros da vida. A ver a vida passar, sem verdadeiramente a viverem.

Outros passam a vida apressados, em permanente contrarrelógio. Não se permitem parar, relaxar e apreciar. Quando o fazem, o ritmo acelerado a que se impuseram parece continuar a não dar tréguas. Remoem os dias passados, que não se podem alterar, as preocupações futuras, que não existem. Inventam com que se ocupar. E o tempo presente, esse, esfuma-se.

Num ou noutro caso, no final, nada houve que aproveitar, e acha-se que assim é a vida.

Esta história que li em “Conta Comigo”, de Jorge Bucay, fala da visita a um castelo e no dilema que foi para o visitante apreciar verdadeiramente essa visita. Será que apreciou?

Era uma vez um homem que estava a fazer um passeio turístico pela Europa. Ao chegar ao Reino Unido, comprou no aeroporto uma espécie de guia dos Castelos das ilhas. Alguns tinham dias de visita e outros horários muito estritos. Mas o mais atrativo era o que se apresentava como “A visita da tua vida”.
Nas fotografias, pelo menos, parecia um castelo nem mais nem menos espetacular que os outros mas era especialmente recomendado… Explicava que, por razões que depois se compreenderiam, as visitas não eram pagas antecipadamente, mas tinha de se fazer a marcação propondo um dia e uma hora, com antecedência. Intrigado com a diferença da proposta, o homem telefonou do hotel naquela mesma tarde e combinou um horário.

E qualquer parte do mundo acontece o mesmo: basta que se tenha uma marcação importante, com hora precisa e necessidade de ser pontual, para que tudo se complique. Esta não foi uma exceção, e o turista chegou ao palácio dez minutos mais tarde do que a hora marcada.

Apresentou-se diante de um homem com saia de xadrez que o esperava e lhe deu as boas-vindas.

– Os outros já foram com o guia? – perguntou.
– Não. As visitas são individuais e não temos guias.
Sem fazer qualquer menção ao horário, explicou-lhe um pouco da história do castelo e sugeriu-lhe algumas coisas a que deveria prestar uma atenção especial. As pinturas nas paredes. As armaduras da mansarda. As máquinas de guerra do salão Nobre, debaixo das escadas, as catacumbas e a sala de torturas na masmorra. Dito isto, deu-lhe uma colher e pediu-lhe que a segurasse horizontalmente com a parte côncava virada para o tecto.
– Para que é isso? – perguntou o visitante.
– Nós não cobramos antecipadamente a visita. Para avaliar o custo do seu passeio, recorremos a este mecanismo. Cada visitante leva uma colher como esta cheia até cima de areia fina. Cabem aqui exatamente 100 gramas. Depois de percorrer o castelo, pesamos a areia que ficou na colher e cobramos uma libra por cada grama que tenha perdido… é uma maneira de avaliar o custo da limpeza – explicou.
– E se não perder nem um grama?
– Ah, meu caro senhor, então a sua visita ao castelo será gratuita.

Entre divertido e surpreendido com a proposta, o homem viu como o seu anfitrião enchia a colher e começou logo a sua viagem. Confiando no seu pulso, subiu as escadas muito devagar e com olhar fixo na colher. Ao chegar lá cima, à sala das armaduras, preferiu não entrar porque lhe pareceu que o vento faria voar areia e decidiu descer cuidadosamente. Ao passar junto ao salão que exibia máquinas de guerra, debaixo das escadas, deu-se conta de que para as ver com vagar era forçosamente necessário inclinar-se segurando ao parapeito. Não era perigoso para a sua integridade, mas fazê-lo implicava a certeza de derramar algum do controle da colher, por isso conformou-se em olhar para elas de longe. O mesmo se passou com a mais que inclinada escada que levava às masmorras. Pelo corredor de regresso ao ponto de partida, caminhou satisfeito em direção ao homem com a saia escocesa, que o aguardava com a balança. Ali esvaziou o conteúdo da sua colher e esperou o ditame do homem.

– Assombroso, perdeu menos de meio grama – anunciou. – Felicito-o, tal como o senhor previu, esta visita saiu-lhe gratuita.
– Obrigado…
– Gostou da visita? – perguntou finalmente o rececionista.
O turista hesitou e por fim decidiu ser sincero.
– A verdade é que não muito. Estava tão ocupado a tentar não entornar a areia que não tive oportunidade de olhar para o que o senhor me sugeriu.
– Mas… que disparate! Olhe, vou fazer uma exceção. Vou encher outra vez a colher, porque é a norma, mas agora esqueça-se de quanto vai derramar. Faltam 12 minutos para que chegue o próximo visitante. Vá e regresse antes que ele chegue.

Sem perder tempo, o homem pegou na colher e correu para a mansarda; ao chegar aí deu uma olhadela rápida ao que havia e desceu a correr para as masmorras, enchendo as escadas de areia. Não se demorou quase nada, porque os minutos passavam e voou praticamente até à passagem debaixo das escadas, onde, ao inclinar-se para entrar, deixou cair a colher e derramou todo o seu conteúdo. Olhou para o relógio, tinham passado 11 minutos. Ficou outra vez sem ver as máquinas e correu em direção ao homem da entrada a quem entregou a colher vazia.

– Bom, desta vez sem areia, mas não se preocupe, temos um acordo. Que tal? Desfrutou da visita?
O visitante hesitou outra vez por uns momentos.
– A verdade é que não – respondeu por fim. – Estive tão preocupado em chegar antes do outro, que perdi toda a areia, mas voltei a não desfrutar de nada.

O guia acendeu o cachimbo e disse-lhe:
– Há os que percorrem o castelo da vida procurando que não lhes custe nada, e não conseguem desfrutar dele. Há outros que estão tão apressados em chegar rapidamente que perdem tudo sem o desfrutar. Alguns aprendem esta lição e demoram o tempo que julgam necessário em cada percurso. Descobrem e apreciam cada canto, cada passo. Sabem que não será gratuito, mas entendem que os custos de viver valem a pena.