Também as levei e não morri

bater em criança

 

Quando o tema são as palmadas, ainda que convenientemente apelidadas de ‘pedagógicas’, é certo e sabido que a dada altura alguém há-de argumentar:

Também as levei e não morri.

Nessa altura, se por ventura não digo, pelo menos penso:

– Mas numa relação entre pais e filhos o objectivo é sobreviver?

 

É certo que uma palmada não mata (literalmente), e no momento até resolve aquele comportamento.

Oiço quem diga:

– Quando mais nada funciona, uma palmada funciona sempre.

Aí dou a mão à palmatória (salvo seja). De facto a palmada funciona. Se não funcionasse não havia tanta apologia da palmada ‘pedagógica’.

Mas já pararam para pensar a que preço funciona?

Quando damos a dita palmada estamos a ‘pensar’ nos seus efeitos a longo prazo ou apenas a curto prazo?

Em primeiro lugar, não é por acaso que coloco entre aspas a palavra pensar. Na verdade, quando atingimos este limiar, o que acontece é que o cérebro, sob a pretensa ameaça da inquietude, refilice ou birra da criança, sente-se provocado a reagir e sem mais recursos para se controlar, acede ao modo ‘sobrevivência’.

Uma vez aí, domado pelo impulso ‘luta ou fuga’ sentimos que a única forma de voltarmos ao controlo da situação é dar a palmada.

 

No imediato, e na maior parte dos casos, a palmada interrompe os maus comportamentos. Até porque o próprio cérebro da criança, entra no mesmo mood e percebe que perante o cenário em que a sua integridade está em causa confrontado com alguém a quem não conseguem fazer frente, terá de parar (fuga) para ‘sobreviver’.

 

Vários estudos têm revelado ao longo dos anos que crianças habituadas a punições, como a dita palmada, tendem a tornar-se rebeldes ou temerosamente submissas. Numa situação em que as crianças são expostas a este tipo de reações, mas também outros como castigos, gritos, ameaças, há quatro respostas prováveis:

 

Ressentimento

A criança pensa/decide:

– Isso não é justo. Não posso confiar nos adultos.

Retaliação

A criança pensa/decide:

– Ganhaste agora mas hei-de vingar-me.

Rebeldia

A criança pensa/decide:

– Vou fazer exatamente o contrário para provar que não tenho de fazer como tu queres.

Recuo

A criança pensa/decide:

– Da próxima vez vou fazer de tal forma que não descubras. (dissimulação)

– Faço sempre asneira. Sou mesmo uma nódoa. (baixa auto-estima)

 

Nem sempre este processo é consciente e a crença que a criança formula, bem como a ‘decisão’ que toma, dependerão sempre do contexto e do seu temperamento. De qualquer forma, é algo que devemos ter atenção quando usamos métodos punitivos ao educar.

 

Entre as respostas que a criança pode dar a que mais me assusta é por ventura a última, a do recuo que afeta a auto-estima. Talvez porque me identifique com ela…

Nestas circunstâncias a criança passa a acreditar que há algo de errado com ela. É corroída pela culpa. Assume do rótulo de ser alguém que não faz nada direito, que é má, que só faz os outros passarem vergonha, que não devia ter nascido,… Não se sente acolhida, amada ou importante, e andará numa constante luta por agradar, subjugando as suas próprias necessidades interiores às expectativas dos outros.

As crianças aprendem a olhar para os outros como referência para decidirem se estão a fazer o que é correto ou não, em vez de aprenderem a se autoavaliarem. Desenvolvem uma estima baseada nos outros e não uma auto-estima.

 

Para além disso, uma criança que é punida recorrentemente (seja em maior ou menor escala) tendencialmente não deixa de amar os pais e até arranjará forma de os defender e desculpar, mas tenderá a deixar de se amar, de lutar por si e pela sua integridade. E esta é uma decisão que levará de forma mais ou menos consciente pela vida.

 

No momento em que sentirmos que a situação está a fugir ao nosso controlo e que não conseguimos aceder a recursos mais racionais e respeitosos para nós e para a criança, devemos fazer uma pausa. Por vezes basta contar até 10.

Segundo o neurologista John Dylan Haynes, 10 segundos é o interregno de tempo entre o impulso de ação (num pico da atividade cerebral) e tomada efetiva de consciência quanto à decisão tomada, basicamente, é o tempo médio que levamos até que nos caia a ficha.

 

Se o impulso for muito intenso e continuar a ser alimentado pelo estado da criança naquele momento (agradeçam aos ‘neurónios espelho’) pode ser útil avisarmos a criança que nos vamos retirar porque não nos sentimos em condições de resolver a situação. Se for preciso, fujam para casa de banho para passar água no rosto.

Já sei o que estão a pensar:

– Era só o que faltava! E ela safa-se assim?!

Perguntem-se a vocês mesmos: o que é mais importante? Mostrar à criança quem manda, passando-lhe a mensagem que o mais forte conseguirá sempre subjugar o mais fraco, com todas as repercussões que daqui se podem retirar? Ou conquistar o respeito da criança, por meio do autocontrolo e autorregulação que se está a modelar e que, com certeza, no futuro fará toda a diferença nas interações que a criança vier a ter?

Na minha opinião, a segunda parece-me a melhor opção. Mas obviamente, cada um sabe de si e das suas próprias escolhas.

 

Posto isto, quando controlado o vosso impulso de punir, procurem acalmar a criança. Muitas vezes propor um abraço ajuda.

Depois, quando todos estiverem calmos, conversem sobre o que se passou, sem julgamento e procurando validar o que um e outro sentiram, mostrando empatia pela necessidade da criança, ainda que deixando claro que não concordamos com o comportamento. É razoável nesta sequência convidar a criança a pensar numa solução e, se ela própria não conseguir chegar lá, oferecer-lhe recursos para numa próxima situação conseguir responder de uma forma mais adequada. É que não basta dizer que a criança não pode fazer isto ou aquilo. É preciso ajudá-la a perceber o que pode fazer.

 

Não pensem no entanto que seguindo estes passos haverá sempre cooperação e que o mau comportamento não retornará. Não é assim que funciona e não há receitas infalíveis.

Tudo isto é um processo e treino e devemos ter em mente que o próprio cérebro da criança está em desenvolvimento até por volta dos 20/25 anos de idade. Até lá cabe ao adulto ter muita paciência, aprender a autocontrolar-se e regular-se (ele, mais do que a criança terá essa capacidade) e confiar no modelo que é para construção daquela criança.

 

Crédito imagem @criandocomapego

Liliana Ferreira

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