Como um amor de ‘ses’ e ‘mas’ influencia a autoestima dos nossos filhos

 

“Quando se planta uma alface, se ela não crescer bem, não se culpa a alface. Procura-se ver os motivos porque não está crescer bem. Pode precisar de fertilizante, de mais água, ou menos sol. Nunca se culpa a alface.
No entanto, se tivermos problemas com os nossos amigos ou família, culpamos a outra pessoa. Mas se nós soubermos como cuidar deles, eles vão crescer bem, como a alface.
Culpar não tem qualquer efeito positivo, tal como tentar convencer usando a razão e argumentos. Essa é a minha experiência. Sem culpa, sem raciocínio, nenhum argumento, apenas a compreensão. Se entenderes isto, e mostrares que entendes, poderás então amar e a situação vai mudar.”

Esta reflexão do monge vietnamita Thich Nhat Hanh explica, de forma muito simples e assertiva, o que é de facto o amor incondicional. Se amamos incondicionalmente não há ‘se’, nem ‘mas’. Amamos, compreendemos, aceitamos, confiamos. Respondemos às causas e circunstâncias que afetam os nossos filhos e não sobre a pessoa que são.

Quantas vezes com os nossos filhos (e não só) apregoamos aos sete ventos que os amamos incondicionalmente, e ainda assim, no dia-a-dia as nossas palavras e ações traem-nos.
Não está em causa que se diga ‘não’ a um filho, que se corrija e oriente as suas atitudes, dizendo-lhe que algo que fez ou disse está incorreto ou que o seu comportamento foi inadequado. É legítimo que precise de “mais água” ou “menos sol” e é nosso dever providenciar que tem o que precisa para se desenvolver (diferente de ter o que quer). É importante que a criança perceba que estamos atentos às suas necessidades e disponíveis para ajudá-la no seu crescimento da forma mais respeitosa e positiva possível, mesmo quando o ‘positiva’ exige que se lhe diga ‘não’ e se exoplique as circunstâncias porque, por amor, não podemos permitir que algo aconteça.

Enquanto pais temos o dever de fazer com que os nossos filhos se sintam ouvidos, respeitados, reconhecidos e amados. Aliar a nossa relação a um vínculo forte e a uma necessária empatia para com os seus sentimentos, motivações e necessidades, potencia que cresçam confiantes, que desenvolvam uma saudável autoestima e autonomia e que aprendam a valorizar os outros tal e qual eles são.

Traíamos no entanto as juras de amor incondicional que lhes fazemos quando os avaliamos em função:
– dos seus comportamentos como mais ou menos merecedores da nossa atenção, presença e afeto;
– dos resultados que obtém;
– das capacidades e competências que conseguem desenvolver, às vezes em comparações despropositadas com outras crianças (comos e cada criança não fosse única);
– das expectativas que, mais ou menos secretamente, criamos e objetivos/metas que entendemos deverem alcançar, estes nem sempre ajustados ao nível de desenvolvimento em que a criança se encontra.

No seu crescimento os nossos filhos sentem então sobre si a pressão de corresponder aos padrões que estipulamos e que todos os outros modelos de referência tendem a projetar também. A barómetro do seu valor passa a estar subjugado não ao que eles são intrinsecamente mas a como se manifestam – o que fazem, como se expressam e a avaliação que os outros fazem disso. É uma valorização que se alimenta do exterior em vez de se nutrir no interior.

Essa disrupção entre o que são e o que se espera que sejam fragiliza-os, tornando-os dependentes de elogios constantes, recompensas e prémios para se sentirem valorizados e amados. Para crianças com baixa autoestima vale tudo por migalhas desse amor que tanto precisam. Há ainda a tendência de tornarem-se competitivos e egocêntricos, sempre em prol de passarem a melhor imagem, de agradarem.  Todos sabemos que a vida nem sempre corre de feição, e quando assim é, a autoestima, tão volátil nos que sentem amor condicional, cai a pique e eles sentem-se perdidos, receosos, ansiosos, desamparados e vulneráveis. Se uns se acomodam a estes sentimentos tornando-se tímidos, reservados,  reprimindo o que sentem, outros há que lutam contra a pressão que sentem e então são catalogados de rebeldes, revoltados e inconformados, porque a necessidade de se libertarem das amarras (expectativas e controlo) a que se sentem presos é o que os guia. Muitas vezes esta revolta não é percetível durante a infância, mas tende a evidenciar-se na adolescência.

Se atendermos às suas necessidades e sentimentos, validando a integridade e igual valor que neles reside, orientando-os para que que reconheçam as suas capacidades e que se responsabilizem pelos seus atos, aprendendo, quando incorretos, com eles. Só então estaremos a honrar o amor incondicional que tão facilmente nos sai da boca para fora, mas que nem sempre se revela nas nossas ações e na comunicação quotidiana.

Vamos brincar com o Quantos Queres das Emoções?

Jardim de infância

Poucos dias depois de ter feito a Certificação de Educação Parental em Disciplina Positiva tive a oportunidade de abordar o tema da gestão das emoções e da Disciplina Positiva numa pequena atividade em sala de aula, com as crianças da sala do Pré-Escolar da minha filha, e, mais tarde, nesse mesmo dia, com os pais, numa breve dinâmica feita durante a reunião do semestre.

O convite surgiu, em parte, por indicação da minha disponibilidade e interesse em abordar o tema das emoções com os meninos, por outro lado, pela educadora da B – entusiasta e sensível aos temas do desenvolvimento das competências emocionais na infância – que, sabendo que iria fazer a certificação, me desafiou a, para além da sessão com os meninos, fazer uma dinâmica com os pais, por considerar importante, numa altura de transição para as crianças (que se preparam para entrar na primária), sensibilizar para formas de aligeirar a mudança e ajudar pais e filhos a enfrentarem, de uma forma mais positiva, os novos desafios.

Confesso que foi grande o entusiasmo mas também a responsabilidade que senti. Aproveitámos uns dias de férias meus para marcar as dinâmicas. Até lá procurei reunir informação e preparar os momentos de cada sessão.

Exigentes como só eles, de manhã, com os pequenos, optei por explicar-lhes como funciona o nosso cérebro através da analogia do cérebro na palma da mão do Dr. Daniel Siegel. Uma introdução à neurobiologia muito divertida que as crianças adoraram.

Falámos de estados  emocionais de medo, de raiva, tristeza e alegria, e também do desafio que são birras, que lhes são tão comuns (mas também aos papás e outros adultos), e de como nos podemos acalmar e relaxar nesses momentos. Para melhor compreenderem a importância da consciência das nossas emoções e atos, contei-lhes a história do lobo bom e do lobo mau para perceberem que gerir as emoções é um exercício que devemos fazer constantemente. Estamos sempre a ser desafiados a alimentar um outro lobo pelo que é importante estarem atentos e perguntarem-se: Que lobo quero alimentar? Em casa, como sabem, resulta lembrar-nos desta história.

Antes de terminar fizemos um breve momento de meditação. Sentados como sapinhos, pedi que colocassem as mãos sobre a barriga e durante dois minutos estivessem atentos às inspirações e expirações que fariam subir e descer as suas barriguinhas.

Para finalizar entreguei-lhe um miminho, idealizado por mim mas desenvolvido criativamente pelo meu marido. Um Quantos Queres das Emoções, para construírem e, em casa ou com os amigos, brincarem a reconhecer as próprias emoções e identificarem as situações que as fazem sentirem-se zangadas, frustradas, tristes, assustadas, desmotivadas, empolgadas, calmas e felizes.

Durante os 45 minutos que durou a sessão estiveram muito participativos e concentrados, o que fez com que o tempo parecesse voar.

Já à tarde a história foi outra. Nós, adultos, somos mais céticos. Termos uma outra mãe a falar-nos sobre perfis de parentalidade e a desafiar-nos a tornarmo-nos mais conscientes da educação que queremos para os nossos filhos causa estranheza. Embora sinta a parentalidade consciente como uma missão de vida que procuro trazer para a minha família, mas que também gostaria de levar a mais pessoas, o certo é que a minha timidez e insegurança não torna esta exposição uma coisa fácil. Ainda assim também sei que apesar de me sentir pouco confortável nestas circunstâncias não é algo que transpareça exteriormente.

Depois de pedir aos pais para identificarmos comportamentos desafiantes e habilidades de vida que gostaríamos que os nossos filhos desenvolvessem fizemos uma dinâmica na qual uma das mães fez o papel de ‘criança’ e os restantes pais participantes dispuseram-se de um lado e do outro. A um dos lados foram entregues frases encorajadoras e, ao outro, frases desmotivadoras que correntemente utilizamos ou já ouvíamos alguém dizer, às vezes lembrando a nossa própria infância. A mãe ‘criança’ andou de pai em pai, alternando o lado, e ouvindo o que estes pais tinham a lhe dizer. No final da dinâmica refletimos em conjunto.

Primeiro convidei a mãe ‘criança’ a dizer como se sentiu ao encarnar este papel e em que lado se sentiu mais acolhida e inspirada a desenvolver as habilidades de vida que havíamos listado anteriormente ou, por outro lado, se sentiu pouco aceite e desafiada a fazer birras, responder mal, amuar, etc. Em conjunto refletimos sobre as frases e revimo-nos em algumas delas, para o bem e para o mal, o que creio nos ajudou a ter uma maior consciência do impacto do que muitas vezes dizemos, tantas vezes em modo piloto automático.

Foi curta a dinâmica com os pais. Senti que muito ficou por dizer e explicar quanto a alternativas e ferramentas de que nos podemos servir para estar mais atentos e sermos pais mais positivos na relação com os nossos filhos. Ainda assim, foi muito bom poder abordar com outros pais este tema e sentir que há abertura para refletirmos juntos em como podemos ser melhores, por nós e pelos nossos.

Por toda a partilha possibilitada neste dia só tenho a agradecer toda a generosidade e dedicação da professora Paula Madeira e ao Jardim de Infância da Restauração, mas também toda a disponibilidade e forma sincera e recetiva como os meninos e os pais me ouviram a participaram nas dinâmicas que pude desenvolver com todos nesse dia.

Apesar das minhas inseguranças e receios, que venham mais, muitas mais partilhas desta, boas e saudáveis.

E por falar em partilha da boa e saudável, cliquem AQUI e imprimam, guardem ou partilhem com as vossas crianças, família e amigos o Quantos Queres das Emoções.