O medo não é um bicho-papão

Eu e o meu medo

De que é que tens medo?

De nada!

“Nada”?…

Sim. Não tenho medo de nada!

Hummm… Desconfiem quando alguém vos disser que não tem medo de nada.

Será que há mesmo alguém que não tenha medo de nada? Não me parece… Mas o medo também não precisa de ser um bicho-papão. Para que não tenhamos medo de sentir medo, há que conhecê-lo e aprender a lidar com ele.

O medo é uma emoção básica ou primária, sendo talvez das emoções mais presentes nas nossas vidas, desde que somos bem pequenos e que se perpetua ao longo da nossa vida.

É certo que se há coisa que não gostamos de sentir é medo, mas é natural e desejável que se sinta porque tem uma função importante na nossa vida: afastar-nos e proteger-nos dos perigos ou ameaças à nossa sobrevivência física ou emocional.

 

Reação fisiológica ao medo

Quando o sentimos o nosso corpo reage de forma a permitir uma resposta de fuga-paralização.

O corpo imobiliza-se por um breve momento para ter tempo de decidir se foge ou se se esconde. Para permitir a fuga o sangue flui para os grandes músculos esqueléticos mas o rosto empalidece por causa da perda de fluxo sanguíneo (o que provoca também a sensação de frio). O corpo fica tenso por via das hormonas que o colocam em alerta geral enquanto a atenção se foca na ameaça.

Medos típicos por idade

Em função das idades das crianças há medos de desenvolvimento que são típicos e normais. Segundo a Oficina da Psicologia, antes dos 2 anos as crianças tendem a ter medo de pessoas desconhecidas, de estar longe ou separadas dos pais, das alturas, de ruídos fortes e objectos ameaçadores. O escuro e os animais são medos comuns entre os 2 e os 4 anos. Dos 4 aos 6 é frequente as crianças terem medo de pessoas “más” ou “malvadas”, de feridas corporais, envolvimento em acidentes, relâmpagos e trovões, de dormir sozinho no quarto e de seres imaginários como monstros, fantasmas e bruxas. Entre os 7 e os 8 anos viajar de avião, terramotos, cheias e outras catástrofes naturais, guerras e atentados, doenças graves e ser raptados, afiguram-se como recorrentes. E aos 9 a morte (sua ou de terceiros), assim como preocupações referentes a desempenho escolar, aparência, amizades, são situações que as crianças temem.

 

Emoções da mesma família

O medo é, como refere Daniel Goleman no livro Inteligência Emocional, uma emoção primária e a partir dela, com diferentes tonalidades e intensidades, encontramos outras emoções que podem ser consideradas membros da sua família. São elas: ansiedade, apreensão, nervosismo, preocupação, consternação, receio, precaução, aflição, desconfiança, pavor, horror, terror e psicopatologias como fobia e pânico.

 

Dicas para ajudar a criança a lidar com o medo

Se ter medo é normal, então quando uma criança manifesta essa emoção, há coisas que podemos e outras que não devemos fazer para a ensinar a lidar de forma saudável com ela:

  1. Permita que a criança fale sobre o que receia e não a repreenda por se sentir assim. A criança deve sentir que tem espaço para falar sobre o que sente e explicar, sem julgamentos, porque não se sente segura.
  2. Rir ou ser irónico em relação a um medo identificado pela criança é algo que nunca devemos fazer. Ao fazê-lo a criança não só não aprende lidar com esta emoção mas a reprimi-la, como acresce o percepção de mal-estar ao sentir-se desconsiderada e ridicularizada.
  3. Não obrigue a criança a enfrentar o medo de forma abrupta. Em vez disso ajude-a a construir uma estratégia para que aos poucos ela consiga ir atenuando o medo até que se sinta capaz de conviver com ele ou eliminá-lo.
  4. Desenhar ou construir uma história divertida sobre ele pode ajudar a aligeirar a intensidade com que a criança sente aquele medo e perspectivá-lo como menos ameaçador.
  5. Conte-lhe sobre um medo que sentiu e como lidou com ele para que ela compreenda que sentir medo é normal e que há forma de o superar, com o seu exemplo.
  6. Lembre-a de momentos de superação da própria criança, mostrando a capacidade que ela tem em enfrentar dificuldades e de ser corajosa.

 

Eu e o meu Medo

As histórias infantis e metáforas falam a linguagem do coração e permitem-nos retrabalhar temas de cariz emocional de forma simbólica e com uma eficácia que os processos mais racionais não conseguem.

Por isso, ao falarmos de medos, nomeadamente na infância, não podíamos deixar de recomendar o livro Eu e o Meu Medo, de Francesca Sanna, editado em Portugal pela Fábula.

SINOPSE

Quando uma menina muda de país e entra para uma escola nova, o seu medo tenta convencê-la a ficar sozinha e assustada. Como pode ela fazer amigos, se não entende o que as pessoas dizem? De certeza que mais ninguém se sente assim?

Depois da obra-prima A Viagem, que alcançou um enorme sucesso, a autora conta-nos, com delicadeza, como podemos encontrar amizade e conforto quando partilhamos os nossos medos.

Um livro com um excelente cuidado gráfico, que aborda uma questão difícil com muita sensibilidade.

 

Boas leituras!

Liliana Ferreira

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