Amuletos de amor para o regresso às aulas… e outros desafios que os pequenos enfrentam

 

Todos nós nos deparamos com dias mais desafiantes de quando a quando. Dias que nos tiram da zona de conforto, que nos exigem mais, que aguçam ou expõem as nossas fragilidades. Dias em que somos confrontados com o que desconhecemos e simplesmente preferíamos manter-nos no nosso casulo. Nessa altura recorremos o melhor que podemos a estratégias mais ou menos elaboradas para aumentar a nossa autoconfiança. Erguemos a cabeça e seguimos em frente, mesmo sentindo o coração tropeçar a cada passo. Isto somos mais ou menos nós, os adultos…

Mas quando a situação se passa com uma criança, como fazemos para aumentar o seu conforto, para a tranquilizar? Como a fazemos crer que aconteça o que acontecer ‘está tudo bem’? Que estratégias temos para a apoiar, especialmente naqueles dias que não vamos poder estar ao seu lado o tempo todo, a segurar-lhe a mão?

Com a B há algum tempo que utilizamos um recurso que a tem ajudado a enfrentar com mais confiança os desafios dos dias mais difíceis.

Há 3 anos, como presente de Dia da Mãe, a B, na altura com 3 anos, ofereceu-me uma pulseira em macramê com uma pedra da cor dos seus olhos. Desde desse dia que é raro tirá-la do pulso. A única exceção acontece apenas nestes dias difíceis que ela enfrenta.

A primeira vez que a senti insegura e temerosa foi no dia em que foi para a nova escola do pré-escolar, deixando os amigos que a acompanhavam há dois anos. Sabia que apesar da espontaneidade dela e da sua capacidade de socialização aquele primeiro dia, num novo espaço, com adultos e crianças estranhas, deixava-a intimidada. Quando a fui deixar de manhã ela abraçou-se a mim e disse que não queria ali ficar. Eu tinha de ir trabalhar e sabia que ela rapidamente se ambientaria, mas precisava de a ajudar a sentir-se confortável e confiante. Recordei-me então de uma história que tinha lido, a de um pequeno guaxinim. Procurando adaptá-la ao contexto, lembrei-me que podia transformar a minha pulseira, que ela sabia ser tão especial, num amuleto de amor que nos unia às duas. Tirei a pulseira do pulso enquanto ela olhava com estranheza para o que estava a fazer e disse-lhe:

– Sabes que a mãe adora esta pulseira porque sempre que olho para ela me lembro de ti e dos teus lindos olhos, e também porque foi um presente que me deste com muito amor. Ter esta pulseira comigo aquece-me o coração porque me faz sentir que estou sempre contigo, esteja onde estiver.

E perguntei-lhe:

– Queres hoje ficar com a minha pulseira? Acho que ela te vai ajudar a lembrar que apesar de ficares nesta escola que não conheces com pessoas que te são estranhas, não ficas só. Assim, há um pouco de mim que fica contigo.

O rosto dela, até então temeroso, iluminou-se num sorriso.

Pedi-lhe para ter o cuidado de não a tirar porque era uma pulseira muito especial, mas sempre que durante o dia se sentisse mais triste ou assustada podia olhar para ela e tocar na pedra. Essa pedra iria lembrar-lhe do grande amor que sinto por ela e dar-lhe força até que nos voltássemos a ver ao fim do dia.

Assim foi nesse dia. E no dia em que participou numa pecinha de teatro apresentada noutra escola… E no dia em que foi de passeio, para fora… E no dia em que a mãe de uma amiguinha da escola a levou para lanchar e passar a tarde com as amigas na casa dela… E no último dia do pré-escolar em que ia falar ao microfone e participar nas marchas com toda a gente a assistir. Foi também assim nesta segunda-feira, em que passados quinze dias em que esteve permanentemente connosco durante as férias, voltou à escola, mas não à que conhecia. Foi para a escola dos ‘crescidos’, ao lado da Pré, onde vai frequentar o 1º Ciclo.

Enquanto me afastava pude ouvi-la entusiasmada a explicar porque é que a mãe lhe tinha confiado a pulseira que trazia no pulso.

Fui-me embora tranquila, com o pulso mais leve, mas de coração cheio.

 

Para quem tiver curiosidade, se quiser inspirar ou simplesmente ler às suas crianças, esta é a história do pequeno guaxinim*:

Era uma vez um guaxinim chamado Chester, que vivia na floresta com a sua família. Chegou o mês de Setembro e a escola estava quase a começar. Mas o Chester não queria ir para a escola! Ele gostava tanto, mas tanto da sua mãe, que não queria separar-se dela… Por isso andava triste, assustado e angustiado, com a ideia de que o dia de ir para a escola estava mesmo quase a chegar.

A mãe explicou-lhe que a nova escola era muito bonita e nova a professora muito amiga, mas não adiantou nada… O Chester continuava triste e preocupado!

Até que chegou o grande dia e a mãe, ao vê-lo triste, contou-lhe um segredo muito antigo, chamado “um beijo na mão”.

Com muita ternura abriu-lhe a mãozinha e beijou-a carinhosamente. O Chester sentiu o calorzinho do amor da mãe, que subiu da mão para o braço e do braço para o coração e ficou logo a sentir-se melhor.

“Quando estiveres triste ou assustado, encosta a mão ao teu coraçãozinho e verás que logo ficas bem!” disse-lhe a mãe.

E assim foi. O Chester foi para a escola contente e tudo lhe correu bem, pois sabia que podia separar-se da sua mãe, porque o amor dela irá sempre com ele, no seu coração, para onde quer que ele vá!

 

*adaptação da história original A Kissing Hand for Chester Raccoon de Audrey Penn

Porque gritamos quando estamos com raiva?

raiva

Um velho sábio perguntou aos seus discípulos:
– Porque é que as pessoas gritam quando estão com raiva?
Após pensarem durante alguns instantes um deles respondeu:
– Porque perdemos a calma. É por isso que gritamos.
– Mas porquê gritar quando a outra pessoa está ao teu lado? Não é possível falar com a pessoa em voz baixa?
Os discípulos deram algumas respostas mas nenhuma deixou o velho sábio satisfeito. Então ele explicou:
– Quando duas pessoas estão com raiva, os seus corações distanciam-se um do outro. Para encurtar essa distância, gritam para serem ouvidos. Quanto mais irritados estiverem, com mais intensidade terão de gritar para se fazerem ouvir, de tão grande que é a distância.
Então o sábio perguntou:
– E o que acontece quando duas pessoas se amam? Eles não gritam. Falam suavemente. E porquê? Porque os seus corações estão muito próximos. A distância entre eles é muito pequena. Quando se apaixonam mais ainda, o que acontece? Eles não falam, apenas sussurram e se aproximam ainda mais do seu amor. Finalmente, nem precisam sussurrar, apenas olham um para o outro e é isso…
Concluindo a explicação, disse aos seus discípulos:
– Quando argumentarem, não deixem os vossos corações se afastarem. Não permitam que saiam das vossas bocas palavras que os distanciem ainda mais. Pois, se assim acontecer, chegará um dia em que a distância é tão grande que não encontrarão o caminho de volta, e de nada adiantará gritar.

Conheci recentemente este conto tibetano através portal da Revista Pazes e achei-o delicioso.

Tão interessante esta analogia entre o gritar e o afastamento que provocamos entre os nossos e outros corações quando nos deixamos tomar pela raiva nas discussões que temos, seja em que esfera for da nossa vida.

E o contrário também é verdade. Quanta doçura não há em duas pessoas que se amam e conversam pausadamente, sem elevar a voz? Quanto mais íntimos mais baixo o tom que utilizam para se falar, mais próximos os corações, até que as palavras deixam de ser necessárias. Seja entre casais, com amigos, filhos, ou outros que nos são próximos, tão bom que é este entendimento sentido de tanto se dizer, tanto afeto se transmitir, sem sequer dizermos uma palavra que seja.

“A pedra no caminho” | Quando o reclamar e a inércia andam de mãos dadas

Pedra no caminho

 

Era uma vez um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis, mas todas se destinavam a ensinar ao seu povo a ser trabalhador e prudente.

Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

Primeiro, veio um camponês com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?
E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

Distraído, o soldado não viu a pedra. Tropeçou nela e estatelou-se no chão. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho. Mas disse consigo própria:

Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.

E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o camponês e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram- se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A deceção é normalmente o preço da preguiça.

Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando as boas-noites, retirou-se.

 

Gosto muito deste conto de William J. Bennett, d’O Livro das Virtudes II, porque mete o dedo na ferida e desafia-nos a agir mais do que reclamar perante as adversidades.

Sabemos que reclamar é praticamente um desporto nacional e, ou muito me engano, ou já se elevou também a uma escala global. E a inércia é-lhe companheira neste caminho, ainda que procurando muitas vezes mascarar-se de indignação sentida mas infrutífera.

Apesar de ser desgastante o ato de julgar, criticar, lamentar e reclamar, são na verdade poucos os que, deparando-se com uma contrariedade, se propõem fazer algo para a resolver. É mais fácil esperar que outros o façam ou que a situação se resolva por si, enquanto se continua na tribuna a ditar sentenças.

Não é que não tenhamos o direito a reclamar se nos deparamos com algo que consideramos errado, mas essa energia que se gera deve dar origem a uma ação de resposta que se proponha a fazer o certo, a fazer algo positivo por nós e pelos outros, a transformar a realidade que não nos serve.

Acontece que o altruísmo não é uma prática frequente. É preciso deixar de julgar para simplesmente observar. Deixar de reclamar ou lamentar para pensar em soluções. Ser um crítico construtivo ao invés de meramente destrutivo. Mas aí vem o desporto do ‘deita abaixo’ que por norma reúne maior consenso e dá muito menos trabalho. Não raras vezes, as soluções construtivas acarretam, para quem se propõem a fazer diferente, olhares de reprovação, desconfiança e/ou comentários de escárnio.

O que importa perceber nesta vida é como é que podemos ser um elemento válido de transformação e não mais um elemento desestabilizador. Raiva, frustração, medo, inveja, impotência… são sentimentos que todos nós experienciamos, mas o que fazemos com essa energia que fica latente? Servimo-nos dela para mudar de uma forma positiva a realidade e dar-lhe uma nova luz de esperança ou atracamo-nos a ela, qual sanguessugas, tornando a realidade ainda mais desesperante, escura e sombria? Esta é a escolha que somos constantemente convidados a fazer.