Nãoooo!!!!! Essa era a última! (o drama, ou talvez não…)

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Há momentos que nos fazem verdadeiramente acreditar que estamos no bom caminho.

A B (6 anos) estava a terminar de jantar. Por sua vez, o pai, que já tinha terminado o prato principal, tirou da fruteira a última maçã verde que lá estava.

De repente a B grita desesperada:
– Pai!!!!!!!!!!

Ficamos a olhar para ela, sem perceber bem de onde vinha aquilo. Mas eis que ela pára… respira fundo… e, mais controlada, diz:

– Pai, essa é a última maçã verde que temos em casa. Eu estou a acabar e depois também queria comer essa maçã. Achas que podes cortá-la ao meio e guardar uma metade para eu depois comer?

Naturalmente que foi o que o pai fez. Mas não pudemos deixar de nos surpreender com a forma como ela geriu aquele momento.

Por várias vezes, em que reagiu intempestivamente a uma situação, lhe disse:
– Foca-te na solução. Não vale a pena chorares sobre o leite derramado. Quanto mais pensares no problema maior ele fica e menos capacidade tens de o resolver, porque estás a dar importância ao que realmente já não é importante.

Desta vez, ela, sem qualquer ajuda, foi capaz de se auto-controlar e focar a sua energia no que realmente importava: encontrar uma solução respeitadora para ambos os envolvidos.

Esta é a educação em que acreditamos e isto são (literalmente) os frutos de educar com firmeza e gentileza, com foco na solução. Porque se ensinamos com respeito, reciprocamente é respeito que vamos obter.

Focar na solução melhora o ambiente familiar e reduz as lutas de poder. Incentiva à cooperação e a ver o lado do outro, bem como, a desenvolver habilidades de resolução de problemas e conflitos que as nossas crianças levam para o resto da vida.

Presta atenção! Há sempre alguém que precisa de um abraço.

Presta Atenção

 

Temos de prestar mais atenção a quem nos rodeia, seja próximo, conhecido ou não.

Deparei-me com este vídeo do movimento #SmallTalkSavesLives e recordei-me que há bem pouco tempo descia no elevador para a plataforma do metro. Uma rapariga desceu no elevador comigo. Encostada num canto, procurando passar despercebida, vi-a tentar esconder a tristeza ou a angústia que a consumia. Tinha os olhos rasos de lágrimas que teimava em não deixar verter.

O elevador parou. Saí e ela também, atrás de mim. Dirigi-me para a plataforma, mas não ia em paz. Afinal, eu vi aquela expressão. Eu vi aquelas lágrimas desesperadas por caírem e sem saberem como o fazer. Talvez não caíssem por vergonha do que alguém poderia pensar de quem chora num sítio público, perdida no desamparo de quem passa e finge não ver, ou até se incomoda pela exposição das lágrimas alheias.

Parei. Regressei para junto da rapariga que andava lentamente, e então deixava cair uma ou outra lágrima, porque terá pensado que ninguém repararia.

Abordei-a:

Desculpe… Precisa de alguma coisa?

Surpreendida e algo envergonhada, respondeu:

– Não… Está tudo bem…

Acho que todos nós conhecemos esse ‘está tudo bem’… Já o dissemos em algum momento em que tínhamos um nó na garanta, um aperto no coração, que não conseguindo desamarrar, mas procurámos ocultá-lo com estas palavras, talvez para tentarmos resolver mais tarde, a sós com os nossos botões. Alguns seguiram satisfeitos com esta resposta, pensando que fizeram o que podiam. Outros ficaram e procuraram confortar do jeito que lhes era possível ou permitido.

Eu fiquei e perguntei:

Posso dar-lhe um abraço?

Porquê?!…

– Sinto que precisa de um abraço… Posso?

Entre lágrimas abriu-se um sorriso de surpresa e talvez de alguma esperança reencontrada também.

Sim, pode…

E foi um abraço longo o suficiente e apertado qb para que ela sentisse que, ainda que eu fosse uma estranha, vinda sabe-se lá de onde, seguindo para onde quer que fosse, há sempre alguém que se importa, há sempre alguém que nos vê, há sempre alguém que nos diz, mesmo num murmúrio quase abafado naquele abraço inesperado:

Não sei o que se passou, mas seja lá o que for, tudo passa e tudo há-de ficar bem. Força!

Antes de regressar ao meu caminho, deixei-a com mais um sorriso de compadecido que ela calorosamente me retribuiu também, com um Obrigado sussurrado.

Não sei que caminho ela seguiu. Eu de alguma forma segui mais em paz no meu caminho, porque parei e me importei com aquela pessoa que sofria e dei o que pude e me foi permitido. Não sei se foi muito ou pouco. Não sei até que ponto fez diferença. Mas sei que parei. Saí de mim para ver o outro, sentir o que reprimia. Dei um pouco de mim e espero, de coração, ter ajudado.

 

Partilho este episódio porque acredito que todos nós podemos, a todo o momento, parar e ver-nos sem julgamentos, sem preconceitos, sem pudores, sem armaduras ou máscaras. Podemos simplesmente parar e confortar. Sem esperar nada em troca. Apenas sendo o melhor que podemos ser. Sendo a humanidade que não passa indiferente, mas que se importa e acolhe, nem que seja num simples abraço.

 

@ Imagem campanha #smalltalkssaveslives