O Livro das Pequenas Revoluções

Não imagino aplicar-se todas as 250 ideias que esta autora propõe, embora não faça mal algum tentar. Entre todas estas o melhor mesmo é fazer uma triagem do que a cada um fará mais sentido trazer para a sua vida. São ideias simples que não carecem de tanto esforço quanto isso, mas que nos levam a refletir sobre quem somos, do que somos capazes, o que nos limita e que objetivos temos ou queremos alcançar, mas também nos convida a perspetivarmos novas formas de estar, de nos relacionarmos ou para instalar novos hábitos mais saudáveis a nível mental e físico.

Elsa Punset, formada em Filosofia e investigadora na área da Inteligência Emocional, preparou um guia muito completo com pequenas revoluções que todos nós podemos implementar fortalecendo o que temos de melhor como seres humanos e melhorando as nossas singularidades.

Este é um dos livros que tenho na mesa-de-cabeceira e que regularmente vou consultando para me inspirar a entrar em ação intencionalmente nesta prática de me tornar mais consciente e feliz.

Com tantas ideias que são apresentadas a minha estratégia passa por abrir numa página ao acaso propondo-me a colocar em prática a pequena revolução que me calhou em sorte.

A ideia do Pote da Felicidade, de que falamos no post anterior, veio precisamente deste livro.

 

Sinopse

Quer surpreender-se? Gostaria de ser mais objectivo e aberto? Procura aprender a inspirar-se e criar algo belo? Encontrará aqui os 250 exercícios que lhe permitirão dar pequenos passos para mudar a sua vida e o ambiente que o rodeia. Este é um livro diferente. As pequenas revoluções a que se refere o título são 250 exercícios breves que poderá empreender para mudar aqueles hábitos, costumes e maneiras de agir que hoje já não servem para si ou que lhe pesam directamente. Também está repleto de sugestões e de desafios, embora sempre seja você a decidir o que precisa e o que quer fazer. Com uma linguagem fácil, prática, divertida e directa, Elsa Punset propõe imensas ideias para se activar, descontrair, proteger-se dos ambientes tóxicos ou para conseguir abandonar a solidão. “O Livro das Pequenas Revoluções” foi criado para si, para que o use como melhor lhe aprouver e para que o leve consigo para toda a parte. Abra-o a qualquer momento em qualquer página, deixe-se surpreender por ele, tome todas as notas que quiser, leia-o ao seu ritmo. E o seu livro e acompanhá-lo-á para onde quer que vá.

 

Pote da Felicidade: um aliado para guardarmos o lado bom da vida

pote da felicidade

 

A neurociência explica que desde tempos ancestrais estamos “programados” a levarmos a vida com uma predisposição mais negativa que positiva. Esta forma de estar permite-nos estar alerta para as situações de perigo e sobreviver. Era assim há milhares de anos e ainda hoje mantemos nos nossos genes essa “programação”.

As emoções negativas tendem por instinto básico a prevalecer sobre as positivas. Estas para singrarem na nossa existência requerem um esforço adicional da nossa parte, uma espécie de treino mental para perspetivarmos a vida de um modo mais positivo. É por isso que tudo o que nos acontece de mau registamos com mais facilidade do que registamos o bom. Os momentos piores porque passamos têm tendência a manterem-se no nosso estado de espírito por mais tempo, assim como costumamos ruminar insistentemente pensamentos negativos. É uma questão de hábito para o qual nem sempre estamos conscientes mas que nos condiciona a forma de estar e molda a nossa forma de ser.

Focarmo-nos intencionalmente no bom que temos e nos acontece e sermos gratos por isso faz parte do treino mental que contraria a tendência ao negativismo em que instintivamente (sobre)vivemos. Porque nem sempre é fácil manter essa consciência há algumas estratégias que podemos adoptar para nos ajudar a criar o hábito pro-ativo de manter um foco positivo no dia-a-dia.

O pote da felicidade, criado por Elsa Punset (autora de O Livro das Pequenas Revoluções) como instrumento de educação emocional, é um aliado nesta frente que já usamos cá em casa.

Para criar este pote não tem nada que saber. Basta arranjar um pote em vidro (ou outro material transparente, não quebrável – mais prático para quem tem crianças pequenas), com uma tampa e arranjar folhas de várias cores. Nós temos uma cor para cada membro da família e outra cor extra para convidados que recebemos. Assim também eles podem deixar o registo do momento que passaram connosco.

O objetivo é enchermos o pode da felicidade com um evento em que tenhamos estado, um amigo que se encontrou, algo novo que experimentámos, uma conquista ou objectivo alcançado, algo inesperado mas feliz que aconteceu, uma partilha importante, boas ações que praticámos… Enfim, o que se quiser, desde que nos tenha acalentado o coração e inspirado um sorriso no rosto.

A ideia seria escolher todos os dias algo de positivo que nos tenha acontecido para registar. Contudo, no nosso caso adaptámos a ideia e, em vez de fazermos todos os dias, optámos por escolher um momento a registar a cada semana. Pode ser um momento único de algo de bom que aconteceu em família ou cada membro pode registar individualmente nas folhas algo de positivo que lhe tenha acontecido, seja por escrito ou através de um desenho – é o que fazem as pequenas da casa que ainda não sabem escrever. Nesse caso, fica a nosso cargo fazer as legendas e colocar a data.

Ultimamente, para além das folhas às cores, temos também colocado no pote fotos que tiramos de momentos especiais. Mais uma forma de ficarmos com memórias felizes para a posteridade.

Lá para o final do ano arranjaremos um momento para nos sentarmos e esvaziarmos o pote, ao mesmo tempo que enchemos o coração a rever tudo de bom que nos aconteceu ao longo dos últimos meses. Essas recordações serão depois guardadas e o pote fica disponível para receber mais registos felizes das nossas vidas.

Fazer este exercício numa base regular ajuda a reprogramar o cérebro a estar atento aos bons momentos tantas vezes menosprezados face ao que de mau existe. Ajuda-nos também a sermos gratos pelas coisas mais simples das nossas vidas. Por outro lado, ao fazermos esta atividade em família estamos também a reforçar a conexão entre nós ao mesmo tempo que educamos as nossas filhas para se fortalecerem emocionalmente com doses regulares de positividade intencional.

 

Como um amor de ‘ses’ e ‘mas’ influencia a autoestima dos nossos filhos

 

“Quando se planta uma alface, se ela não crescer bem, não se culpa a alface. Procura-se ver os motivos porque não está crescer bem. Pode precisar de fertilizante, de mais água, ou menos sol. Nunca se culpa a alface.
No entanto, se tivermos problemas com os nossos amigos ou família, culpamos a outra pessoa. Mas se nós soubermos como cuidar deles, eles vão crescer bem, como a alface.
Culpar não tem qualquer efeito positivo, tal como tentar convencer usando a razão e argumentos. Essa é a minha experiência. Sem culpa, sem raciocínio, nenhum argumento, apenas a compreensão. Se entenderes isto, e mostrares que entendes, poderás então amar e a situação vai mudar.”

Esta reflexão do monge vietnamita Thich Nhat Hanh explica, de forma muito simples e assertiva, o que é de facto o amor incondicional. Se amamos incondicionalmente não há ‘se’, nem ‘mas’. Amamos, compreendemos, aceitamos, confiamos. Respondemos às causas e circunstâncias que afetam os nossos filhos e não sobre a pessoa que são.

Quantas vezes com os nossos filhos (e não só) apregoamos aos sete ventos que os amamos incondicionalmente, e ainda assim, no dia-a-dia as nossas palavras e ações traem-nos.
Não está em causa que se diga ‘não’ a um filho, que se corrija e oriente as suas atitudes, dizendo-lhe que algo que fez ou disse está incorreto ou que o seu comportamento foi inadequado. É legítimo que precise de “mais água” ou “menos sol” e é nosso dever providenciar que tem o que precisa para se desenvolver (diferente de ter o que quer). É importante que a criança perceba que estamos atentos às suas necessidades e disponíveis para ajudá-la no seu crescimento da forma mais respeitosa e positiva possível, mesmo quando o ‘positiva’ exige que se lhe diga ‘não’ e se exoplique as circunstâncias porque, por amor, não podemos permitir que algo aconteça.

Enquanto pais temos o dever de fazer com que os nossos filhos se sintam ouvidos, respeitados, reconhecidos e amados. Aliar a nossa relação a um vínculo forte e a uma necessária empatia para com os seus sentimentos, motivações e necessidades, potencia que cresçam confiantes, que desenvolvam uma saudável autoestima e autonomia e que aprendam a valorizar os outros tal e qual eles são.

Traíamos no entanto as juras de amor incondicional que lhes fazemos quando os avaliamos em função:
– dos seus comportamentos como mais ou menos merecedores da nossa atenção, presença e afeto;
– dos resultados que obtém;
– das capacidades e competências que conseguem desenvolver, às vezes em comparações despropositadas com outras crianças (comos e cada criança não fosse única);
– das expectativas que, mais ou menos secretamente, criamos e objetivos/metas que entendemos deverem alcançar, estes nem sempre ajustados ao nível de desenvolvimento em que a criança se encontra.

No seu crescimento os nossos filhos sentem então sobre si a pressão de corresponder aos padrões que estipulamos e que todos os outros modelos de referência tendem a projetar também. A barómetro do seu valor passa a estar subjugado não ao que eles são intrinsecamente mas a como se manifestam – o que fazem, como se expressam e a avaliação que os outros fazem disso. É uma valorização que se alimenta do exterior em vez de se nutrir no interior.

Essa disrupção entre o que são e o que se espera que sejam fragiliza-os, tornando-os dependentes de elogios constantes, recompensas e prémios para se sentirem valorizados e amados. Para crianças com baixa autoestima vale tudo por migalhas desse amor que tanto precisam. Há ainda a tendência de tornarem-se competitivos e egocêntricos, sempre em prol de passarem a melhor imagem, de agradarem.  Todos sabemos que a vida nem sempre corre de feição, e quando assim é, a autoestima, tão volátil nos que sentem amor condicional, cai a pique e eles sentem-se perdidos, receosos, ansiosos, desamparados e vulneráveis. Se uns se acomodam a estes sentimentos tornando-se tímidos, reservados,  reprimindo o que sentem, outros há que lutam contra a pressão que sentem e então são catalogados de rebeldes, revoltados e inconformados, porque a necessidade de se libertarem das amarras (expectativas e controlo) a que se sentem presos é o que os guia. Muitas vezes esta revolta não é percetível durante a infância, mas tende a evidenciar-se na adolescência.

Se atendermos às suas necessidades e sentimentos, validando a integridade e igual valor que neles reside, orientando-os para que que reconheçam as suas capacidades e que se responsabilizem pelos seus atos, aprendendo, quando incorretos, com eles. Só então estaremos a honrar o amor incondicional que tão facilmente nos sai da boca para fora, mas que nem sempre se revela nas nossas ações e na comunicação quotidiana.