Como reage o nosso corpo às emoções?

reações do corpo

Desde tempos ancestrais o nosso cérebro emocional, desencadeando determinado tipo de reações face à situação com que nos confrontamos, tem-nos permitido sobreviver e prosperar enquanto espécie.

O facto de hoje estar a escrever este texto e de o poderem ler é muito mérito dos nossos mais longínquos antepassados que passaram as passas do Algarve para nos fazerem chegar aqui. Ora eram os predadores, as secas ou outras intempéries fatais, ou então a fome, os acidentes, as maleitas e outros incómodos que tais. Certo era que chegar aos 30 anos era uma proeza há uns bons milhares de anos. Com o advento da agricultura, acomodámo-nos às regiões onde nos instalámos, construímos abrigos, aprendemos a defendermo-nos das feras, e a partir daí foi ver a esperança média de vida a aumentar, aumentar, aumentar, até à referência dos nossos dias.

É certo que hoje já não nos deparamos com as condições inóspitas de outras eras, mas, pelo sim, pelo não, os nossos antepassados certificaram-se em registar nos nossos genes a informação necessária para que perante determinadas circunstâncias estejamos aptos a reagir no modus operandi que garantiu até aqui a sobrevivência da espécie. Em estratégia que ganha não se mexe, não é verdade? E por isso, quer se queira quer não, o nosso cérebro emocional (que antecede o desenvolvimento do nosso cérebro racional), dotado do seu canivete suíço das emoções, continua a prevalecer quando enfrentamos situações mais complicadas ou decisivas.

Mas o que foi à luz da época uma vantagem evolutiva pode ser hoje uma enorme dor de cabeça.

É por isso que sabermos identificar o reportório de emoções que existe em nós, como se formam e se manifestam, é o primeiro passo para estarmos aptos a treinar a autorregulação e prevenir ‘finais’ infelizes.

Apesar de não ser consensual e ser uma área ainda em exploração por investigadores da área da psicologia e neurociências estas são mais algumas das emoções básicas e as suas reações biológicas/fisiológicas que Daniel Goleman descreve em ‘Inteligência Emocional’:

Ira – Faz aumentar o ritmo cardíaco, subir os níveis de adrenalina gerando uma onda de energia vigorosa e faz o sangue fluir para as mãos. Há milhares de anos foi crucial para nos defender e mesmo abater feras que nos ameaçavam – ainda hoje assim o é. Mas quando a ira se apodera nos dias de hoje de um adulto que perde a  numa discussão ou de um jovem ou adolescente que se altera por se sentir injustiçado ou marginalizado, esta emoção faz estragos dramáticos que com regularidade nos chegam através dos meios de comunicação social.

Medo – Para permitir a fuga o sangue flui para os grandes músculos esqueléticos mas o rosto empalidece por causa da perda de fluxo sanguíneo (o que provoca também a sensação de frio). O corpo imobiliza-se por um breve momento para ter tempo de decidir se foge ou se se esconde. O corpo fica tenso por via das hormonas que o colocam em alerta geral enquanto a atenção se foca na ameaça. Algo engraçado que trazemos ainda nos genes é o facto de ficarmos em alerta sempre que ouvimos o som ‘Pssssstttttttttt’. Recorda-nos o sibilar de uma cobra, nossa arqui-inimiga de longos tempos.

Bem-estar – Desencadeia-se uma atividade acrescida de um centro do cérebro que inibe sentimentos negativos e favorece um aumento de energia que predispõe a desempenhar tarefas e perseguir objetivos. Sentimos um estado de calma que faz o corpo recuperar mais rapidamente da agitação provocada pelas emoções perturbadoras.

Amor – Em contraposição ao medo e ira que nos mobilizam para uma reação “luta-ou-fuga”, esta emoção provoca uma excitação parassimpática, uma resposta de relaxamento. Gera um estado geral de calma, contentamento e facilita a cooperação.

Surpresa – Para aumentar o acesso à informação arqueamos a sobrancelha, o que permite o alargamento do campo visual e entrada de mais luz na retina.

Repulsa – É uma expressão igual em qualquer parte do mundo. O lábio superior fica repuxado para o lado e o nariz levemente franzido. Segundo Darwin esta seria uma tentativa de tapar as narinas contra o odor ofensivo ou de cuspir o alimento venenoso.

Tristeza – Ajuda a adaptarmo-nos a uma perda significativa, como a morte de alguém querido ou um grande desgosto. Aporta uma quebra de energia e de entusiasmo. À medida que se acentua e aproxima da depressão abranda o metabolismo do corpo. Dada a vulnerabilidade do momento esta perda de energia, que nos permite processar o sucedido e avaliar as consequências, seria útil aos nossos antepassados primitivos para que se mantivessem nas proximidades de lugares que lhes eram familiares e onde estariam mais seguros.

As emoções são preponderantes no rumo que as nossas vidas levam. A maior parte das vezes, na idade adulta, o nosso cérebro emocional e o racional tendem a trabalhar harmoniosamente em conjunto para nos dotar do máximo de recursos para tomarmos as melhores decisões. Mas é o cérebro emocional que continua, para o bem e para o mal, em momentos de tensão, a ganhar no braço de ferro emoção vs razão, porque é a ele que cabe o papel de guardião primordial da nossa sobrevivência. Está gravado nos nossos genes. É ele que recebe, analisa e primeiro decide sobre a informação que recebe do exterior, emitindo, se entender motivo para tal, sinais de emergência para vários circuitos de resposta automática do nosso corpo, e em última instância pode mesmo bloquear a passagem da informação à área pensante. Se entender que uma situação, pessoa, animal ou objeto nos pode fazer mal ou colocar em perigo funciona imediatamente como um detonador neuronal, ativando todos os centros de ação que considerar necessários para nos defender e anulando outros.

O nosso cérebro emocional é muito bem intencionado, mas tem rastilho curto e tem tendência a ferver em pouco água à mínima perturbação. Não o interpretem mal. Levou milhares de anos a perceber o que funcionava para nos proteger de cenários fatais à nossa existência. Contudo, não tem conseguido fazer todas os updates necessários para adequar a resposta ao contexto da vida moderna, que como sabemos altera a realidade da nossa vivência enquanto espécie a um ritmo vertiginoso. Na impossibilidade de acompanhar este ritmo, continua muitas vezes a recorrer a estratégias da idade da pedra. Resta-nos a consciência dos processos que se desenrolam em nós, a observância das nossas reações, bem como uma educação para as emoções que nos permite avaliar , autorregular e treinar para respostas mais adequadas.

Porque gritamos quando estamos com raiva?

raiva

Um velho sábio perguntou aos seus discípulos:
– Porque é que as pessoas gritam quando estão com raiva?
Após pensarem durante alguns instantes um deles respondeu:
– Porque perdemos a calma. É por isso que gritamos.
– Mas porquê gritar quando a outra pessoa está ao teu lado? Não é possível falar com a pessoa em voz baixa?
Os discípulos deram algumas respostas mas nenhuma deixou o velho sábio satisfeito. Então ele explicou:
– Quando duas pessoas estão com raiva, os seus corações distanciam-se um do outro. Para encurtar essa distância, gritam para serem ouvidos. Quanto mais irritados estiverem, com mais intensidade terão de gritar para se fazerem ouvir, de tão grande que é a distância.
Então o sábio perguntou:
– E o que acontece quando duas pessoas se amam? Eles não gritam. Falam suavemente. E porquê? Porque os seus corações estão muito próximos. A distância entre eles é muito pequena. Quando se apaixonam mais ainda, o que acontece? Eles não falam, apenas sussurram e se aproximam ainda mais do seu amor. Finalmente, nem precisam sussurrar, apenas olham um para o outro e é isso…
Concluindo a explicação, disse aos seus discípulos:
– Quando argumentarem, não deixem os vossos corações se afastarem. Não permitam que saiam das vossas bocas palavras que os distanciem ainda mais. Pois, se assim acontecer, chegará um dia em que a distância é tão grande que não encontrarão o caminho de volta, e de nada adiantará gritar.

Conheci recentemente este conto tibetano através portal da Revista Pazes e achei-o delicioso.

Tão interessante esta analogia entre o gritar e o afastamento que provocamos entre os nossos e outros corações quando nos deixamos tomar pela raiva nas discussões que temos, seja em que esfera for da nossa vida.

E o contrário também é verdade. Quanta doçura não há em duas pessoas que se amam e conversam pausadamente, sem elevar a voz? Quanto mais íntimos mais baixo o tom que utilizam para se falar, mais próximos os corações, até que as palavras deixam de ser necessárias. Seja entre casais, com amigos, filhos, ou outros que nos são próximos, tão bom que é este entendimento sentido de tanto se dizer, tanto afeto se transmitir, sem sequer dizermos uma palavra que seja.

Quando ensinamos o valor da superação vs competição

Running

 

Este fim-de-semana o Nuno participou numa corrida à noite. Como era próximo de casa eu e as meninas fomos com o pai para o apoiar.

A L (2 anos) entusiasmada com a novidade de estar a assistir a uma corrida e ver todo aquele ambiente de esforço de quem corre e apoio de quem assiste, batia palmas a praticamente todos os corredores que por nós passavam.

A B (5 anos) não achou que a mana estivesse correta e chamou-lhe à atenção:

– Não é para bateres palmas a todos. É só ao pai!

Percebi que era uma boa oportunidade para ensinar algo sobre superação, altruísmo e cooperação às minhas filhas.

A B reagiu como a maior parte de nós reage neste mundo onde a competição está mais do que enraizada e até é enaltecida. A sociedade faz-nos acreditar que há um ‘nós VS os outros’ e eu acredito que a educação pode reverter essa perceção tão egocêntrica e transformá-la em algo mais unificador e positivo.

Foi então que me dirigi à B:

– Sabes filha, a mana não está a fazer nada de mal, até pelo contrário. Não faz mal apoiarmos os corredores porque todos eles, como o pai, estão a correr não para serem melhores do que os outros mas para serem melhores do que foram anteriormente. O pai não está a correr contra eles. Está a competir consigo mesmo. O pai corre para ser melhor corredor a cada corrida que faz, para se superar, e não para ganhar aos outros. Por isso é muito bom apoiarmos o pai a superar as metas que ele coloca para si. Dá-lhe mais força se contar connosco do seu lado a motivá-lo. Mas também é muito bom, se podermos, levar esse apoio a outras pessoas. Nós não perdemos nada com isso. Na verdade todos ganham mais. Aliás, já viste quantos corredores estão nesta corrida? Só um pode realmente ficar em primeiro. Nem por isso todos os outros que não subirem ao pódio vão ficar tristes. Participaram e superaram-se e essa é a grande vitória.

A partir daí, a meu lado passei a ter duas entusiastas a vibrar com cada pessoa que passava por nós, a aplaudir e a gritar ‘Boa!!!’. Até os participantes das caminhadas tiveram direito a palavras de incentivo destas duas apoiantes.

Esta situação fez-me lembrar as palavras de Maria Montessori:

As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. Quando educarmos para cooperarmos e sermos solidários uns com os outros, nesse dia estaremos a educar para a paz.