Aprender a valorizar as nossas falhas com a técnica ‘Kintsukuroi’

Na hora do jantar chamámos a B para a mesa. Estava a ver desenhos animados e, como tal, não estava muito interessada em desligar. O pai foi chamá-la novamente à sala. Ela nem esteve de modas. Furiosa, atirou com uma almofada ao pai. Em resposta, o pai deu-lhe mais duas almofadas para que atirasse também essas, se achava que era a atitude correta.
Zangado com o comportamento o pai regressou à cozinha.
Atrás dele, mantendo a distância de segurança, vinha ela, frustrada e ressentida, sentindo-se a dona da razão.Dela não teve nem um pedido de desculpa ou sequer sentiu réstia de arrependimento.
Ao invés, ainda antes de se sentar à mesa, perguntou:
– Posso comer um docinho no final da refeição?
O pai disse-lhe logo:
Não me parece!
Correu a chorar para o quarto, cheia de raiva por não atenderem ao seu pedido. Gritava:
Ai é?!! Então não como!!!
Dei-lhe um pouco de espaço e tempo, mas passado uns minutos fui ao quarto. Sentada na cama com ela disse-lhe que compreendia que ficasse chateada por ter de deixar de ver TV para ir jantar, mas ao longo de todo o dia em que estávamos fora de casa e não podíamos partilhar os momentos em família, parecia-me que o mais importante era estarmos juntos. Por isso não queríamos ter de jantar sem ela.
Expressou então que estava magoada por não poder ver televisão, mas também por o pai não a deixar comer um doce. Fiz-lhe ver que se calhar a atitude que ela tinha tido quando o pai a foi chamar à sala não tinha sido a mais correta e por isso o pai zangou-se. Pedi-lhe que me acompanhasse para resolvermos a situação todos juntos, a falarmos, “porque é assim que nos entendemos”.
Nessa altura tinha em mente que esta poderia ser uma boa oportunidade para lhe ensinarmos que quando alguém é rude, bruto ou agressivo connosco, essa atitude deixa sempre marcas.
Para lhe explicar fui buscar uma folha de papel nova. Mostrei-lha para que tivesse a noção do quão lisinha e imaculada estava. Depois entreguei-lha e pedi que a amachucasse. Assim o fez, até com alguma satisfação. Pedi-lhe de volta a folha e disse-lhe que a ia tentar endireitar. Depois de o fazer perguntei-lhe se estava igual a como a viu antes. A resposta, naturalmente, foi “não”.
Disse-lhe então:
Tal como aconteceu com esta folha, quando magoamos alguém, seja com palavras ou fisicamente, há sempre marcas que ficam e é por isso que dizemos que ‘as desculpas não se pedem, evitam-se’. Também por isso, sempre que nos irritamos, tanto quanto possível devemos procurar acalmar-nos antes de responder ou reagir, porque corremos o risco de magoar as pessoas.
Ela compreendeu mas ficou muito apreensiva:
O pai vai ficar com marcas por causa de como eu me portei?
Ora aqui está a pergunta que se impunha e me fez balançar as pernas a pensar ‘Ups! Como é que eu agora saio desta?’, mas lembrei-me então de uma técnica muito especial que facilmente a faria perceber o poder reparador de reconhecermos os nossos erros e de aprendermos com eles. Respondi-lhe então:
Sabes, há uma técnica (Kintsukuroi) que os japoneses utilizam quando uma peça em cerâmica se parte e que de alguma forma nós também utilizamos para nos repararmos quando estas situações acontecem com aqueles que mais amamos. Esta técnica japonesa consiste em reparar a peça partida utilizando uma mistura de laca e pó de ouro. Assim, a peça que se tinha danificado, apesar de ficar com marcas, acaba por ganhar uma nova vida e um novo valor. Isto para te dizer, que se souberes reconhecer o que aconteceu e aprender com isso, falando com o pai, vais ver que o amor que vos une ficará ainda mais bonito e fortalecido. É o que acontece quando fazemos algo incorreto a alguém que amamos e nos ama e procuramos reparar com consciência o que foi feito. É certo que fica com as marcas, mas se soubermos usar o nosso erro e aprender com ele, valorizamos ainda mais a ligação que temos com quem nos ama, porque essa ligação ajuda-nos a descobrir coisas muito importantes.
O coração dela sossegou e percebeu que devia reconhecer o que fez para ‘reparar’ a situação. Custou um pouco mas fê-lo.

Não importa se fazemos sempre tudo bem, porque ninguém faz tudo bem sempre. Cometemos sempre erros por vários motivos, o que é expectável e humano. E se assim é, para que servem as nossas falhas se não aproveitamos para aprender com elas? Sabemos acrescentar-lhes valor e tornar o que se quebrou ainda mais forte, único e especial?
O desafio está em não nos focarmos na culpa e na vergonha pelo mal causado, mas sim na solução e na aprendizagem que essa situação proporciona. Essa é a grande transformação que valoriza as nossas falhas e que de facto enriquece as nossas vidas.
Imperfeições todos temos, mas se soubermos reparar com sabedoria, não teremos de esconder as nossas falhas e erros. Ao invés, podemos assumi-los como algo que faz parte de nós e que nos constrói também tal como somos. Desta forma, crescemos com mais compaixão por nós e pelos outros e com mais motivos para celebrar tudo o que a vida nos ensina, com o bom e com o mau.

O Pássaro da Alma

Foi numa feira do livro que encontrei esta preciosidade. O título desde logo despertou-me a atenção e, estando no meio de livros infantis, não resisti e folheio-o, tentando perceber se o conteúdo não seria demasiado esotérico.

Apaixonei-me rapidamente por este pássaro e pelo despertar que entendi que levaria às minhas duas pequenas lá de casa.

Que maneira tão simples de falar da nossa essência, da profundidade e complexidade do que somos, e despertar os pequenos seres, através de uma sensível e divertida narrativa pelos trilhos tão inexplorados das emoções e do autoconhecimento.

O Pássaro da Alma, de Michal Snunit, é um encanto para qualquer idade e igualmente desafiador pela mensagem implícita que nos traz.

Depois de explicar o que é a alma, como se manifesta no nosso dia-a-dia e que gavetas (emoções) abre nas mais diversas circunstâncias com que nos deparamos, sugere que os pequenos aprendizes da vida procurem ouvir o que o seu pássaro interior tem para lhes dizer e que conversem com ele. Um desafio tão necessário como revelador na vida de qualquer pessoa.

Numa destas noites O Pássaro da Alma foi o livro escolhido para ler antes de dormir. No final diz-me a B, já reconfortada com esta bela história e aconchegada entre as mantas:
– Mãe, sabes que gaveta o meu pássaro abriu agora?
– Qual?
– A dos miminhos!, respondeu-me, abrindo um enorme e ternurento sorriso.
Abracei-a e à mana que estava no meu colo. E disse-lhes:
– Sabem que gaveta abriu o meu pássaro? A da ternura e do amor!
Nestes abraços a três os nossos pássaros crescem e crescem e crescem em cada uma de nós numa paz que nos acolhe, nos conforta e nos une sempre um pouco mais.

Pássaro da AlmaSINOPSE

Obra de grande beleza poética, dirigida a todas as idades, mas especialmente aos mais pequenos, que é um bestseller no país donde a autora é natural, Israel, e em muitos outros onde tem sido traduzida. A relação entre a nossa alma e nós mesmos é explicada de forma delicada e poética neste livro. Esta obra foi galardoada com o Primeiro Prémio Internacional atribuído pela Fundação Espaço Crianças em Genebra no ano de 1993.

Boas leituras!

A Borboleta – Parábola sobre respeitar o ritmo da vida

A minha mãe era filha de um casal de camponeses de Entre Rios. Nasceu e cresceu no campo entre animais, pássaros e flores.

Ela contou-nos que uma manhã, quando passeava pelo bosque apanhando ramos caídos para acender o forno, viu um casulo de borboleta suspenso num galho partido. Pensou que seria mais seguro para a pobre larva levá-la para casa e tomá-la aos seus cuidados.

Ao chegar, pô-la debaixo de uma lâmpada para que esta lhe desse calor e encostou-a a uma janela para que o ar não lhe faltasse. Durante as horas seguintes, a minha mãe, permaneceu ao lado da sua protegida à espera do grande momento. Depois de uma longa espera, que não terminou senão na manhã seguinte, ela viu o casulo a rasgar-se e uma patinha pequena e felpuda a assomar lá de dentro. Era tudo mágico, e a minha mãe contava-nos que tinha a sensação de estar a presenciar um milagre. Mas, de repente, o milagre pareceu transformar-se em tragédia. A pequena borboleta parecia não ter força suficiente para romper o invólucro do seu casulo. Por mais força que fizesse, não conseguia sair pela pequena abertura da sua efémera casinha.

A minha mãe não podia deixar-se ficar sem fazer nada. Correu até ao quarto onde se guardavam as ferramentas e regressou com um par de pinças delicadas e uma tesoura comprida, fina e afiada, que a minha avó usava para fazer os seus bordados. Com muito cuidado para não tocar no inseto, foi cortando uma janela no casulo, para permitir que a borboleta saísse do seu invólucro. Depois de uns minutos de angústia, a pobre borboleta conseguiu deixar para trás o seu cárcere e caminhou aos tombos em direção à luz que vinha da janela. Conta minha mãe que, cheia de emoção, abriu a janela para lançar a recém-chegada no seu voo inaugural. No entanto, a borboleta não saiu a voar, nem sequer quando as pontas da pinça roçaram nela suavemente.

A minha mãe pensou que a borboleta estava assustada por causa da sua presença e deixou-a junto da janela aberta, segura de que não a encontraria ao regressar.

Depois de brincar toda a tarde, a minha mãe voltou para o seu quarto e encontrou junto à janela a sua borboleta imóvel, com as asinhas pegadas ao corpo e as patinhas hirtas viradas para o teto. A minha mãe contava-nos sempre com que angústia levara o inseto ao seu pai, para lhe contar tudo o que tinha acontecido e lhe perguntar que mais poderia ter feito para a ajudar. O meu avô, que aparentemente era uma daqueles sábios quase analfabetos que andam pelo mundo, acariciou-lhe a cabeça e disse-lhe que não havia mais nada que pudesse ter feito, que na realidade a ajuda indicada teria sido fazer menos e não mais.

Para poderem viver, as borboletas precisam desse esforço terrível que representa para elas romper a sua prisão, porque, durante esses instantes – explicou o meu avô -, o coração bate com muitíssima força e a pressão que se gera no seu aparelho circulatório primitivo injeta o sangue nas asas, que assim se expandem e lhe dão capacidade para voar. A borboleta que foi ajudada a sair do seu casulo nunca pôde expandir as suas asas, porque a minha mãe não a tinha deixado lutar pela vida. A minha mãe dizia-nos sempre que, muitas vezes, teria gostado de nos facilitar o caminho, mas lembrava-se da sua borboleta e preferia deixar-nos injetar as nossas asas com a força do nosso próprio coração.

 

Em “Conta comigo”, Jorge Bucay traz-nos esta história sobre a magia da vida e os seus ritmos próprios, mas também sobre a responsabilidade e necessidade de cada um dever desenvolver por si as capacidades que precisa para prover a sua sobrevivência e autonomia, ainda que possa ser um processo difícil e por isso, não raras vezes, procuremos facilitar.

Tentar que algo aconteça num tempo que não é o naturalmente adequado, apressando, forçando ou, ao invés, retardando ou ‘dando uma mãozinha’, mesmo que com as melhores intenções, poderá trazer consequências prejudiciais a um saudável desenvolvimento.

Valerá por isso a pena a pena lembrarmo-nos desta história sempre que nos sentirmos tentados a interferir nos ritmos próprios de cada um, bem como, a assumir tarefas e dores alheias que podem ser, para os ‘beneficiados’ da nossa boa vontade, essenciais para desenvolverem as competências de vida de que precisam.