Uma lagosta em burnout e a sua renovação

Burnout

 

Era uma vez uma lagosta…

Hummmm… Ia começar pela história da lagosta mas fará mais sentido começar por parte da minha história e sobre como vivi o síndrome de burnout. Mais tarde voltamos à lagosta e tudo fará mais sentido (prometo!).

Há dois anos, por esta altura, recebi indicação da minha obstetra que tinha de ficar de repouso até a L nascer. A minha pequenina nasceu em junho. Passei as primeiras semanas da baixa a sentir-me desenquadrada. Até então – fora a licença de gravidez da B – contavam-se pelos dedos da mão os dias em que fiquei por casa, por indicação médica. Quando estamos habituados às exigências e rotinas do trabalho, é difícil desligar, mas passadas umas semanas finalmente desliguei e liguei-me à minha bebé e à minha família, e foram meses muito bem vividos.

Passado um ano o dilema era outro. Já de regresso à ‘vida ativa’ após a licença, mas ainda com horário reduzido de amamentação, comecei a contar o tempo (ou a ver esfumar-se o tempo) para o momento em que haveria de voltar a trabalhar a ‘tempo inteiro’.

Mãe de uma bebé de poucos meses e de uma menina de 4 anos, sempre a sair de casa por volta das 7h30 para as deixar na ama e na escolinha e seguir para o trabalho, custava-me pensar que daí a pouco tempo deixaria de as ir buscar por volta das 17h30. Ao invés, passaria a chegar a casa já só pelas 19h30.

A perspetiva, de estar praticamente 12h00 fora de casa, de as deixar entregues a outros cuidados que não os meus, numa espécie de ‘institucionalização’ forçada, era uma violência e deixava-me psicologicamente de rastos.

Insistentemente pensava que não tinha sido mãe para que outros educassem as minhas filhas, para que outros assistissem às suas conquistas do dia-a-dia, rissem com elas, enxugassem as suas lágrimas, as apoiassem em cada nova aprendizagem, lhes dessem resquícios de amor que por completo só eu poderia dar… Enquanto eu, longe, lastimava tudo aquilo que perdia e culpava-me por não estar presente no papel que mais me competia e que tanto queria abraçar.

As semanas foram passando e a angústia aumentava. À culpa e tormento que me esmagava o peito e me engolia as palavras que não conseguia expressar, mas que ocasionalmente à noite se transformavam em lágrimas que me tomavam quando finalmente deitava a cabeça na almofada, juntava-se a exigência constante de todos os dias cumprir com o que achava ser esperado de mim:

  • ser a melhor mãe para que elas, no pouco tempo útil que tinham comigo, me sentissem presente e incondicionalmente disponível e, assim, talvez se apagassem das suas memórias as horas de distância;
  • ser uma esposa carinhosa e atenta, porque o amor, aprendi, deve ser cultivado dia-a-dia e faz-se dos pormenores, dos carinhos, das partilhas e das atenções… mas tinha a cabeça numa roda viva e o coração num constante sobressalto;
  • ser uma profissional assertiva, criativa e produtiva, sempre pronta para um desafio e que prima por ter a check list de tarefas completa ao fim do dia e clientes satisfeitos, para acalentar a ilusória satisfação do dever cumprido;
  • manter a casa limpa e arrumada, roupa engomada, papelada organizada, frigorífico e despensa onde nada falte, almoços e jantares adiantados, contas em dia, orçamentos planeados,… toda a estabilidade que me faltava interiormente;
  • ser a irmã que ouve e aconselha e também a filha que cuida, apoia e trata das burocracias e chatices que com o tempo eles deixaram de conseguir acompanhar, não sabem como fazê-lo ou acham que a filha tem mais disponibilidade (afinal está o dia todo sentada a um computador…);
  • a amiga que não esquece e aproveita aqueles minutinhos da hora de almoço ou viagem para casa para ligar e combinar o lanche ou almoço que há meses se está para marcar, se houver tempo…

E, como se não bastasse…

  • ter uma imagem irrepreensível e adequada, mesmo que a depilação, as sobrancelhas, o cabelo, as unhas, a maquiagem, as roupas, sapatos e adereços, fossem as últimas das minhas prioridades.

 

Sentia-me impotente por tanto tentar e não conseguir ser a mãe, mulher, esposa, irmã, filha, amiga, profissional, whatever… tudo aquilo que ‘tinha’ de ser. Eu já não sabia quem era, nem o que podia dar, embora exteriormente, tudo parecesse igual ao que sempre foi.

Como seria de esperar, sentia a minha cabeça num frenesim imparável. Até o corpo se manifestava com dores de cabeça, pescoço e costas e fiquei mais magra. Andava stressada, nervosa, ansiosa e irritadiça. Temi que a curto prazo me passasse de vez. Cheguei a desabafar com o meu marido, a minha irmã e, eventualmente, alguma amiga mais próxima a asfixia em que me sentia. Os ombros de apoio sempre estiveram disponíveis mas eu continuava a sentir-me desamparada, sem saber como resolver esta angústia interminável e simplesmente… parar.

Por mim, de forma incontrolável, desfilavam os ‘muitos’ que precisava de gerir: muitas obrigações, muitas solicitações, muito trabalho, muita culpa, muita ansiedade, muito cansaço… Ao mesmo tempo escasseava o tempo, a paciência, a energia, o foco e o discernimento para conseguir aligeirar o dia-a-dia e recuperar a paz de espírito. Demasiadas variáveis para uma só pessoa controlar.

Na altura eu não sabia mas hoje, observando bem, acredito que sofria do síndrome de burnout (embora não clinicamente diagnosticado).

Esta forte inquietação levou-me a questionar o que teria de fazer para me reencontrar, aligeirar esta angústia existencial, valorizar a vida e o que de bom me dá, minimizar as contrariedades e aceitar, com serenidade, tudo o que não podia mudar.

Confesso que ler para mim sempre foi uma forma de me recentrar e encontrar as respostas pelas quais procuro. Em determinadas alturas dou por mim a fazer uma espécie de ‘livroterapia’ e creio que resulta.

Foi nessa altura que comecei a ler ‘Inteligência Emocional’ de Daniel Goleman, que me fez vislumbrar a vida e forma como lidava com as minhas emoções e tudo o que me acontecia e rodeava sob uma transformadora perspetiva, um olhar renovado, embora também já tivesse lido alguns livros de Augusto Cury onde encontrei igualmente uma janela de oportunidade para controlar esta demanda das emoções em autogestão. Mas esse momento foi de facto revelador para mim.

Impulsionou-me a querer compreender mais e a empreender para me dar a mim e aos meus uma melhor qualidade de vida. Entender os processos mentais por detrás das minhas escolhas, dos meus medos, das minhas angústias, das depressões e ansiedades que velam sorrateiramente a mente, mas também do que me alegra, entusiasma e estabiliza. Mas fez-me também perceber que tinha um longo caminho pela frente e que era essencial cuidar de mim para conseguir cuidar de todos aqueles que de alguma forma esperavam algo de mim.

Enquanto aprofundava o tema e colocava em prática algumas dicas que aqui e ali fui apanhando, o conceito de uma prática Mindfulness (atenção plena) foi surgindo com frequência. Ocorreu entretanto ter assistido a uma entrevista da Mikaela Övén e, em pesquisa, ter encontrado um curso online que ela orienta. Com a flexibilidade e mobilidade que me permitia, decidi avançar. De lá para cá, em cerca 8 meses, muito mudou em mim e na forma como me vejo e perspetivo a vida e o mundo, como me relaciono com os outros e como deixei de ver tudo tão a preto e branco, a ferro e fogo.

Continuo a trabalhar no mesmo sítio. Saio cedo e chego tarde a casa, na generalidade dos dias as mesmas 12 horas fora, mas estou a aprender a priorizar e valorizar o que realmente importa na minha vida e a tornar o tempo disponível em momento mágicos e preciosos, com um mínimo de desperdício possível.

Procuro julgar menos, ser mais paciente, confiar mais e resistir menos. Tento um pouco mais todos os dias viver com mais desapego e ter uma visão renovada perante o que surge e me rodeia, aceitando a vida tal e qual ela é, sendo grata e retribuindo a sua generosidade.

Muito recentemente dei mais um passo importantíssimo nesta caminhada por me reencontrar e trazer à minha vida um sentido e um legado, coerente com a pessoa que sou e com a mãe que procuro ser.

Porque acredito verdadeiramente que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo e que o que importa não é o que um dia deixarei para os outros mas o que deixarei nos outros, aventurei-me na Certificação Educação Parental em Disciplina Positiva (da Positive Discipline Association) conduzida por Fernanda Lee, com o apoio do GAIP (Mafra). Uma vez mais dei por mim a perceber o quanto as inquietações e os questionamentos interiores que vivemos podem ser enriquecedores e reveladores. Confrontei-me com as minhas fragilidades e crenças mas também me tornei mais consciente em relação ao quão forte pode ser o poder da empatia e de uma educação positiva na construção de uma pessoa que possa de facto construir para tornar este mundo num lugar melhor, ao invés de repetirmos insistentemente padrões obsoletos e destrutivos.

Agora que me sinto complemente desconstruída, é também hora de começar a construir. Começo por casa, em família, e depois logo se vê.

Em retrospetiva percebo que todas as dores pelas quais passei me ajudaram a superar a pessoa que era então e tornar-me um pouco mais completa e mais realizada, uma melhor versão de mim mesma.O que me leva à pergunta que se impõe: mas onde é que entra a lagosta nesta história?

Pois é, a dada altura percebi que na vida somos como a lagosta que à sua maneira também sofre de burnout:

A lagosta é um animal com um corpo mole envolto numa casca dura. No processo de crescimento, ao sentir-se desconfortável e sob pressão na sua casca – que não se expande, mas que lhe garante a proteção – a lagosta resolve, por força dessa dor que sente, esconder-se por detrás das rochas, despir-se da antiga casca e produzir uma nova.

Da dor que sente resulta a emergência da mudança que a faz adaptar-se de uma forma mais harmoniosa e plena às circunstâncias em que vive.

A parte desafiadora é que de novo, quando crescer mais, a lagosta voltará a sentir-se apertada, sob pressão, e todo o processo se repete, numa constante evolução e renovação.

Por todos os laços azuis!

Ontem de manhã quando levei a minha filha mais velha à escola ela mostrou-me orgulhosa o laço de muito azuis que ela e os amigos tinham pintado.
– Que bonito! Sabes o que significa este laço?
– Não, mãe…
– É uma história triste mas muito importante para nos recordar que nunca devemos maltratar as crianças. À noite a mãe conta-te a história…

E assim foi. À noite contei-lhe que um certo dia uma avó, de seu nome Bonnie Finney, prendeu uma fita azul à antena do seu carro. Tinha a intenção que as pessoas que vissem a fita se questionassem. A quem lhe perguntava esta avó falava dos maus tratos que a neta sofria por parte dos próprios pais, e que por causa desses maus-tratos já tinha perdido um neto.
Apesar do azul ser uma cor bonita, também simbolizava para esta avó os corpos maltratados e cheios de nódoas negras dos seus netos.
Assim começou a Campanha do Laço Azul, fruto do amor e preocupação de uma avó pelos seus netos e também por querer sensibilizar a sua comunidade para a necessidade de proteger as crianças dos maus-tratos infantis.

A nós adultos, que temos o dever de proteger as nossas crianças, deixo 4 motivos pelos quais não devemos bater nos nossos filhos:

  1. Bater (mesmo que seja ‘só’ a chamada ‘palmada pedagógica’) tende a destruir o vínculo de afeto e confiança e distancia pais e filhos. Não educa. A criança aprende a agir por medo e não por respeito e amor. Uma criança a quem um pai ou mãe lhe bate é mais desconfiada, desenvolve uma baixa autoestima e a facilmente cede à raiva.
  2. Ao bater nos nossos filhos estamos a ensinar-lhes que a violência é um caminho para resolvermos os nossos problemas e conflitos. Será contraditório dizer a uma criança que não se bate, não se grita, não se humilha ninguém, se em casa gritam com ela, a humilham ou lhe batem.
  3. Se dizemos que os amamos e que lhes batemos para o seu bem estamos a passar uma mensagem incongruente e acima de tudo muito perigosa, pois com isso eles aprendem que o amor se pode expressar com violência. No futuro estarão mais permeáveis a cultivar relacionamentos abusivos, seja como vítimas ou agressores.
  4. Ao agredirmos física ou verbalmente demonstramos falta de controlo e uma autoridade frágil e volátil. Revela a falta de argumentos e competências parentais para educar e gerir situações de tensão.

 

Quem me conhece sabe que até era apologista da tal palmada no momento certo. Afinal, “só se perdem as que caem no chão”, habituei-me a ouvir… A minha filha mais velha ainda levou uma ou outra. Nada de que me orgulhe…
Há crianças, bem mais novas do que ela, com a idade dela e até jovens de idades diversas, a quem as palmadas (e até mais) nunca faltam, em prol de uma ‘boa educação’. Assumo que esses pais e educadores procurem fazer o melhor que saibam com os recursos que dispõem, mas, a meu ver, são recursos muito limitados. A intenção talvez seja das melhores mas o meio não justifica o fim. Se a curto prazo uma palmada traz o efeito desejado de conter a criança e evitar que faça disparates, até próprios da idade e do ímpeto de descoberta, a médio e longo prazo a fatura poderá sair cara.

Crianças que são educadas nestes parâmetro habituam-se a obedecer sem questionar. São carentes de constante validação e aprovação, mas permanentemente receosas da reação de quem mais amam.

São aquela menina que os pais podem deixar com quem quer que seja que não dão trabalho ou preocupação alguma. Procuram não fazer nada fora da linha, quase ser ‘invisíveis’, tão temerosas que estão se alguém se chateia, não a aceita ou crítica.

Em contraponto, são também aquele menino ‘difícil’, que desafia tudo e todos, que explode com facilidade, tem dificuldade em ouvir os outros e desenvolver empatia, tornando-se muitas vezes egocêntrico pela necessidade que sente de se defender.

Ainda que com o tempo consigam compreender que a agressividade dos pais e o autoritarismo, com laivos de violência física e psicológica, surja, não raras vezes, das condições em que eles próprios foram criados e educados, ainda que consigam virar a página e desenvolver enquanto adultos uma relação que até se dir-se-ia ‘normal’, a verdade é que na generalidade dos casos perde-se totalmente a oportunidade de criar um vínculo de afeto e confiança. É edificado um muro onde deveria haver um caminho de entendimento, amor incondicional e conexão. A partir de determinada altura os pais ou educadores deixam de ser vistos como um porto seguro onde se pode regressar para contar o que quer que seja. Ao invés, o que quer que seja que haja para contar passa a ser bem medido para não causar más interpretações, desconforto ou ralações. Por isso passa-se a partilhar apenas o imprescindível ou o trivial, nada mais.

Estes pais sentem que amam os seus filhos e estes filhos amam os seus pais, mas raramente dos lábios de uns ou outros brotam as palavras que os corações estão sequiosos de ouvir. A partilha genuína da história de vida e dos sentimentos entre pais e filhos de não existe, e não há nada mais triste que esta ausência de quem aparentemente nos é tão próximo.

Por conhecer estas realidades, a determinada altura, angustiou-me de tal forma a percepção de resvalar para estes caminhos de autoritarismo e controlo cego que me fez partir à descoberta de um modo diferente de ser mãe. Não tem sido um caminho fácil. Perco-me muitas vezes. Dou comigo a querer reagir de uma forma mas a segurar-me para conseguir manter-me na rota da mãe que tenciono ser para elas. Muitas vezes erro, mas também aprendo muito pelo caminho, e tenho aprendido tanto que só posso agradecer por tudo o que a vida me ensinou e ainda ensinará.

Tenho esperança que tudo aquilo que estas crianças e jovens vivam nas suas vidas não os aprisione em comportamentos de reforçam o sofrimento, mas os sensibilize e alerte para tudo aquilo que não querem repetir. De alguma forma, tudo o que a vida nos traz, bom e mau, ajuda-nos a construir as pessoas que somos. Neste processo há sempre uma escolha que podemos fazer: ser reféns das nossas memórias e traumas ou revertermos a história para um percurso de esperança e um final positivo. Não deixaremos de ser imperfeitos e inseguros qb, mas as nossas experiências, se conseguirmos que não nos petrifiquem o coração, têm o dom de nos tornar mais humanos e sensíveis.

A corrida dos sapinhos – uma fábula sobre motivação

Desde cedo é essencial transmitirmos às crianças competências de desenvolvimento pessoal. Motivá-las com o acesso às melhores práticas de autoconhecimento e valorizar o que de melhor têm e são é meio caminho andado para que construam uma vida plena e feliz.

Ainda que pareçam muito pequenas é possível começar a construir pouco a pouco personalidades fortes, focadas, resilientes, destemidas, sonhadoras, confiantes, compassivas e autênticas.

As histórias infantis, pelo impacto que têm no imaginário de referência das crianças, podem ser neste caminho um preciso aliado.

A Corrida de Sapinhos – uma fábula de Monteiro Lobato que  descobri há pouco tempo e que a minha filha mais velha me pede de vez em quando para contar – ensina-nos que quando queremos muito algo há que manter o foco e acreditar que somos capazes, independentemente de todas as vozes contra que se cruzem no nosso caminho e as crenças que se instalam com o intuito de nos desmotivar.

Precisamos de ter coragem e determinação para atingir os nossos objetivos e alcançar os nossos sonhos.

Era uma vez…

…uma corrida de sapinhos. O desafio propunha que subissem uma grande ladeira. De ambos os lados uma imensa multidão assistia entusiasticamente à corrida.

No arranque da competição a multidão gritava:

– Não vão conseguir! Não vão conseguir!

Os sapinhos esforçavam-se mas pouco a pouco alguns não resistiam e abandonavam a corrida. A multidão continuava:

– Não vão conseguir! Não vão conseguir!

E os sapinhos, um a um, continuavam a desistir…

No final da corrida, todos os sapinhos desistiram… Todos, menos um que conseguiu, tranquilo e sem esforço, chegar ao cima da grande ladeira.

Eufórica a multidão queria saber como é que o sapinho tinha atingido aquele feito. Quando lhe foram perguntar descobriram que o sapinho não tinha ouvido nada do que diziam durante o decorrer da corrida. Afinal o sapinho era… surdo!