O Grande Livro do Medo e das Birras

Para sermos os melhores pais e educadores que podemos ser, temos de nos fazer pequenos, olhar e sentir o mundo pelos olhos das nossas crianças e entender que mecanismos físicos e psicológicos, alguns mesmo ancestrais, os fazem responder como respondem em determinadas momentos e circunstâncias.

Se não formos capazes de nos darmos e lhes darmos esse tempo para compreender de onde vêm as birras e os medos, como podemos preveni-los, e quando não possível, ajudá-los a ultrapassá-los? Como vamos ser capazes de perceber as suas raízes e extensão? Como saberemos como reagir de uma forma que a tensão não escale? Como ajudaremos as nossas crianças a lidarem de uma forma saudável com as emoções que não conseguem gerir? Como educaremos uma geração para uma vida mais realizada e feliz?

Não fazermos este esforço tem impacto no desenvolvimento das nossas crianças, no nosso relacionamento com elas e na forma como lidarão no futuro com as contrariedades da vida mas também como valorizarão a beleza que ela tem.

É importante desmistificar as birras e os medos e assumi-los tal qual eles surgem, agindo de forma adequada, sempre com o máximo respeito pela criança, pelas suas necessidades e pelo seu valor inabalável.

Mário Cordeiro é um pediatra reconhecido pela sua sensibilidade para com o saudável desenvolvimento das crianças, a todos os níveis, e por isso gosto de ler o que escreve.

Este livro foi-me dado no Natal pelo meu marido e recomendo a todos os pais e educadores.

Grande Livro dos Medos e das BirrasSINOPSE

Todos os dias é a mesma coisa, não quer tomar banho e foge aos berros da casa de banho. Hoje estávamos no supermercado e como não lhe comprei o que queria começou a espernear, aos gritos, a deitar-se no chão… Uma vergonha! De cada vez que lhe digo que não pode ver televisão, começa aos berros e quer morder-me. A hora da refeição cá em casa é crítica, agora não gosta de nada e chora convulsivamente em frente ao prato. Num momento está muito bem, no outro não sei bem porquê desata aos gritos e a chorar… será preciso descrever mais cenários, ou o panorama, além de assustador, é bem conhecido dos leitores que todos os dias têm de lidar com as birras dos seus filhos? O pediatra best-seller em Portugal Mário Cordeiro garante: não é anormal fazer birras, nem indica qualquer desvio comportamental. Os pais não precisam de se sentir envergonhados e é normal os pais sentirem-se cansados e esgotados perante as birras. Impotentes sem saberem como actuar. A birra é apenas uma expressão de uma multiplicidade de sentimentos, logo, para a compreender há que perceber a sua relação com esses mesmos sentimentos, designadamente o medo e a frustração, o temperamento individual e as etapas do desenvolvimento da criança.

Neste livro prático, Mário Cordeiro aborda o tema dos medos e das birras, nas suas mais diferentes situações: à mesa, no banho, no carro, na escola, nas férias, nas compras… Cenários onde a criança tem sono, fome, está cansada, se vê num ambiente estranho, frustrada ou perante estranhos, e explica-lhe como deve actuar em cada uma delas: – Mantenha-se calmo perante uma birra…

Boas leituras!

SOS Birra: O que fazer quando estão sob sequestro emocional?

SOS Birra

Todos nós sabemos reconhecer uma birra, certo? Não estou a falar de uma simples teimosia, um braço de ferro em que a criança até argumenta com algum sentido, mas sim quando reage de forma desproporcional a um acontecimento, uma palavra ou uma pessoa. Quando não se consegue controlar, ouvir ou fazer perceber de forma calma e lógica o que lhe motiva a tensão, a raiva e/ou desespero, aquele êxtase de emoções que explode em gritos, choro e mesmo agressividade e, tantas vezes, nos apanha na correnteza.

Neste momento a criança não está apenas a fazer uma birra. Na verdade ela está sob o sequestro da amígdala também conhecido por sequestro emocional. E esta, hein?

Porque mesmo nós, adultos, não somos assim tão conhecedores das bases da neurobiologia e de como funciona o nosso cérebro, troquemos este conceito por miúdos.

A amígdala é uma das áreas mais primitivas do nosso cérebro. Existe no cérebro humano mas também no de todos os vertebrados e é a principal responsável pelas reações emocionais básicas – muito útil para o nosso kit de sobrevivência, mas que, não raras vezes, nos traz dissabores quando seria importante termos uma resposta mais ponderada.

Já o córtex pré-frontal é a região do nosso cérebro responsável pelo pensamento lógico, mas é uma área muito mais recente na formação biológica do nosso cérebro, tendo a amígdala um maior peso na equação quando nos deparamos numa situação de tensão.

Quando o nosso cérebro recebe uma informação exterior é o tálamo que a encaminha por duas vias, uma curta e outra longa, para os nossos comandos de ação: a amígdala – comando emocional – e o córtex pré-frontal – comando racional.

Pois, adivinhem só a que comando chega primeiro a informação? Ah, pois é! À amígdala que, se por sorte fizer acionar o ‘alarme’ biológico, desencadeia automaticamente uma rápida resposta à situação, podendo inclusive bloquear o acesso do comando da ‘razão’ à informação, que poderia dar uma resposta mais adequada.

Por certo, todos nós nos lembramos de situações em que depois de reagirmos a quente pensámos: “ai, o que é que eu fui fazer?!”, “não estava em mim…” ou “não sei onde estava com a cabeça!”. Pois é, culpem a nossa amiga amígdala que, da forma expedita e impulsiva que a caracteriza (ainda que com as melhores intenções), tomou conta da situação.

Com as crianças passa-se exatamente o mesmo, com a agravante que o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento e as suas respostas de autorregulação emocional são por inerência muito limitadas, ficando portanto muito mais sujeitas ao (des)controlo da amígdala, que as comanda a seu bel-prazer, bloqueando facilmente o acesso à área racional. Daniel Goleman chama-lhe ‘sequestro da amígdala’. Já Augusto Cury diria que entrámos numa ‘janela killer’ que nos aprisiona.

Numa situação de sequestro todos nós sabemos que há que lidar com muita cautela. Não queremos provocar o sequestrador, fazer ‘vítimas’ e ser responsáveis por danos colaterais. No calor do momento, se não temos cuidado, ainda damos por nós a ficar feridos ou igualmente reféns, mas desta feita de um novo sequestrador, a nossa amígdala. Que caótico não seria….

Conheça alguns passos que pode seguir para lidar com uma situação de sequestro emocional:

  • Isole o perímetro e certifique-se que há condições de segurança para avançar para o controlo da situação. Se estiver num sítio público ou com muita gente por perto, leve a criança para um local calmo, longe do ‘objeto’ de conflito e dos olhares e palpites alheios que podem intensificar o foco de tensão. Se a criança estiver muito agitada garanta que, de uma forma firme (não violenta, mas gentil), ela não se magoa nem magoa ninguém. Um abraço pode ser uma ótima técnica para conter a explosão de emoções e a agressividade, ‘desarmando’ a criança.
  • Controlado que está o ambiente há que procurar ‘dar um tempo’ para apaziguar as emoções que dão gás ao sequestrador e passar a mensagem que estamos disponíveis para avaliar as opções, logo que haja abertura do outro lado para iniciar as conversações.
  • Até a tensão diminuir opte por ficar por perto (ainda que eventualmente noutra divisão) sem corrigir, repreender, insultar, gritar ou bater. A ‘pedagógica’ palmada é uma técnica que só tende a intensificar o drama e trazer para a criança e para si danos colaterais que podem levar muito tempo a resolver. Perceba que a criança é uma vítima do sequestrador e não tem culpa da sua vulnerabilidade biológica determinada pela impreparação do seu córtex pré-frontal para lidar com a situação.
  • No momento de iniciar as conversações coloque-se ao nível da criança, estabeleça contacto visual, mostrando-lhe que está ali para ela e que ela não está sozinha. Estão no mesmo barco e vão conseguir levá-lo a bom porto.
  • Em momento algum se coloque no lugar de vítima nesta história. A criança está no foco da tensão. Não compre essa guerra porque não lhe pertence. Tem no entanto a obrigação, como adulto que é (e com o córtex pré-frontal plenamente desenvolvido), de a gerir e ensinar a criança a munir-se de ferramentas de autocontrolo.
  • Não tente vencer o sequestrador quando ele se sente ‘dono do pedaço’ e não lhe diga insistentemente ‘Não’. Ou antes diga-o mas de forma velada. “Eu sei que querias muito x mas de momento só podemos fazer y”.
  • Valide as emoções da crianças ainda que não pretenda dar azo às pretensões que desencadeiam o sequestro. Se a criança se sentir compreendida restabelece-se a conexão necessária para desarmar de vez o sequestrador.
  • Resolvida que está a questão com o sequestrador há que cuidar da criança e calmamente – agora que ela já está apta para racionalizar a situação – explicar que o comportamento (e não ela) não foi adequado. Deve-se ajudar a criança a identificar como poderia ter resolvido o foco de tensão de uma forma positiva, evitando que fosse tomada de assalto.

 

Podemos pensar que na maior parte das vezes não temos tempo para empreender esta operação ‘Sequestro’ no papel de negociadores privilegiados. É uma escolha…

Contudo, ter presente que a criança faz birra porque há algo nela que ela própria não consegue gerir e que precisa de ajuda, permite-nos controlar de forma bem mais eficaz as situações de tensão, contribuindo para que futuramente ela própria consiga dar uma resposta mais adequada e gerir de forma mais assertiva as suas emoções e impulsos. Também muito importante é o facto de estarmos a promover uma relação mais positiva e saudável com a criança que não temerá em recorrer ao nosso auxílio quando se sentir mal. É imperativo que se distinga o que é a criança do que é a birra, ajudando-a a acalmar ao invés de a tratarmos como um inimigo.

A visita da tua vida

castelo

Uns tentam passar por entre os pingos da chuva, desejando ter uma vida sem grandes sobressaltos e incómodos. Talvez ficar sossegado no seu canto evite dissabores. Focam-se no que parece seguro, no que dá ‘estabilidade’. E por aqui andam, quase invisíveis, indiferentes à magia da mudança, à alegria dos encontros e reencontros da vida. A ver a vida passar, sem verdadeiramente a viverem.

Outros passam a vida apressados, em permanente contrarrelógio. Não se permitem parar, relaxar e apreciar. Quando o fazem, o ritmo acelerado a que se impuseram parece continuar a não dar tréguas. Remoem os dias passados, que não se podem alterar, as preocupações futuras, que não existem. Inventam com que se ocupar. E o tempo presente, esse, esfuma-se.

Num ou noutro caso, no final, nada houve que aproveitar, e acha-se que assim é a vida.

Esta história que li em “Conta Comigo”, de Jorge Bucay, fala da visita a um castelo e no dilema que foi para o visitante apreciar verdadeiramente essa visita. Será que apreciou?

Era uma vez um homem que estava a fazer um passeio turístico pela Europa. Ao chegar ao Reino Unido, comprou no aeroporto uma espécie de guia dos Castelos das ilhas. Alguns tinham dias de visita e outros horários muito estritos. Mas o mais atrativo era o que se apresentava como “A visita da tua vida”.
Nas fotografias, pelo menos, parecia um castelo nem mais nem menos espetacular que os outros mas era especialmente recomendado… Explicava que, por razões que depois se compreenderiam, as visitas não eram pagas antecipadamente, mas tinha de se fazer a marcação propondo um dia e uma hora, com antecedência. Intrigado com a diferença da proposta, o homem telefonou do hotel naquela mesma tarde e combinou um horário.

E qualquer parte do mundo acontece o mesmo: basta que se tenha uma marcação importante, com hora precisa e necessidade de ser pontual, para que tudo se complique. Esta não foi uma exceção, e o turista chegou ao palácio dez minutos mais tarde do que a hora marcada.

Apresentou-se diante de um homem com saia de xadrez que o esperava e lhe deu as boas-vindas.

– Os outros já foram com o guia? – perguntou.
– Não. As visitas são individuais e não temos guias.
Sem fazer qualquer menção ao horário, explicou-lhe um pouco da história do castelo e sugeriu-lhe algumas coisas a que deveria prestar uma atenção especial. As pinturas nas paredes. As armaduras da mansarda. As máquinas de guerra do salão Nobre, debaixo das escadas, as catacumbas e a sala de torturas na masmorra. Dito isto, deu-lhe uma colher e pediu-lhe que a segurasse horizontalmente com a parte côncava virada para o tecto.
– Para que é isso? – perguntou o visitante.
– Nós não cobramos antecipadamente a visita. Para avaliar o custo do seu passeio, recorremos a este mecanismo. Cada visitante leva uma colher como esta cheia até cima de areia fina. Cabem aqui exatamente 100 gramas. Depois de percorrer o castelo, pesamos a areia que ficou na colher e cobramos uma libra por cada grama que tenha perdido… é uma maneira de avaliar o custo da limpeza – explicou.
– E se não perder nem um grama?
– Ah, meu caro senhor, então a sua visita ao castelo será gratuita.

Entre divertido e surpreendido com a proposta, o homem viu como o seu anfitrião enchia a colher e começou logo a sua viagem. Confiando no seu pulso, subiu as escadas muito devagar e com olhar fixo na colher. Ao chegar lá cima, à sala das armaduras, preferiu não entrar porque lhe pareceu que o vento faria voar areia e decidiu descer cuidadosamente. Ao passar junto ao salão que exibia máquinas de guerra, debaixo das escadas, deu-se conta de que para as ver com vagar era forçosamente necessário inclinar-se segurando ao parapeito. Não era perigoso para a sua integridade, mas fazê-lo implicava a certeza de derramar algum do controle da colher, por isso conformou-se em olhar para elas de longe. O mesmo se passou com a mais que inclinada escada que levava às masmorras. Pelo corredor de regresso ao ponto de partida, caminhou satisfeito em direção ao homem com a saia escocesa, que o aguardava com a balança. Ali esvaziou o conteúdo da sua colher e esperou o ditame do homem.

– Assombroso, perdeu menos de meio grama – anunciou. – Felicito-o, tal como o senhor previu, esta visita saiu-lhe gratuita.
– Obrigado…
– Gostou da visita? – perguntou finalmente o rececionista.
O turista hesitou e por fim decidiu ser sincero.
– A verdade é que não muito. Estava tão ocupado a tentar não entornar a areia que não tive oportunidade de olhar para o que o senhor me sugeriu.
– Mas… que disparate! Olhe, vou fazer uma exceção. Vou encher outra vez a colher, porque é a norma, mas agora esqueça-se de quanto vai derramar. Faltam 12 minutos para que chegue o próximo visitante. Vá e regresse antes que ele chegue.

Sem perder tempo, o homem pegou na colher e correu para a mansarda; ao chegar aí deu uma olhadela rápida ao que havia e desceu a correr para as masmorras, enchendo as escadas de areia. Não se demorou quase nada, porque os minutos passavam e voou praticamente até à passagem debaixo das escadas, onde, ao inclinar-se para entrar, deixou cair a colher e derramou todo o seu conteúdo. Olhou para o relógio, tinham passado 11 minutos. Ficou outra vez sem ver as máquinas e correu em direção ao homem da entrada a quem entregou a colher vazia.

– Bom, desta vez sem areia, mas não se preocupe, temos um acordo. Que tal? Desfrutou da visita?
O visitante hesitou outra vez por uns momentos.
– A verdade é que não – respondeu por fim. – Estive tão preocupado em chegar antes do outro, que perdi toda a areia, mas voltei a não desfrutar de nada.

O guia acendeu o cachimbo e disse-lhe:
– Há os que percorrem o castelo da vida procurando que não lhes custe nada, e não conseguem desfrutar dele. Há outros que estão tão apressados em chegar rapidamente que perdem tudo sem o desfrutar. Alguns aprendem esta lição e demoram o tempo que julgam necessário em cada percurso. Descobrem e apreciam cada canto, cada passo. Sabem que não será gratuito, mas entendem que os custos de viver valem a pena.