Quase a ser mãe… MEDO!!!

maternidade

Quando éramos pequenas, eu e tu brincávamos às mães e aos pais, como muitas meninas o fazem nessas idades. Recordo-me que não tínhamos muitas bonecas e as que tínhamos a mãe guardava em cima do roupeiro para não se estragarem (ou não as estragarmos). Já não me lembro o que lhes aconteceu quando crescemos e elas, bem conservadas nas respetivas caixas, desapareceram de casa, quase sem uso. Assim, sem bonecas mas com muita imaginação, improvisávamos.

Meio palmo de gente, confiávamos que sabíamos perfeitamente o que fazíamos quando prestávamos os cuidados básicos aos nossos bebés. As papinhas eram sempre deliciosas, os banhos estavam sempre na temperatura certa. A muda da fralda não era problema, até porque nem sequer havia assaduras, assim como não havia noites mal dormidas, interrompidas pela fome, chichi, cocó ou pura necessidade de afeto do pequenote. Os nossos bebés raramente adoeciam e quando isso acontecia uma de nós representava na perfeição o papel de médico, de tal forma que mal a mamã e bebé punham o pé fora do consultório já estava tudo bem. Se bem me recordo, também choravam muito pouco esses bebés porque logo que os segurávamos percebíamos o que lhes faltava. Às vezes bastava um pouco de colo, nada mais. Era tão simples…

Hoje crescemos e a confiança que guiava os nossos gestos com esses imaginários bebés perdeu-se algures nessa meninice encantada. A poucos dias de sermos mães, atormenta-nos o medo da responsabilidade que aí vem, não é verdade? Até aqui, mal ou bem, só precisávamos de cuidar de nós. Mas não tarda tens esse pequeno e frágil ser no colo, à mercê do mundo, a contar contigo.

Dizias-me, há dias, que o que mais receavas não era o momento do parto – se estava lá dentro teria de sair, é inevitável – mas sim o pós, a dúvida de se estarás à altura das exigências de ser mãe, se serás capaz.

Como mãe que sou, com iguais inseguranças por que passei, com todas as dúvidas e erros que cometi e cometerei, com todas as lágrimas que já chorei e os sustos que apanhei, mas também com todas as alegrias que já vivi, a ternura que experienciei, as risadas que já dei com as minhas meninas e todos os momentos de pleno orgulho que senti enquanto mãe e ser humano, garanti-te que sim.

Mas no começo não é fácil. O amor não é um sentimento que se materialize em nós instantaneamente (pelo menos não para todos). O amor é feito de laços que se criam. Não surge de repente. Por isso o amor requer muita da nossa disponibilidade, paciência e entrega, para descobrir o outro e nesse processo descobrirmo-nos no nosso novo papel, nesse namoro em que nos demoramos com o nosso bebé.

Sabes, quando a B nasceu não me senti envolta em nenhuma aura de amor incomensurável. Ela foi colocada no meu peito e era perfeita. Finalmente era real depois de meses em que a senti em ‘abstrato’ a crescer dentro de mim. Contudo, ainda que perfeita não deixava de a ver como uma extraterrestre recém-chegada. Lembro-me de olhar para ela, horas depois de nascer, e pensar:

‘E agora? O que faço contigo? O que fazemos as duas?’

Por mais cursos de preparação que haja, por mais que se leia sobre o tema, por mais que se oiçam as mais diversas histórias – boa parte delas de uma arrebatada paixão que nasce com o teste de gravidez positivo – por mais que se sinta crescer o bebé dentro de nós e a ocupar cada vez mais e mais o seu espaço naquilo que somos, não era mágico o que senti. Era uma imensa confusão e não durou apenas umas horas ou dias. Foram semanas, meses talvez de uma enorme turbulência emocional. Eu era uma menina-mulher à descoberta do que é ser mãe, a aprender o que é cuidar de uma filha. Nada me havia preparado para a sensação de ter uma perfeita desconhecida aninhada no meu peito, tão desprotegida e carente, como também não me preparou para a fragilidade e impotência velada com que me sentia naquele momento.

De repente, sem qualquer anestesia psicológica e a debater-me com as ‘dores tortas’ que fisicamente me faziam também sofrer (para estas ainda assim há analgésicos), estreei-me num novo e imenso papel, que senti maior que as minhas forças e capacidades. Não minto que os primeiros meses foram muito desafiantes. Talvez os primeiros anos. Na verdade, mesmo quando nasceu a L, a sensação – embora com nuances diferentes – manteve-se.

Sabes, mana, no início, especialmente quando deixamos aquele ambiente controlado do hospital, onde contamos com o apoio de especialistas, aparece acima de tudo o medo e todas as suas faces: a frustração, a raiva, o descrédito, o desespero, a angústia,… Estamos doridas, física e mentalmente, e sentimo-nos colocadas à prova como nunca antes. O nosso corpo está em regeneração e adaptação após o parto e, de certa forma, creio que a nossa mente gere ainda a ‘amputação’ daquele que é o mais precioso milagre que aconteceu dentro de nós. Amputaram-nos um segundo coração, que agora tem vida própria, um rosto e uma história por escrever.

A responsabilidade que assumimos para com essa vida, que era até então tão visceralmente nossa, e de tudo quanto vislumbramos para o seu futuro, faz-nos tremer as pernas, suar, sentir tonturas, na dúvida que se instala se iremos saber ser alicerce bastante para apoiar e dar segurança à construção dessa pessoa, que se espera que cresça saudável e feliz.

Dúvidas nunca vão deixar de existir. É o desconforto, que nos incomoda e nos agita, que nos obriga a questionar e procurarmos ser o melhor que podemos ser. Não menosprezes por isso as tuas dúvidas e inquietações. Pára e ouve-as. Mas não te atormentes se não encontras as respostas que procuras. A culpa oculta a força que tens. Na dúvida, escolhe sempre os atos de amor. No cuidar e no amar procura ser sempre a mãe que queres que ela recorde. Educa presente da tua intenção enquanto mãe e não nos objetivos que possas fixar para a tua menina. Não alimentes expectativas. Isso limita-a. Ela será um livro em branco, um mundo de oportunidades que não cabe nos nossos confinados horizontes.

Madre Teresa dizia sobre eles:

Os filhos são como as águias,
Ensinarás a voar mas não voarão o teu voo.
Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos.
Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida.
Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos.

Duvida, questiona-te e tem a coragem de mudar o que tiveres de ser em nome desse amor que se constrói e fortalece hora-após-hora, dia-após-dia, a cada encontro de olhar, cada sorriso, cada carícia, cada afeto, cada cuidar, para enfim seres a referência de mãe e mulher que queres que a tua filha guarde e procure sempre que tiver necessidade.

Acredita que tens em ti todas as respostas para as tuas inquietações. Quando a incerteza te cercar e outras vozes se tentarem sobrepor à tua, respira fundo. No lugar de dares ouvidos a terceiros e acalentares opiniões alheias, dá voz ao teu coração. Inspirado por aquela menina que se imaginava no papel de mãe, ele saberá responder à pergunta:

O que faria nesta situação essa mãe que sonhei ser?

No confronto com esta simples pergunta encontras a mais sábia resposta. Se a mantiveres sempre presente, verás que no reflexo dela crescerá uma outra menina, igualmente forte, confiante e feliz.

 

Dedicado à minha irmã

Um café, dois dedos de conversa e uma amizade sem idade

Café e amizade sem idade

 

Há uns meses, inspirada por um livro que lia na altura, dei por mim a pagar um café a uma senhora que se sentou na mesa ao lado. A ideia era fazer algo por alguém, sem olhar a quem. Ter um ato de generosidade gratuito, simples, sem esperar nada em troca, para além da reciprocidade que a vida sempre traz de, ao menos, nos sentirmos mais fraternos.

Durante praticamente todo o tempo em que estive na pastelaria conversava por telefone com a minha irmã, mas dei-me conta que a senhora em questão, já com alguma idade e dificuldade de locomoção, teria tido uma manhã algo penosa. Das palavras que ouvi trocar com a empregada de mesa fiquei a saber que passou a manhã no hospital, a fazer exames. Um deles havia-lhe custado particularmente.

Perto da hora de regressar ao trabalho fui à caixa e pedi para pagar o meu café e o da senhora que estava na mesa ao lado. A empregada, algo surpreendida e até consternada, indicou-me que não havia necessidade, a senhora não precisava. Insisti, disse-lhe que não se tratava de caridade. Simplesmente gostaria de oferecer aquele café. Ela olhava intercaladamente para mim e para a senhora da mesa ao lado. Por fim, dirigindo-me à senhora perguntei:

Não se importa que pague o seu café? Reparei que teve uma manhã difícil e gostava de lhe oferecer este miminho.

Agradeceu com um sorriso generoso a amabilidade e por fim lá paguei.

Alguns dias depois quis o destino que eu e a senhora nos voltássemos a encontrar. Ironicamente, na esplanada onde fui beber café, só havia um lugar disponível – na mesa em que a senhora estava sentada, mesmo de frente para ela. Perguntei-lhe se se importava que me sentasse, visto ser o único lugar vago. Com um sorriso pronto disse:

‘De todo. Sente-se. Faz-me companhia’.

Rapidamente se lembrou de mim e começámos a conversar. Soube então que aquela bem-disposta senhora, de cabelo curto, pintado de vermelho, de 89 anos, se chama Milu.

Foi o primeiro café de muitos que já tomámos juntas desde então. Encontramo-nos com regularidade, praticamente sempre na mesma pastelaria e na mesma mesa.

Quase com o triplo da minha idade poderia pensar-se que poucos assuntos comuns teríamos, mas nada mais errado. Falamos um pouco de tudo. Da família, do que fazemos, dos planos, dos nossos interesses, de livros e hobbies, das perspetivas de vida que temos, enfim… São sempre minutos muito bem passados, numa conversa de tempo contado mas sem idade, entre duas amigas que gostam de partilhar um café e dois dedos de conversa.

Hoje a Milu faz 90 primaveras e esta é a minha forma de homenagear esta amiga que muito estimo. Gosto da sua frontalidade, da irreverência, a curiosidade, a alegria e a jovialidade.

Os anos começam naturalmente a pesar-lhe. Sente-o no corpo e em cada atividade que deixa de poder fazer e outrora lhe era tão fácil de executar. Fica frustrada porque mentalmente não se revê nas limitações físicas que sente, mas aceita que é o preço da longevidade.

Apesar da dependência que tem hoje em dia, não deixa de sair para ver gente e se distrair. Escreve alguma poesia que publica na sua página de Facebook e pinta. Disse-me há tempos que quando se reformou, não queria ficar a definhar em casa. Sempre foi ativa e por isso decidiu aprender Pintura na Escola de Belas Artes para ter uma ocupação.
Esta minha amiga é uma artista e uma mestre da vida. Por vezes diz-me que acredita não ser deste mundo, porque sente que não se enquadra nas vidas e experiências que vê por aí. Não se identifica com outras pessoas da sua idade pela forma conformada com que vivem encarcerados nos anos a que sobrevivem.

Eu acredito que o segredo da Milu é a forma resistente e inconformada com que encara a vida. Se as rugas não permitem esconder a sua idade, a iniciativa que mostra e a vontade de viver que espelha no seu ávido olhar não enganam. Nesta minha amiga a idade é apenas um pormenor.

Concordo plenamente com Hermann Hesse quando diz que:

A idade só se aplica às pessoas vulgares.

 

Parabéns, Milu! E que continuemos por muitos anos a beber os nossos cafés.

P.s: Continuo a pagar de quando em quando, aqui e ali, um café a desconhecidos. As reações são sempre de surpresa e muitas vezes de desconfiança. Às vezes fico sem jeito quando as pessoas se demonstram tão apreensivas e, estranhamente alguns até mostram algum desdém pelo facto de alguém lhes dar algo só porque sim. De vez em quando tento explicar, mas tal como a Milu, fico com a sensação de que sou uma extraterrestre. Talvez por isso, com nenhum outro destes ‘desconhecidos’ comq eu me cruzei tenha mantido o hábito de nos encontrarmos para um café.

“PÁRA!!!” Quando parece que é contigo, mas é comigo que grito

maosdadas

Apesar de presente o desafio de não aceitar presentes tóxicos, ironicamente, a semana que passou mostrou-se particularmente difícil para cultivar uma atitude serena e compassiva para comigo e para com os outros.

Desculpas à parte, poderia dizer que as exigências dentro e fora de casa avolumaram-se. Mas a verdade é que o cansaço, o stress e as ‘pre-ocupações’ que não consegui internamente gerir agigantaram-se e criou-se o monstro.

Num fim de dia destes, entre birras da TV que ainda não se quer desligar e de onde não se tira o sentido (nem para responder quando a chamam pela milésima vez), o braço-de-ferro do jantar de que não se quer ouvir falar quanto mais comer, aliadas a outras contrariedades que amiúde foram surgindo vindas de vários sentidos (mas sobretudo de mim mesma), fizeram com que sentisse crescer em mim o lobo que não queria alimentar.

O desafio revelou-se enorme. Não queria de todo perder as estribeiras, mas não consegui. Ela chorava e gritava, e dei por mim a segurá-la e gritar-lhe para parar.

Ela assustou-se. Chorou mais ainda.
A mais pequena começou também a chorar, sem perceber de onde veio aquele reboliço e mau ambiente.
E eu assustei-me comigo, porque no fundo, sabia que aquele ‘PÁRA!!!’ não foi para ela ou sequer para o que estava a acontecer exteriormente, mas para mim e para o turbilhão de emoções que se descontrolavam aqui dentro.

Pedi-lhes um minuto. Uma pausa para mim, para me recompor. Saí de cena e fui para o quarto.
Sentada na cama, com as mãos a apoiar a cabeça, pensei:

“Está tudo bem. Acalma-te… Não te sintas mal. Importante é a diferença que podes fazer agora, no momento que se segue. O que vais fazer?”

Entretanto ouvi-a dizer ao pai:

“Quando a mãe falou assim comigo eu pensei que ela não gostava de mim”.

Arrepiei-me.
Dei-me mais alguns minutos para serenar. Aproveitei para ir deitar o lixo fora e respirar o ar fresco da noite.
Regressei a casa e com ela já deitada sentei-me ao lado dela. Com a voz agora mais calma e falando baixo, pedi-lhe desculpa pela birra que eu fiz. Sim, porque se ela fez uma grande birra, a minha birra não foi menor. Às vezes, acontece-nos, a todos, pequenos e graúdos. Mas eu sei, e devo procurar ter sempre a consciência de que ela é pequenina. Está a aprender a gerir as emoções dentro dela e a expressar-se, e nem sempre tem os recursos disponíveis para o fazer da melhor maneira possível. Por isso conta comigo como orientadora nesta missão. Nesta noite senti que não estive à altura, apesar do muito que queria e de todo o esforço interior que tentava fazer.

Mais apaziguadas, expliquei-lhe que às vezes sentimos coisas que se tornam maiores que nós, explosivas, quase incontroláveis. Mas temos de fazer a nossa parte para parar esse carro desgovernado que somos naquele momento para não ferirmos ninguém. Por isso tive de sair um pouco para me reorganizar e reencontrar. Precisava de deixar de alimentar o lobo faminto que se empanturrava da raiva, da adrenalina e da confusão mental que me controlava.

Expliquei-lhe que se lhe falei naquele tom não foi por não gostar dela. Isso jamais aconteceria! Aconteça o que acontecer, mesmo quando faço cara de má ou digo que estou triste, eu sei – e preciso que ela saiba também – que irei amá-la sempre. O que me entriste ou faz zangar não é a pessoa que ela é, mas sim os comportamentos que ela por vezes tem, e é sobre eles que tento agir, sem colocar em causa o quanto ela é merecedora de todo o meu respeito.

Se me exaltei não foi culpa dela, mas minha, que me senti perdida nesta guerra interna entre me tentar acalmar e responder adequadamente à tensão crescente que se instalara. Se me chateei não foi com ela, mas comigo, que me senti incapaz de me controlar e gerir pacificamente a situação.

Tudo isto lhe expliquei, para que entenda que, por vezes, a gerir as emoções estou tão impreparada quanto ela. Apesar de adulta também estou a aprender. Neste caminho aprendemos as duas.

Fiquei ali sentada de mão dada com ela, e com a mais pequena que entretanto se instalara no meu colo. Ainda que pouco pareça entender destas ‘guerras’ eu sei que também já as sente.

O ambiente ficou então tranquilo. Tornou-se de novo mais leve e acolhedor. As duas rapidamente adormeceram, uma ao colo, serena e reconfortada, a outra com as pequenas e inquietas mãozinhas confiadas às minhas.